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Missas do dia 16 - Ano de 2017


CD Irmã Benigna Lembranças - 4ª edição


Momentos de oração da devoção à Serva de Deus Benigna

Todas as segundas-feiras, às 14 h - Missa e Novena de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia no Santuário Nossa Senhora da Conceição - Rua Além Paraíba, 152. Lagoinha. Belo Horizonte.

Primeiro sábado de cada mês, a partir de 9 h - Missa e Oração dos Vinte Terços na Capela São Luiz - Recanto Monsenhor Domingos. Caeté. A Amaiben organiza ônibus para levar os devotos. Informações: Mariete (31)999542630 ou Celeste (31)997844732.

A partir do segundo sábado do mês, às 9 h - Missa, Terço, Ladainha e Ofício de Nossa Senhora na Capela do Noviciado Nossa Senhora da Piedade - Av. Antônio Francisco Lisboa, 102. Bandeirantes/Pampulha. Belo Horizonte.

Dia 16 de cada mês – Missa em ação de graças pela vida e Santidade da Serva de Deus Benigna.


Celebração Eucarística em Ação de Graças pela vida e santidade da Serva de Deus Benigna Victima de Jesus – 16 de Agosto, em Belo Horizonte


Aniversário de nascimento da Irmã Benigna


Bazar da Serva Benigna


Abertura do Jubileu na Arquidiocese de Diamantina

A Igreja de Diamantina celebra 100 anos de sua elevação à dignidade de Arquidiocese e 150 anos do Seminário Sagrado Coração de Jesus. A Amaiben esteve presente, através de um grupo de amigos e devotos da Irmã Benigna, na Celebração Eucarística que marcou a Abertura do Jubileu, presidida pelo Arcebispo Dom Darci José Nicioli e concelebrada por vários Bispos e Sacerdotes.


110º aniversário de nascimento da Irmã Benigna


Semana do nascimento da Irmã Benigna


Valor da solidariedade

Viver a solidariedade é indispensável para possibilitar que as práticas políticas recuperem a sua inteireza. É necessária uma limpeza nos mais variados mecanismos de funcionamento da política. E de forma urgente. A solidariedade, por ser um valor capaz de requalificar, permite reconstruir o esgarçado tecido da cidadania. Por isso, em todos os momentos, em diferentes sociedades, é indispensável fazer referência, propor iniciativas e refletir sobre a solidariedade. No coração da prática solidária está o princípio fundamental e inegociável da consideração para com o outro. O apóstolo Paulo faz essa recomendação, estabelecendo esse valor como fundamento da identidade daquele que tem fé. Explica o apóstolo: exemplar é o gesto de Deus ao oferecer à humanidade o que tem de mais precioso, seu filho Jesus, o Salvador. Assim, Deus antecipa-se no gesto de reconciliação com o ser humano, deixando a lição fundamental de que é preciso reconhecer a importância do outro. Esse “outro” é você, eu, cada um de nós. Esse princípio tem força de equilíbrio, pois conduz a civilização na direção humanística que permite superar crises.

Embora muitas vezes se reconheça o valor da solidariedade, sabe-se que não é tão simples plantar e fazer florescer essa convicção nos corações. Na política, por exemplo, em vez de se investir nos gestos solidários, prevalece a crença de que avanços diversos dependem de conchavos, ideologias partidárias ou simplesmente das promessas nunca cumpridas. Contenta-se assim com ensaios de lucidez, insuficientes para atender aos urgentes anseios do povo, principalmente de quem é mais pobre. Falta, pois, na sociedade brasileira, um tecido solidário de qualidade.

Quase sempre, o que se verifica no Brasil é um discurso de autoelogio sobre certas práticas dedicadas aos outros. Em “alto e bom som”, há os que proclamam que a cultura latina e a brasilidade têm na solidariedade um valor inerente. Fazem referências desdenhosas a outras culturas marcadas pela objetividade, interpretando essa característica como “frieza”. Mas, na prática, isso serve apenas para aliviar as consciências de pessoas que não se doam ou se contentam em fazer tímidas doações a projetos sociais.

Ora, isso é bem diferente do que ensina o princípio apresentado pelo apóstolo Paulo – considerar a importância do outro. O apóstolo adverte que a liberdade, quando se torna pretexto para buscar o que satisfaz, mas não convém, provoca desastres. Incapacita a competência humana e espiritual de amar ao outro como a si mesmo. O resultado é nefasto, diz o apóstolo: “Se vos mordeis e vos devorais uns aos outros, cuidado para não serdes consumidos uns pelos outros!”. Paulo indica o caminho a seguir: “Fazei-vos servos uns dos outros, pelo amor”.

Ao trilhar esse percurso e reconhecer o valor da solidariedade, colabora-se com a construção de uma cultura que contemple fortes sentidos de pertencimento, patriotismo e apurada sensibilidade humana – que se desdobra em gestos e ofertas mais generosas. Quem se faz servo apura a própria visão da realidade e consegue ouvir os clamores de quem necessita de ajuda. Por isso mesmo, urgente e prioritário neste momento em que a sociedade brasileira precisa sair da crise é reconhecer que a solidariedade é determinante nas dinâmicas sociais. Isso não é uma simples reflexão teórica, mas indicação de uma exigência moral com força transformadora, pois possibilita o surgimento de atitudes que estão na contramão das violências que dizimam, das corrupções que sucateiam e da perda da percepção de que todos são destinatários, igualmente, de condições dignas.

A solidariedade é, pois, princípio social e virtude moral. Vivenciá-la é investir na edificação de um contexto novo e melhor. Sem esse princípio e virtude, não se conquistam os ordenamentos sociais almejados. As relações pessoais continuarão comprometidas e em processo crescente de deterioração. E um perverso ciclo é alimentado, pois as pessoas tornam-se cada vez mais distantes das estruturas dedicadas à solidariedade. Com isso, por ignorância, são perpetuadas regras e leis que são inumanas e pesadas.

Para além de um sentimento qualquer de compaixão vaga e superficial, a solidariedade tem o valor de despertar e criar o gosto imperecível pelo bem comum. E todo cidadão para ser eterno aprendiz do valor da solidariedade tem que praticá-la, diariamente, permanentemente. Esse exercício exige considerar a importância do outro, abrir os olhos e os ouvidos para nunca ser indiferente com as dores do mundo, lutar para sair das zonas de conforto e deixar-se incomodar pelos sofrimentos da humanidade. Uma postura que requer, inclusive, a disposição para tirar do próprio bolso quantias a serem destinadas a projetos sociais e ações solidárias. Pois, a sociedade estará na direção de superar seus descompassos e a cidadania se qualificará quando prevalecer o inestimável valor da solidariedade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Modismos e imitações

O descompasso ético-moral que afeta fortemente a sociedade contemporânea explica também o fenômeno instigante da adoção fácil de modismos de todo tipo. Já as atitudes que merecem servir de modelo encontram resistências. Busca-se, a qualquer preço, conquistar certa “originalidade”, aceitando, sem critérios, aquilo que é exótico. Assim, as pessoas copiam gestos, atitudes e adotam traços de tribos urbanas para serem aceitas em determinados grupos. E tudo o que aparenta ser “certinho demais” é rechaçado. A simetria e o perfeccionismo são considerados obsoletos e fora de propósito. Cada vez mais, o que vale é fugir de padrões. Algo que se faz, paradoxalmente, adotando modismos.

A imitação, considerada “careta” e fora de propósito, consolida-se, de modo contraditório, em atitudes e no uso de objetos, roupas e gírias que têm força para promover a identificação com grupos que estariam fora dos considerados “padrões convencionais”. Os modismos contribuem muito para a formatação de identidades. Mais até do que princípios éticos e morais, necessários para promover desenvolvimento qualificado da cidadania. Isso, certamente, é também uma explicação para os procedimentos e posturas condenáveis que têm minado os funcionamentos de muitos setores da sociedade.

Esse fenômeno dos modismos tem, incontestavelmente, relação com a emergência hegemônica da subjetividade. Cada vez mais, os entendimentos, desejos e escolhas são definidos para atender parâmetros e expectativas individuais, mesmo quando isso possa significar prejuízo para os outros. O sentido social que faz o sujeito corrigir-se e balizar suas posturas de modo a não ameaçar o bem comum, não ferir a dignidade de outras pessoas, é gradativamente relativizado.

Assim proliferam comportamentos que alimentam o desarvorado desejo de fazer valer a própria subjetividade, mesmo que isso signifique gerar prejuízos para a coletividade. Vale tudo para conquistar a própria satisfação: princípios inegociáveis deixam de ser o ponto de partida para se alcançar metas. Fundamentos éticos e morais, quando percebidos como obstáculos na busca da satisfação pessoal, são facilmente relativizados. Desse modo, os sujeitos pautam suas escolhas e justificam atitudes alegando que têm o direito de fazer o que lhes convêm e lhes é mais prazeroso. Essa postura egoísta é camuflada em diferentes modismos, que ganham espaço facilmente talvez por sua pretensa característica de protesto, além da capacidade para alimentar o gosto pelo que desperta curiosidade, por ser inusitado.

Esse fenômeno torna-se grave quando se considera algumas de suas consequências: o quase não percebido processo de despersonalização, a séria supervalorização de indivíduos em relação ao coletivo e a adoção inadequada de práticas que tomam lugar de valores culturais importantes para os funcionamentos da sociedade. Obviamente, modismos não são avanços nas indispensáveis atualizações exigidas pelo mundo contemporâneo.

Mais importante do que a simples assimilação de certos padrões nos modos de ser e de agir, a partir de exacerbações da subjetividade, está a necessidade de superar preconceitos e adotar práticas alicerçadas em valores inegociáveis. Pensa-se muitas vezes que imitar algo, mesmo que seja bom, possa representar falta de originalidade. A subjetividade humana contemporânea se seduz muito facilmente pela presunção de ser referência única e inigualável. Por isso, muitos ridicularizam o uso de gestos e práticas, simples ou mais significativos, já vividos por outros. Classificam essa postura como “pobreza na criatividade”. Essas pessoas, normalmente, se enxergam como o ponto de referência no contexto social. Por isso, cometem um equívoco, pois imitar quem se dedica à bondade e espelhar-se nas pessoas que são referência no que fazem de importante para o desenvolvimento social são atitudes que fortalecem a cultura do bem.

Os modismos são fugazes. Mas imitar quem se dedica às boas ações e aos valores inegociáveis é contribuir para que toda a sociedade supere situações críticas, provocadas justamente pela falta de condutas éticas. A coragem de inspirar-se em quem promove o bem pode fazer crescer o apreço por imitações que farão muitos, idealmente todos, a repetir, despretensiosamente, gestos, ações e posturas orientadas pela bondade, o que garante o crescimento humano nos trilhos da verdade e da justiça.

Paulo apóstolo, consciente de sua tarefa e à luz da sua responsabilidade missionária, não deixou de convidar seus interlocutores a serem seus imitadores. Imitar quem faz o bem é um investimento que garantirá ao conjunto da sociedade a confecção de um novo e consistente tecido cultural, ancorado na bondade e na verdade que sustentam a justiça. Menos modismos, mais imitações de quem faz bem o bem.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Cuidado com as intolerâncias

O crescimento de intolerâncias nos mais diversos âmbitos da vida causa perplexidade ao desafiar os limites da civilidade. Esse fenômeno tem levado pessoas a fazerem “justiça com as próprias mãos”. Assim, cresce a violência – atos de barbárie nas ruas, nos lares e em tantos outros ambientes. Medo e pânico: a qualquer momento, tudo pode acontecer. Por mais aparelhada, a segurança pública parece não ser suficiente para manter a civilidade e a paz. Os investimentos na educação é que são urgentes para mitigar a violência gerada pelo crescimento de desigualdades e dinâmicas irracionais.

Nesse sentido, o conjunto de fatores que produzem intolerâncias merece análises e reflexões, com a ajuda de especialistas nas diferentes áreas do saber. É preciso encontrar a solução para a escalada da intolerância, mal que faz crescer a loucura da desconfiança – todo mundo se arma contra tudo e todos.

É difícil reconhecer, mas a intolerância costuma residir até mesmo no ato simples de, cegamente, fixar-se na defesa e convicção das próprias compreensões, desconsiderando perspectivas divergentes. Essa postura aprisiona o ser humano na rigidez e o incapacita para a participação em diálogos construtivos. Situação preocupante por comprometer o alcance de entendimentos, a competência para preservar a paz, o bem comum e o que, de fato, possa garantir a promoção e o desenvolvimento integral em benefício de todos.

A irracionalidade da rigidez contamina representantes do povo que, na tarefa de zelar pelo bem comum, apropriam-se do patrimônio coletivo em benefício próprio. Revela-se também nas pessoas que buscam apenas o usufruto egoísta de benesses. Manifesta-se ainda naqueles que, no exercício das próprias responsabilidades, limitam-se a fazer o mínimo necessário, um jeito simplório de vivenciar a cidadania. Percebe-se, assim, que a irracionalidade da rigidez é verdadeira prisão. Nesse sentido, é possível afirmar que a intolerância brota da incompetência para exercer o dom da liberdade.

A vivência da liberdade garante a cada pessoa a oportunidade de participar de diferentes processos importantes da vida social. Mas, para isso, exige do cidadão a capacidade para a leitura generosa e solidária das relações humanas, do inegociável respeito à liberdade dos outros. Essa competência inclui o sentido de respeito a outras pessoas, aos valores, à história e às instituições.

Na raiz das intolerâncias está a pobreza humanística que compromete a cidadania e o dom da liberdade. Um grave problema causado pelo desrespeito – fonte de loucuras que precipitam o conjunto da sociedade na delinquência, nas irracionalidades. Nessa perigosa direção, cada um se elege, tranquilamente, como sendo parâmetro das definições, das escolhas e das opções. O resultado é um quadro insano onde ninguém abre mão da própria opinião. A estreiteza de horizontes instala na sociedade um “bate cabeça”, desvinculando-a do compromisso de ser ambiente da cidadania solidária. Em vez disso, instala-se um cenário infernal de intolerâncias.

Para alcançar a paz social, cada cidadão precisa contribuir significativamente no desenvolvimento e manutenção da cultura do encontro, que pressupõe a convivência harmoniosa entre pessoas diferentes. O passo primeiro é cada um estar aberto ao diálogo, para a construção de entendimentos livres de preconceitos. Eis o caminho mais acertado para combater as muitas formas de intolerância e promover o respeito aos direitos e à dignidade de cada pessoa.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


E o seu lado espiritual?

Cultivar a espiritualidade ainda não faz parte do cotidiano de muitas pessoas. Pouco se compreende que esse exercício é um pilar determinante na sustentação da interioridade e de uma qualificada participação na vida social. Por isso, muitas dinâmicas estão comprometidas. Ilusoriamente, pensa-se – talvez por forças de secularismos, excesso de racionalizações ou imediatismos – que a espiritualidade é opcional, mais apropriada para alguns mais devotos. Na verdade, a espiritualidade é indispensável para sustentar a vida de todos em parâmetros qualificados. Assim, um permanente desafio é estar em sintonia com o que diz o salmista, nas Sagradas Escrituras: “Desde a minha concepção me conduzistes, e no seio maternal me agasalhastes. Desde quando vim à luz vos fui entregue, desde o ventre de minha mãe sois o meu Deus”.

A humanidade, mesmo emoldurada por diferentes manifestações confessionais e religiosas, não prioriza o hábito de cultivar a espiritualidade. As consequências são o comprometimento da vida, com equívocos nos critérios que regem discernimentos e escolhas, a prevalência da mediocridade na emissão de juízos e nas iniciativas que deveriam corresponder à dignidade própria do ser humano, na sua inteireza. A cultura da dimensão espiritual no cotidiano significa reconhecer a presença de Deus no lugar que Lhe é próprio, conforme ensina o salmista, em oração: “Porque sois, ó Senhor Deus, minha esperança, em vós confio desde a minha juventude. Sois meu apoio desde antes que eu nascesse, desde o seio maternal, o meu amparo. Vosso louvor transborda nos meus lábios, cantam eles vossa gloria o dia inteiro. Não me deixeis quando chegar minha velhice, não me falteis quando faltarem minhas forças. Eu, porém, sempre em vós confiarei, sempre mais aumentarei vosso louvor”.

O lado espiritual não é apenas uma parte da existência. Trata-se de alicerce para a vida, cultivado pelo desenvolvimento da competência de se contemplar, isto é, tornar-se capaz de mergulhar no sentido mais profundo de cada ser, de cada criatura, superando superficialidades. E a oração é, por excelência, a experiência do exercício da espiritualidade. Causa empobrecimento considerar a oração como um recurso de poucos, para momentos passageiros de aflições maiores. As preces possibilitam o enraizamento de si mesmo na verdade e na fonte do amor que é Deus. Tertuliano, reconhecido escritor dos primeiros anos da era cristã, destaca a força da oração, ao comentar: “nos tempos passados, a oração livrava do fogo, das feras e da fome. Agora, a oração cristã não faz descer o orvalho sobre as chamas, ou fechar a boca de leões, nem impede o sofrimento. Mas, certamente vem em auxílio dos que suportam a dor com paciência, afasta as tentações, faz cessar as perseguições, reconforta os de ânimo abatido, enche de alegria os generosos, acalma tempestades, detém ladrões, levanta os que caíram, sustenta os que vacilam e confirma os que estão de pé”.

A oração possibilita ao humano experimentar o deserto de seu próprio ser. Leva-o a reconhecer sua condição solitária e pobre, para explicitar sua dependência de Deus. O lado espiritual de cada pessoa é que lhe permite assumir e conquistar a humanidade verdadeira e integral. Na espiritualidade, cultiva-se o silêncio que faz da própria vida um ouvir determinante, gera-se a competência para o diálogo que promove a cultura do encontro e quebra, com propriedade, a rigidez da mesquinhez. A experiência espiritual qualificada é que nos permite cultivar e aproveitar os nossos dons, edificando a unidade interior básica que permite a inteireza moral e existencial. Quando se compromete essa unidade, a conduta pessoal sofre com reflexos negativos. E o caminho da espiritualidade, que possibilita uma condição humana qualificada, não pode ser trilhado apenas com a própria força, nem mesmo unicamente com a luz da razão. Trata-se de percurso impulsionado pelo Espirito Santo, que está presente em cada um dos que cultivam a abertura para receber seus dons.

A humanidade carrega fardo pesado por não compreender a importância de se cultivar a espiritualidade. Por isso, o cidadão contemporâneo fica moralmente enfraquecido gerando os descompassos que degradam o mundo. Assim, o investimento para transformar a realidade exige, de cada um, cultivar o lado espiritual. Eis o caminho que é fonte de soluções para os muitos problemas enfrentados pela humanidade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Cidadania e poder

O apreço pela cidadania define os rumos da sociedade, exigindo o compromisso com os gestos, as escolhas e, particularmente, com a honra à palavra dada. São atitudes que se alicerçam na verdade e no gosto pela transparência. Sem o sentido de cidadania, os funcionamentos da sociedade ficam comprometidos.  A justiça e a solidariedade não são alcançadas. Por isso, são necessários investimentos na educação e na adoção de práticas cotidianas que emoldurem a civilidade, condição para que dinâmicas mais racionais ordenem a vida social. A história do Brasil, com seus ilustres personagens, permite que se construa uma nação mais justa. Mas, antes, é preciso encontrar os mecanismos capazes de regenerar as muitas feridas da cidadania brasileira, agredida pela indiferença, privilégios e falta de altruísmo que impedem os líderes e os representantes do povo de enxergar além dos próprios interesses.

Em questão está o entendimento sobre o que é exercer o poder, pois na sociedade brasileira, o seu exercício se confronta com o caos, criado pelas condutas condenáveis.  O poder não pode ser regido apenas pela economia de mercado com seus equívocos, afetando vidas de forma inconsequente. Sua regência deve ocorrer a partir da política, compreendida como a prática mais adequada do exercício da cidadania. O apóstolo Paulo já advertia que o dinheiro é a raiz de todos os males. Ao tomar o lugar da cidadania no exercício do poder, a economia arquiteta mecanismos que facilmente podem se distanciar da justiça e da solidariedade.  A dimensão econômica é importante na configuração social, mas as consequências são sérias quando o poder deixa de ser exercido a partir da cidadania para tornar-se submisso ao mercado. Os representantes do povo passam a obedecer e a reger-se por interesses que estão, quase sempre, desvinculados dos anseios da população. Afinal, quem tem dinheiro passa a ser o dono do poder.

Urge, então, investir na cidadania para que seu tecido resista à sedução do consumismo e da ganância, que determinam as decisões políticas. Desconsiderar essa urgência é manter práticas distantes dos parâmetros humanitários balizadores da justiça e da paz. Interesses particulares continuarão a se sobrepor aos anseios cidadãos, consolidando a supremacia do lucro e do mercado sobre o bem comum. Cultiva-se, assim, a incapacidade de priorizar as necessidades dos mais pobres, o que faz crescer a discriminação e a marginalidade.  Reconstruir o país exige, pois, que a comunidade política esteja a serviço do povo e não do mercado. Os políticos precisam se reconhecer como parte da sociedade, sem traí-la pela submissão ao dinheiro.

Isso significa, no conjunto do pluralismo social, ser fiel aos princípios da solidariedade e da justiça. A sociedade tem primazia, e esse deve ser o horizonte para o compromisso de uma genuína cidadania. O serviço autêntico que a comunidade política é chamada a prestar à sociedade não pode se afastar jamais do compromisso com o desenvolvimento integral e solidário. As consequências desse distanciamento resultam em prejuízos irreversíveis – a anomia, a violência e as vergonhosas desigualdades.

Para transformar o atual contexto, precisa florescer, em cada pessoa, a consciência da própria responsabilidade nos exercícios das tarefas profissionais, políticas e de cooperação. Para isso, oportuno é se valer das próprias raízes, de modo reverente, reconhecendo o arcabouço cultural da própria história e a trajetória dos antepassados. Esse patrimônio deve ser vetor de desenvolvimento.

A mediocridade atual e os condenáveis interesses não podem apequenar o exercício da cidadania, que lamentavelmente se revela, por exemplo, no excesso de burocratização que atrasa processos, manifestando certo prazer patológico de alguns que precisam mostrar poder.  Atitudes que criam uma geração incapaz de deixar legados e até corroem o que já se conquistou. Por isso, a necessidade de um grande trabalho educativo e cultural que impulsione transformações na vida cidadã. E o passo primeiro é não delegar poder absoluto ao mercado. A economia deve estar sob domínio das necessidades humanas, o que inclui equilíbrio e vida ordenada nos parâmetros da cidadania. Assim, torna-se possível ampliar o alcance da compreensão de que é nobre ser cidadão. Nobreza por comprometer-se com o bem comum, priorizar o respeito e a defesa da dignidade humana, em todas as circunstâncias. A sociedade ganha novo rumo quando a cidadania regula o exercício do poder.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Horizontes de esperança

O amargor da falência das esperanças pesa forte sobre os ombros da humanidade. As derrocadas políticas com reflexos nas relações e nos funcionamentos em diferentes segmentos das civilizações obscurecem horizontes. Os fracassos na economia – com tiranos mecanismos que provocam o empobrecimento – e nas relações interpessoais, apagam a luz da esperança. E essa luminosidade, quando perdida, inviabiliza as reações. A escuridão prevalece, impossibilitando encontrar caminhos novos. Mas, para ir em frente e fazer a travessia dos vales da sombra é imprescindível cultivar a esperança, capaz de nutrir os corações e as inteligências com a realidade do amor e do bem que transformam o mundo.

Esperança que pode ser recuperada com a força e  a fascinante facilidade da comunicação na partilha, em tempo real, dos acontecimentos  mundo afora. A capilaridade dessa rede de informações reúne a sociedade, grupos e segmentos em torno das mesmas questões, desafios e preocupações. Também aponta para uma exigente tarefa: a responsabilidade e o desafio posto à cidadania  de como lidar com as notícias boas, más, verdadeiras ou falsas.

Singular contribuição para refletir sobre esse desafio está  na mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações, celebrado neste último domingo de maio, Festa Litúrgica da Ascensão do Senhor.  O Papa se refere aos antigos pais na fé, que comparavam a mente humana à mó de azenha – tipo de moinho movido pela força da água que não se podia parar. Ao moleiro cabia decidir se  moeria na azenha o trigo ou o joio, e  escolher o fermento que leveda a massa, dando-lhe forma e gosto ou o contrário, aquele que a estraga. A referência à mó de azenha é para remeter à enorme responsabilidade que está na condução e na conformação da mente humana que nunca para, está sempre em ação. Importa a atenção e a responsabilidade moral que determinam o material que a fornecemos, minuto a minuto.

O “alimento” fornecido à mente pode produzir luzes de esperança que alargam horizontes com realismo, ou a precipitação da sociedade, de suas instituições e de seus funcionamentos na vala do fracasso. O propósito, pois, é investir em uma comunicação construtiva ao “moer” as informações, conforme diz o Papa Francisco, para oferecer um “pão perfumado e bom”. Assim, de modo qualificado, constroem-se compreensões. São favorecidos os discernimentos para as decisões que determinam os rumos da vida de cada pessoa e de toda a sociedade. É, pois, grave e urgente a responsabilidade cidadã de investir em uma comunicação construtiva, pela rejeição de preconceitos contra outras pessoas. O vetor permanente, indica o Papa Francisco, deve ser a promoção da cultura do encontro, para que o brilho do olhar da esperança permita ler, interpretar e tratar a realidade com confiança, altruísmo e competente sabedoria.  Assim é possível descobrir e trilhar rumos novos e superar fracassos.

Obviamente, isso não significa promover desinformação ou fazer “vista grossa” ante os cenários de dramas humanos, adotando otimismo ingênuo e isentando-se, por insensibilidade ou indiferença, da tarefa de vencer o mal. Situar-se nos horizontes da esperança é iluminar o caminho que precisa ser percorrido para avançar. Permite reconfigurar mecanismos de funcionamentos governamentais, sociais, administrativos e culturais. Sublinha o Papa Francisco: “Para um tempo novo de esperanças, é preciso superar o mau humor e a resignação, que lançam a pessoa na apatia, produzem medos e a incompetência que advém da convicção falsa de que não é possível impor limites ao mal.” Diante da responsabilidade de reconstruir a sociedade, nenhum cidadão tem o direito de abdicar-se do esforço necessário para acender em si a chama da esperança. Também precisa assumir o compromisso de contribuir para iluminar o coração, a mente e a consciência do próximo com a chama da esperança. O passo primeiro, na avalanche de tantas informações ruins, é narrar  boas notícias.

Para os cristãos, o ponto de partida e a fonte perene da esperança é Jesus Cristo, a Boa Nova que tem força para mudar o mundo, alimentando a alegria de servir e de promover a vida. Ninguém tem o direito de aparar as chamas da esperança, valendo-se de lamúrias, maledicências, apatias, preguiças e mesmo da projeção de negatividades que forjam leituras pessimistas da realidade. Que a chama da esperança acesa em cada cidadão, pelas boas notícias que encantam e curam, possibilite novas dinâmicas e solidariedades, necessárias para se alcançar a almejada paz mundial e dissipar a corrupção que encharca a sociedade brasileira. Sejam  alargados os horizontes de esperança.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Reformar é preciso

A sociedade brasileira enfrenta uma das mais difíceis fases de sua história, indicativo incontestável de que reformar é necessidade urgente para abrir horizontes novos.  Essa tarefa exige audácia capaz de promover dinâmicas, encontrar respostas e configurações normativas que tornem a sociedade mais civilizada, com igualdade e respeito à dignidade humana. Nessa direção, devem ser superados privilégios que causam exclusão. Também é momento para se cultivar o sentido patriótico de pertencimento, que sustenta o relacionamento harmonioso entre diferentes segmentos da sociedade.  Uma nova realidade que deve ser configurada com esforços dedicados à promoção de reformas arquitetadas com clarividência, comprometidas com a busca de solução para as aflições que pesam sobre todos e, de modo mais forte, na vida dos pobres.

Instituições diversas podem e devem procurar o caminho das mudanças. A própria Igreja Católica tem na sua configuração o princípio “Ecclesia semper reformanda”, mencionado em documentos e contextos históricos, levando a Igreja a compreender-se como passível de revitalizações em sua dimensão institucional. A exigência de reformas é, desse modo, inquestionável, quando se busca oferecer respostas a novos desafios.  O tratamento adequado e inteligente das demandas contemporâneas e a consideração das inevitáveis mudanças culturais requerem que organizações diversas desenvolvam novos planejamentos, avaliem impactos das transformações e adotem vetores diferentes com o objetivo de alcançar equilíbrio e sustentabilidade. Por isso, que fique bem claro: quando a Igreja Católica, nas suas configurações institucionais, a partir de diferentes líderes, questiona processos de reformas, não significa que é contrária às mudanças.

A própria Igreja reconhece a importância de reformar-se para corresponder às necessidades dos fiéis, a seus propósitos missionários e fortalecer seus muitos serviços sociais de amparo aos pobres.  Ao posicionar-se sobre o grave momento nacional da sociedade brasileira, apontando suas causas e consequências, a Igreja não se manifesta contrária às reformas. Diferentemente disso, coloca em questão processos, conteúdos e operações nos procedimentos das reformas propostas, pois muitos condutores das iniciativas de mudança sofrem com a falta de credibilidade, em razão de suas posturas pouco alicerçadas na moral. Esses condutores, que têm a força da voz e do voto, agem na sombra da falta de ética e do pouco apreço pela honestidade. Disso resulta um incalculável déficit na sociedade brasileira e a confusão se instala: as vozes desafinam, e as intuições interpretativas para propor as reformas inadiáveis ficam contaminadas, enfraquecidas.

Olhar a realidade social e política da sociedade brasileira atual e não admitir reformas seria, minimamente, insanidade. Sem as mudanças, acelera-se o processo que leva ao colapso ou à inadequação das instituições, sejam civis, governamentais, culturais ou religiosas. Assim, não admitir reformas é prova da falta de inteligência. Só mesmo razões ideológicas, com parcialidades comprometidas – ou interesses coletivos e partidários, guiados pela tirania, por horizontes balizados na imoralidade, no desrespeito a princípios e valores – ignoram essa urgente necessidade. As reformas são a única saída para tirar a sociedade do lamaçal de práticas abomináveis que fazem o país submergir no fosso do fracasso da sua economia, política e cidadania. É preciso mudar e com urgência! Não tem sentido ser contra reformas, nos mais diferentes âmbitos, mas elas precisam ser capazes de imprimir novos rumos, resolver gravíssimos problemas. Para isso, não se pode esperar que as transformações necessárias sejam conduzidas por mentes contaminadas ou condutas moralmente comprometidas.

Conta agora estabelecer o amplo diálogo exigido, para limpar os trilhos de obstáculos advindos da desonestidade, e assim ser possível avançar rumo às inadiáveis reformas. Um percurso construído a partir das atitudes cidadãs de homens e mulheres competentes e com credibilidade. As reformas têm a urgente tarefa de começar a construir uma virada civilizatória e cultural no Brasil. O desafio maior é como efetivá-las, diante do momento abissal vivido no país, de fragilidade política e moral. Um contexto que exige ainda mais lucidez, sabedoria e sentido de cidadania. Trabalhe-se de modo cidadão pelas reformas, como a que resultou na Constituição Cidadã de 1988, no que pese seus limites e fragilidades, para efetivar amplas transformações e se construir um Brasil novo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Civilidade e respeito

Parece estar cada vez mais distante o tempo em que se investia em civilidade e urbanidade.  Era comum, nos lares, ouvir os pais corrigirem seus filhos, valendo-se de expressões com tons de advertência: “cria modos”, “tenha compostura”. De modo semelhante, as escolas, instituições religiosas e culturais costumavam investir em processos formativos para que os alunos aprendessem as normas da boa convivência. Com o passar dos anos, esses necessários requisitos foram perdendo a importância, comprometendo os princípios de urbanidade que poderiam garantir processos relacionais qualificados e imprescindíveis para a civilidade.  Não há dúvidas de que a qualidade na dimensão relacional de um povo é determinante, para o bem ou para o mal, nas dinâmicas sociais. Por isso é importante reconhecer: investir em civilidade é necessidade real e urgente.

Pode parecer que esse investimento seja supérfluo ou esteja na contramão do mundo pós-moderno. Afinal, vive-se num tempo em que as subjetividades reivindicam absoluta autonomia. Um contexto que leva à consideração de que tudo aquilo que não corresponde aos interesses individuais imediatos é indevido e, consequentemente, inaceitável. Com isso, cada pessoa orienta seu comportamento observando apenas as suas ambições, desconsiderando a vida dos outros. O abandono do necessário processo de aprendizagem das posturas que garantem civilidade contribui para que haja um terrível primado do subjetivismo. Consequentemente, cada pessoa passa a considerar-se como norma e referência absolutas.

A possibilidade de “cada cabeça” estar livre para proferir “sentenças” contribui para alimentar uma perversa anomia. Com a falta de regras e normas, cada um passa a fazer o que quer e como bem entende, sem obediência e reverência a parâmetros inegociáveis. Caminho livre para que a arbitrariedade se instale e alimente violências, descasos, subestimando, assim, a sacralidade da vida. Não cultivar a reverência às posturas que garantam civilidade compromete o respeito, a percepção das diferenças, a competência para valorizar aquilo que realmente conta e sustenta o equilíbrio da vida em sua complexidade. Esse mal atinge não apenas algumas pessoas ou segmentos da sociedade. Alcança todos, desencadeando descompassos no âmbito da cultura. Alimenta prejuízos que incidem na economia, no tecido social e no conjunto dos hábitos e das vivências que definem o jeito de ser de um povo.

>Diante da hegemonia da lógica do mercado, com suas dinâmicas que pesam principalmente sobre o ombro dos mais pobres, torna-se mais difícil perceber e considerar a influência determinante da civilidade, que abrange desde as pequenas atitudes aos gestos mais significativos, capazes de configurar, no dia a dia, avanços rumo a uma sociedade mais solidária e justa. No entanto, sem investir na civilidade, todos continuarão a conviver com situações problemáticas, a exemplo da frequente incapacidade para respeitar o bem comum, das tendências ao desperdício e à depredação. Não se pode deixar de constatar que certos estilos de vida social – com suas práticas, privilégios, gastos excessivos e desnecessários – alimentam um imaginário que está longe daquilo que constitui a dignidade humana. Também é sintomática a insensibilidade diante de um dever, que é de todos: contribuir para o cuidado social e o amparo aos mais pobres, a partir do apoio a projetos que tornem a sociedade um lugar melhor para se viver, marcado por valores alicerçados no amor e no respeito à vida.

O grau de urbanidade incide ainda sobre o estabelecimento de prioridades no contexto social – do uso honesto dos recursos para promover o bem-estar de todos até a definição de impostos.  Isso significa comprometer-se mais com a promoção e a vivência da ética, do equilíbrio e de qualificadas relações entre os cidadãos. Uma dinâmica capaz de constituir o tecido cultural que transforma as pessoas, permitindo o aprendizado do sentido de respeito e reverência, bem diferente dos muitos descompassos característicos desta pós-modernidade, a exemplo dos comportamentos “viralizados” nas redes sociais. Apenas assim será possível promover a formação de líderes com refinado sentido social e político, realmente capacitados para oferecer respostas às demandas de uma sociedade mais ética.  Eis um caminho para reverter o que tanto se amarga neste momento. A sociedade precisa de civilidade e respeito.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Brasil e o momento atual

A consciência cidadã reconhece a gravidade do atual momento vivido pelo Brasil. Não se trata de alarmismo ou pessimismo, mas oportunidade para uma atitude: é preciso que cada um assuma a corresponsabilidade na busca por soluções para os muitos problemas. A gravidade deste atual momento político e econômico aponta para a necessidade de investir na formação de um novo tecido cultural capaz de fazer surgir um tempo diferente, marcado pela superação das crises terríveis que prejudicam, principalmente, os mais pobres. Nesse sentido, fundamental é compreender que não basta, embora seja importante, avançar na configuração formal e legislativa das reformas. Os processos que norteiam as necessárias mudanças têm significativa influência para que as transformações garantam mais justiça. Por isso mesmo, todos devem acompanhar, debater e contribuir com a efetivação das reformas. Porém, ainda mais determinante é compreender a importância da cultura e a necessidade de investir na sua renovação.

Cultura refere-se ao conjunto de hábitos e modos de agir no cotidiano. Posturas que revelam como determinada civilização estabelece relações e, consequentemente, exerce a representatividade política, respeitando ou não o bem comum. Assim, é preciso perceber que para a sociedade brasileira não é suficiente promover mudanças apenas na dimensão normativa. É preciso despertar o apreço pelo respeito ao outro e, a partir disso, conquistar um patamar civilizatório balizado por valores inegociáveis, fundamentados no bem e na justiça.

O tecido cultural da sociedade brasileira está corroído e por isso mesmo o país convive com a corrupção endêmica. Consequentemente, há um consenso sobre a falta de credibilidade da esfera política – os políticos são considerados cidadãos em quem não se pode acreditar. Ao mesmo tempo, perde-se o sentido de solidariedade. Percebe-se a falta de sensibilidade social, a indisponibilidade para partilhar o que se tem, apoiando projetos sociais e outras iniciativas capazes de promover o desenvolvimento de toda a sociedade. Ao se comparar com outras culturas, em um ranking de sociedades solidárias, os cidadãos brasileiros deveriam ficar com os brios mexidos. Esse é o contexto que causa apreensões em razão da delicada conjuntura política, econômica e social pela qual passa o país.

Os bispos do Brasil, reunidos na Assembleia Geral da CNBB, com a missão de levar a todos a luz do Evangelho de Jesus Cristo, apresentaram a seguinte pergunta: o que está acontecendo com o Brasil? A resposta sublinha a perplexidade do povo diante de agentes públicos e privados que desconsideram a ética e negociam princípios morais. As consequências são as práticas e hábitos que agravam a situação do país, já tão preocupante. Em mensagem, os bispos indicam que o caminho para a regeneração é a retomada da ética como condição indispensável. Somente por essa via, o Brasil poderá reconstruir o seu tecido social.

A gravidade do momento nacional é uma ameaça ao Estado Democrático de Direito, pois crescem o descrédito e o desencanto com a política e com os poderes da República, que se distanciam das justas aspirações de boa parte da população. Assim, as reformas e, especialmente, a Reforma Política, devem se configurar em oportunidade para a recomposição do tecido cultural do Brasil. Nesse sentido, não se pode acirrar a indiferença com a política.  Apenas ignorar os políticos, sem acompanhar, atentamente e de modo participativo, o que fazem os representantes do povo, é passo rumo à bagunça geral, que leva a irreversíveis prejuízos. A economia, dependente da política, continuará impactando negativamente na vida da população, pois prevalecerá a primazia do mercado ao bem-estar das pessoas, a prevalência do capital sobre o trabalho.

A raiz das muitas crises vividas tem caráter antropológico ao negar a prioridade do ser humano, conforme sublinha a Igreja Católica nos ensinamentos de sua Doutrina Social. Percebe-se que o Estado não pode ser jamais submetido ao mercado. Submisso à “lógica financista”, que é intrinsecamente perversa, o Estado se enfraquece e deixa de cumprir seus deveres. Sempre oportuno é recordar o que diz o Papa Francisco: o dinheiro é para servir e não para governar. O importante processo de reconstrução do Brasil tem no diálogo amplo, com a participação de todos, efetivo exercício da cidadania, o seu ponto de partida e referência para o seu equilíbrio. É, especialmente, vetor que impulsiona a civilização rumo à conquista de um novo tecido cultural, capaz de sustentar as transformações necessárias. Para incitar novos passos e não ocorrerem acomodações, leve-se em conta o que adverte o Papa Francisco, ao falar na Sessão Plenária da Pontifícia Academia das Ciências Sociais: “A simples atualização das antigas categorias do pensamento ou o recurso a sofisticadas técnicas de decisão coletiva não são suficientes”.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Escutem a voz do Povo

A voz do Povo é a bússola que indica o melhor caminho a ser trilhado nas instâncias de decisão. Por isso, hoje e sempre, seja escutada essa voz, pois o Povo é soberano. Quando governantes, dirigentes e líderes não ouvem a coletividade, a sociedade sofre. Os desgastes na história brasileira e no tecido social do país, que ainda hoje inviabilizam a conquista de mais igualdade e justiça, são fruto desse descaso com a voz do Povo.

Essa voz não é única. Trata-se de um coro de muitas vozes, inclusive as dissonantes e sem propósitos, que precisa ser ouvido. Mas não se pode considerar o período eleitoral, com o voto, o único momento para escutar a população. Isso porque a organização político-partidária dificulta a escolha da população. Assim, urgente é uma reforma política séria e inteligente, que não seja ajeitamento jurídico e sistêmico para hospedar no poder “representantes do povo” insensíveis diante das necessidades do país.

O sistema vigente de organização política distancia os representantes dos representados: muitas vezes, quem está no poder permanece indiferente diante do necessário exercício de ouvir o Povo. Consequentemente, perdem a sabedoria para encontrar respostas criativas capazes de transformar a realidade, superando, principalmente, o vergonhoso contraste de cenários: de um lado, miséria e exclusão, do outro, o esbanjamento de privilégios.

A voz do Povo traz o clamor dos mais pobres que, quando escutado, derruba a ganância de alguns no abuso dos privilégios. Nesse sentido, é remédio contra a tentação de se praticar qualquer ato ilícito. Quem tem sensibilidade para os anseios da população torna-se ferrenho combatente da corrupção e dos prejuízos ao bem comum. Nas ruas está a voz do Povo, que faz ecoar os sofrimentos e as exclusões de muitos. É, pois, força que denuncia os contextos vergonhosos da sociedade brasileira, marcados pela falta de solidariedade, por fomentar o péssimo hábito de se conviver com certos “jeitinhos” para se alcançar vantagens. Posturas que rebaixam o exercício da cidadania no país.

Governantes, representantes do Povo, líderes empresariais, religiosos e de diferentes segmentos não podem ignorar ou relativizar a voz que vem das ruas. O recomeço indispensável da sociedade brasileira, com as reformas todas que precisam ser feitas – política, trabalhista, previdenciária, tributária, entre tantas outras – tem que partir da escuta do Povo. Na contramão dessa via, o risco é sério: a sociedade brasileira poderá sofrer com o caos e a desolação. Basta observar o que ocorre mundo afora em razão de autoritarismos, insensibilidades e da pouca coragem de governantes.

No Brasil, os maiores e primeiros responsáveis pelos atropelos que afligem a população devem fazer um exame de consciência e redirecionar suas atitudes, que têm impedido o país de alcançar novo patamar civilizatório. Considerando as riquezas incalculáveis do território brasileiro, o povo poderia estar em melhor situação, caso esse patrimônio não fosse tratado como bem de alguns privilegiados. É também por isso que a voz do Povo faz ecoar as vergonhas de se propor mais pesos e sacrifícios sobre os ombros dos pobres, com o perdão de dívidas bilionárias de quem tem o dever de pagá-las. Essa voz mostra que é urgente um recomeço, reconfigurando instâncias, a organização sistêmica dos poderes, os modos de escolha dos representantes do Povo e o próprio exercício da cidadania.

Emergencial é superar a partidarização exacerbada que se contrapõe à qualificada participação cidadã. Isso se faz pela recuperação da autoridade moral e política, do gosto de ser cidadão brasileiro, promovendo a valorização do grande mosaico cultural que compõe o Brasil. A voz do Povo está profetizando e exigindo respostas urgentes de competência governamental e de empreendedores. A superação do atual quadro crítico, a esperada recuperação de uma representação que esteja à altura de conduzir processos inovadores, tudo isso só será possível se, em primeiro lugar, for observado o que vem das ruas. Escutem a voz do Povo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


 Piedade, a serra nobre

Minas Gerais são muitas. Um axioma incontestável que registra as marcas culturais que desenham o território mineiro com singularidades, tradições, riquezas e valores diversificados do Norte ao Sul, do Leste ao Oeste. Singularidades que responsabilizam a cidadania mineira na tarefa de bem administrar essas riquezas todas. E, quando se tem pouco, administrar é mais simples, mas se os bens são muitos, a exemplo do que ocorre nas diferentes culturas que tecem as muitas Minas, esse empreendimento é complexo. Exige qualificado exercício da cidadania, atenção amorosa redobrada e a competência inventiva para intervenções de maior alcance. Desconsiderar essas necessidades alimenta um risco abominável: o de negociar, a qualquer preço, as identidades culturais de Minas que podem impulsionar projetos com potencial para beneficiar toda a nação.

Assim, deve crescer a consciência entre os mineiros a respeito do inestimável valor das muitas culturas que integram o Estado.  O começo de tudo é acabar com antipáticas chacotas a respeito da própria identidade. É preciso valorizar a mineiridade e entender a sua riqueza – tão importante quanto a terra e a natureza de Minas Gerais.  Uma cultura sustentada pela história tricentenária deste Estado, fecundada pela religiosidade e pela nobreza da fé cristã. Eivada, sobretudo, pelos personagens de destaque nos mais diferentes âmbitos – cultura, artes, educação e política. O magnífico patrimônio de Minas exige mais, muito mais, de todos.  E o primeiro passo é o respeito reverente à própria memória. , que integra a religiosidade, a cultura e a história.

Por isso, a tarefa primeira de cada mineiro é enraizar-se mais no próprio chão para contribuir no seu desenvolvimento integral, promovendo, assim, avanços e conquistas para todos. Esse é o único caminho que as autoridades também devem percorrer para exercer, de modo nobre, a representatividade do cidadão nas instituições todas.  Olhar para si, reconhecer-se como povo que partilha rica história e cultura, reconhecer valores, é desafio dos mineiros. Oportunidade para o crescimento da consciência cidadã de pertencer a Minas Gerais e cultivar o santo orgulho de ser gente desta terra.  Assim, cresce a força e o destemor para defender Minas, trabalhar por seu desenvolvimento e buscar o seu progresso, com ações efetivas nos campos da infraestrutura, da educação e da preservação do seu rico patrimônio material e imaterial.

A consciência de pertencer a Minas deve ser testemunhada por todos para gerar uma união que faça justiça ao protagonismo do Estado no cenário nacional. Nesse sentido, são indispensáveis a correção de rumos, a ampliação de horizontes e o diálogo para desenvolver projetos inovadores, audaciosos.  Tarefas que exigem superar a subestimação do patrimônio do povo mineiro. E no cenário rico de pluralidades culturais e de riquezas naturais de Minas, há um tesouro que merece atenção redobrada: a Serra da Piedade.

Entre as serras e as montanhas do Estado, muitas danificadas pela mineração – um alerta para a necessidade de novos marcos regulatórios -, altaneira e nobre está a Serra da Piedade. Minas, “Estado Diamante”, tem muitas cadeias de montanhas que oferecem inúmeras belezas naturais, a aragem e o silêncio, características únicas que edificam identidades, moldam um jeito cativante de ser. E a Serra da Piedade abriga uma singularidade entre tantas outras: lá está o Santuário da Padroeira de Minas, um complexo paisagístico e ambiental que agrega biomas importantes- a Mata Atlântica, Cerrado e os Campos Rupestres. Guarda o tesouro de uma história – 250 anos do povo peregrinando na fé.

Uma Serra, herança mineira que todos devem sempre preservar e defender, para livrá-la das iniciativas movidas pelo lucro que cega e produz situações terríveis: as feridas no seu entorno. Preservar a Serra da Piedade é tarefa de cada cidadão, com o qualificado discernimento das instâncias judiciárias, a garra do Ministério Público e a inteligência de todo o mundo político. Todos juntos para cuidar da Serra da Piedade. A intocabilidade da Serra da Piedade e do seu entorno deve ser compromisso legal, bandeira e símbolo de uma cidadania mineira lúcida, capaz de respeitar o patrimônio que é de todos, sob a missão guardiã da Arquidiocese de Belo Horizonte. Eleger e selar no coração a Piedade, o que ela é, a Serra nobre, eis uma questão de honra para Minas e os mineiros.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Deus amou tanto o mundo

O silêncio desta Sexta-feira da Paixão não é apenas uma inquietação para uma sociedade que não costuma silenciar. Trata-se de possibilidade única para fixar o olhar em um momento fundamental capaz de corrigir dinâmicas equivocadas da sociedade, de cultivar no coração humano a sensatez e a sensibilidade necessárias para condutas solidárias. No centro desse momento principal está Cristo Crucificado: a escolha de Deus para revelar ao mundo o seu supremo amor, ensinando a cada pessoa que o caminho é amar o próximo. Deus deu o seu Filho Único por amor à humanidade, para a salvação do mundo.

O amor é, pois, o único parâmetro de toda medida, de toda meta, de todo o sentido a ser dado à vida, de toda a razão para se viver. Ultrapassa o limite de normas e leis. Oportuno é lembrar que Jesus desafia a compreensão reduzida à norma de um mestre da lei, instigando-o a compreender que o horizonte maior e verdadeiro é o amor. E a paixão, morte e ressurreição de Cristo, acontecimento insubstituível e inigualável, a sua condição de Filho de Deus – Deus e homem -, o tornam fonte inesgotável do amor.

O horizonte religioso e confessional ensina que Cristo Crucificado, morto e ressuscitado é a referência para que o ser humano defina seus caminhos. Perder esse fundamento central oferecido no silêncio da Sexta-feira Santa é um risco perigoso, pois esse momento é a possibilidade de reencontrar rumos perdidos e de superar dinâmicas que provocam descompassos no coração da humanidade. É justamente o distanciamento da reverência a Cristo Crucificado, a indiferença em relação à paixão e morte de Jesus, que explicam as dificuldades da sociedade para articular-se em novos padrões civilizatórios, à altura de outros avanços e conquistas.

Diferentemente de reconhecer o ensinamento de Jesus, que entrega sua vida para salvar a humanidade, o mundo insiste nas escolhas mesquinhas, nas interpretações das leis que estão muito aquém do alcance do amor. Com entendimentos estreitos, não são conseguidas as respostas urgentes esperadas. A quebra do silêncio meditativo na Sexta-feira Santa, que qualifica o coração a partir do misericordioso gesto de Jesus Cristo, Deus e Homem, comprova o preço alto que se paga numa sociedade em que outras pessoas – e não Jesus – são compreendidas como parâmetro para juízos.

A pretensão humana de ser em si o parâmetro ético de decisões e escolhas, com subjetivismos destruidores, é um equívoco. Há uma referência maior que pode oferecer fundamentos adequados para normatizações e escolhas acertadas. Essa referência é o amor, que tem como fonte Cristo Crucificado. Na oferta que faz de si, Jesus manifesta a sua autoridade, alicerce que sustenta a vida humana no amor de Deus. Reconhecer que Deus amou tanto o mundo a ponto de oferecer o seu Filho Único para a salvação da humanidade é necessidade urgente para evitar situações que são terríveis: os envolvidos em corrupção, os terroristas que atentam contra a vida, os juízes e os representantes do povo que também a ameaçam quando consideram legalizar o aborto, cidadãos que não se comprometem com as práticas que objetivam a ética, o bem, a paz e a justiça.

O silêncio da Sexta-feira Santa, a coragem de fixar o olhar n’Ele, o crucificado, fecunde em cada coração uma instigante interpelação para se orientar a partir do amor, do amor em Cristo Jesus revelado. Desse modo, ecoe nos corações a lógica inigualável e convincente de Deus, que amou tanto o mundo e por isso deu o seu Filho Único para que todo aquele que n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Investir na unidade

A humanidade sofre sérias consequências quando deixa de investir na unidade interior – ponto de equilíbrio e sustentação que permite a cada pessoa agir de modo assertivo nos diversos campos da vida. Sem a unidade interior, as muitas possibilidades oferecidas pela inteligência humana não são suficientes para superar os obstáculos que pesam sobre a humanidade. E, muitas vezes, o “progresso” desconsidera as estaturas humanitária e espiritual que precisam permear as atitudes de cada pessoa. Percebe-se, frequentemente, um descompasso entre a dimensão existencial e a posição que se ocupa, no campo profissional ou no exercício de outras responsabilidades. Para além da competência técnica, da experiência ou da força política, é preciso investir na unidade interior, o ponto de equilíbrio.

Mas não se busca esse caminho. Concentra-se fortemente, e até exclusivamente, nos projetos que resultam em conquistas de poder, nas oportunidades que garantam ganhos financeiros. Tudo a partir de uma compreensão equivocada do que é bem-estar, considerado apenas como a experiência de se usufruir das coisas, das benesses. Esse modo de compreender obscurece o olhar humano, que não consegue mais enxergar a necessidade do investimento na unidade interior. Há uma exigência fundamental que deve desafiar todo indivíduo: o cuidado com o próprio “poço”. Há um “poço interior” que alicerça a conduta de cada pessoa e define os rumos de suas escolhas. Incide, determinantemente, sobre a qualidade dos exercícios cidadãos, profissionais e familiares.  A medida, portanto, não está “do lado de fora”. Decisivo e mais importante é o “poço”, a interioridade de cada pessoa, responsável pela consciência, pelos sentimentos e pela articulação humanística dos valores.

A interioridade é que gera a competência para as ações cidadãs. Sem investir nesse âmbito, os comprometimentos são muitos, a mediocridade torna-se regra. Não basta ter alcançado um título, vencido eleições, ocupar cargos e nem mesmo a convicção de se estar onde está por ser merecido. Cada pessoa deve mensurar seus atos, considerando a qualidade de suas intervenções e sua influência nos necessários processos de transformação. Tudo temperado por uma simplicidade que forja um tecido cultural de respeito e de unidade.  Assim é possível superar descompassos que estabelecem o caos na sociedade.

A humanidade perdida precisa, com mais velocidade, reencontrar rumos. Por isso, a importância do empenho em buscar a unidade interior, alicerce para condutas adequadas, balizadas por valores que podem deter os problemas humanitários, a exemplo das guerras, migrações forçadas, insensibilidade diante da dor dos pobres e crescimento incontrolável da violência. Em busca da unidade interior, há um percurso a trilhar: é preciso e urgente investir em uma espiritualidade que possibilite aprender a lidar com a interioridade. E que contribua, assim, com o exercício diário de limpar o próprio “poço”. A espiritualidade pode qualificar o sentir e o agir de cada indivíduo, tornando-o instrumento de construção da solidariedade e da cultura da paz.

Chega agora, mais uma vez, a oportunidade de ouro para se investir na unidade interior e requalificar o tecido humano: a vivência da Semana Santa, a Semana Maior. Não como um “feriadão”, mas reconhecendo nesse tempo a chance de se fazer um fecundo retiro espiritual. Esse exercício é fundamental para limpar a própria interioridade de tudo o que se origina nos limites e fragilidades humanas. O segredo é fixar o olhar em Jesus Cristo.  De modo silencioso e amoroso, deixar-se tocar por seus gestos, por suas palavras e pelo acolhimento de suas indicações. Uma experiência que não pode ser substituída por futilidades, pela fugacidade de sensações.

Vale a pena vivenciar e engajar-se na celebração da Semana Santa, no coração da própria família e na comunhão da comunidade de fé, compreendendo o sentido de cada uma dessas celebrações. Um investimento forte e determinante na ordem pessoal e social para renovar a unidade interior, alicerce que sustenta as competências e a vida cidadã. Eis um remédio indispensável.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Resgate de credibilidade

A crise de credibilidade que impacta diferentes instituições na sociedade contemporânea exige a participação de todos na busca por soluções – de igrejas a pequenos produtores, incluindo, obviamente, grandes empresários e os três poderes da República. A credibilidade é um importante bem em todas as instituições.  A Igreja Católica, por exemplo, deve continuamente aprimorar seus serviços religiosos, sociais e educativos, primando pela credibilidade. O compromisso principal da Igreja é, em todas as ações, proclamar a Palavra de Deus, fonte perene de valores, dos parâmetros éticos e morais que devem guiar todos os trabalhos. Nessa missão, cada pessoa que se dedica aos muitos serviços da Igreja deve se empenhar para aperfeiçoar processos e procedimentos e, assim, continuamente, qualificar o trabalho prestado ao Povo de Deus. Assim é possível contribuir para que muitos cultivem a fé e colaborem, decisivamente, na construção de uma sociedade mais justa.

Sem credibilidade, a Igreja não pode desempenhar a sua missão. E do mesmo modo, as diferentes instituições precisam da credibilidade, ou vão amargar prejuízos. Caso exemplar e recente é a crise no mercado a partir das denúncias da Operação Carne Fraca. Estabeleceu-se um clima de insegurança que afetou negativamente esse setor com reflexo nos indicadores da economia brasileira. Prova de que a credibilidade é mesmo um bem precioso. Quando perdido, compromete os resultados e os serviços prestados. Por isso, sublinha-se a responsabilidade cidadã, nas diferentes atividades, de sempre cultivar e preservar esse bem.

Instituições e segmentos diversos pagarão caro toda vez que seus representantes agirem fora dos parâmetros da honestidade, transparência e do altruísmo. E para recuperar a credibilidade, é preciso percorrer um longo caminho. Por isso, cada pessoa deve ser verdadeira no que faz e fala.  Não se avançará sem o “ouro” da credibilidade. Conquistá-la e fortalecê-la deve ser a meta de todos. Isso implica agir com lisura nos mais diferentes processos. Um compromisso de primeira grandeza.

Há de se despertar o gosto pelos parâmetros que sustentam a credibilidade. Quem é verdadeiro e honesto abre mão de privilégios. Esse é que deve assumir a linha de frente. Como Diógenes, com a lanterna na mão, precisa inspirar todos a cultivar esse valor. Importante nesse caminho é superar um péssimo hábito que contamina o tecido da cultura: considerar elogiável quem consegue o que quer valendo-se de trapaças e mentiras.

Assim, todos são convocados para uma autoavaliação com o objetivo de identificar atitudes que ameacem a credibilidade das instituições. Essa é uma tarefa inadiável para renovar o fundamento da cultura. Agir com seriedade é condição para que a sociedade alcance o patamar que já deveria ter conquistado. Nas mãos de cada um está a chance de renovar as instituições. Para isso, todos se empenhem no resgate desse importante bem.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Mais pela democracia

A atenção do mundo está voltada para a sociedade brasileira. Mas, infelizmente, o foco não é favorável: as turbulências das Operações Lava Jato e Carne Fraca é que colocam o País no “olho do furacão”. Uma exposição que mostra, com as revelações dessas operações, uma sociedade desestabilizada e incapaz de promover a solidariedade e a justiça. Momento que requer mais esforços em prol da democracia. E o caminho a ser trilhado não é o de adotar a indicação de um grupo, instância governamental ou segmento único da sociedade, nem mesmo de líderes políticos. Sobretudo, porque há um sofrido déficit de lideranças, em razão de graves problemas, a exemplo da desconexão entre princípios ético-morais e a dimensão subjetiva e pessoal, que influencia as decisões. Essa desconexão, entre outras consequências, gera a insensibilidade social.  Assim, muitas decisões são tomadas para favorecer quem não precisa, com prejuízos para os mais pobres. Mesmo assim, aqueles que decidem acreditam que suas deliberações são as mais acertadas. Consideram as próprias escolhas e projetos os mais justos para o momento.

Desse modo, cria-se um descompasso que precisa ser corrigido a partir de processos que representem oportunidades para a ampla participação cidadã. Esse é o único meio de garantir escolhas adequadas e com força para fazer a urgente assepsia nos funcionamentos institucionais e governamentais. É uma via que leva às melhorias nos serviços públicos e na conduta cidadã de todas as pessoas, nas diferentes áreas. Nesse sentido, a reforma da Previdência não pode ser conduzida a partir da perspectiva de poucos, mas deve suscitar ampla participação. Trata-se de singular oportunidade para o cidadão participar, com opiniões, reflexões e debates sérios, que contribuam para a construção de entendimentos. Esse exercício possibilita também corrigir os modos de atuação de quem tem o dever de representar o povo. Inclusive oferece a chance para políticos recuperarem a credibilidade perdida justamente por, de modo contumaz, desconsiderarem as bases éticas e morais.

A reforma da Previdência pode até ser necessária à democracia, mas nenhuma reforma pode operar na contramão do bem de todos, principalmente dos mais pobres. As desigualdades que, historicamente, corroem a sociedade brasileira, sustentadas por uma cultura de privilégios e de benesses, não devem ser acentuadas.  Por isso, a atenção ao processo de reforma da Previdência, com adequadas escolhas, é um desafio de todo o conjunto da sociedade.  Fundamental é que os representantes do povo ajam com transparência na apresentação de informações, números e estatísticas, além de considerar os diferentes contextos socioculturais da realidade brasileira.

Nada deve ser feito no afogadilho, a partir de visão unilateral, particularmente quando se pensa nas reformas política e da Previdência. O bem-estar dos mais pobres tem que ser o ponto de referência para se planejar mudanças no Brasil. Uma sociedade democrática não pode jamais passar por cima dos mais fracos. Por isso, todos devem se unir e fazer mais pela democracia, participando dos processos que envolvam reformas. Nessa tarefa, deve sempre estar no horizonte o que determina a Constituição Cidadã de 1988. Retroceder em marcos regulatórios, ou em princípios da vida cidadã, com o exclusivo objetivo de se “fechar contas” ou de se acumular superávits, constitui perda civilizatória. E a reversão desse prejuízo envolveria o trabalho e o sacrifício de muitas gerações.

Fazer mais pela democracia tem que ser “a bandeira cidadã” de todos, partindo de um sincero processo de identificação das próprias responsabilidades. Um dever de cada pessoa, particularmente dos dirigentes e dos representantes do povo. Para além do respeito formal das regras, esse exercício de autoavaliação deve se inspirar em uma convicta aceitação dos valores que norteiam os procedimentos democráticos. No conjunto desses valores, e acima de tudo, está o respeito à dignidade da pessoa humana, que é sagrada e inegociável, critério regulador da vida política.

As muitas reformas são necessárias, mas devem ocorrer no contexto de um novo tecido cultural, a partir do diálogo, do confronto de ideias e da construção de consensos. Um caminho para a verdadeira consolidação da democracia, que qualifica a autoridade política e rege o exercício da cidadania. Tarefa exigente, complexa, que requer olhar atento para a situação dos mais pobres. Coragem para cortar privilégios e priorizar o bem comum. Eis o caminho para mais se fazer pela democracia.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


 O povo merece respeito

O respeito ao povo deve orientar o processo de reforma da Previdência. É fundamental escutar e considerar as diferentes perspectivas sobre essa proposta, para que não se cometam injustiças irreversíveis, um peso opressor sobre os ombros da população, com sacrifício ainda maior para os mais pobres. Esse diálogo deve envolver, de fato, os cidadãos, além de incluir entendimentos especializados, políticos e culturais, tudo balizado pela ética. 

Quando se fala sobre essa “reforma”, obviamente deve-se lembrar de uma demanda inquestionável que envolve não somente o setor previdenciário, mas também muitos outros segmentos do Estado. São necessárias, por exemplo, as reformas do Judiciário, a fiscal e a tributária. Particularmente, uma urgência é a reforma política, que não avança porque muitos representantes do povo têm medo de perder privilégios. Há, também, um modo de atuação historicamente viciado na sociedade, como evidenciam os esquemas de corrupção envolvendo políticos e outros setores, o que inviabiliza a necessária reforma política. Uma força perversa que atrasa a superação da crise econômica e impõe verdadeiro caos social. Por isso mesmo, reconhecer a necessidade inadiável da reforma da Previdência não significa simplesmente adotar a perspectiva em debate no Congresso Nacional, encaminhada pelo Executivo, como visão única e hegemônica. Isso porque, há uma crise de credibilidade que atinge os representantes do povo. 

Assim, não se pode desconsiderar a necessidade da reforma previdenciária, em busca de sustentabilidade e do bem do povo, o que também não significa compreender que o lugar de quem governa seja o único para definir os parâmetros da discussão. Embora se reconheça como prerrogativa do Congresso Nacional discutir e aprovar a proposta de reforma, os parlamentares não podem conduzir o assunto apenas entre eles. É preciso um amplo debate, incluindo o povo, pois a mudança que se espera deve acabar com os privilégios de uma minoria, o que envolve os próprios políticos. 

Diante dos argumentos do governo federal para propor uma reforma previdenciária, muitos segmentos manifestaram-se contrariamente, dizendo que os dados apresentados para justificar as alterações constituem “uma farsa”. Há de se esclarecer esse impasse. Alguns defendem que não existe “rombo da Previdência”. Outros indicam um preocupante déficit. Onde e com quem está a verdade? Outro aspecto importante a se considerar refere-se à idade da aposentadoria. Essa definição considera a complexidade do contexto social e cultural da sociedade brasileira? São questionamentos que precisam ser respondidos, de modo claro, antes de qualquer passo definitivo na reforma previdenciária.

O entendimento sobre essas questões só pode ser alcançado a partir de um amplo debate, para que a reforma não se configure como um posicionamento unilateral e autoritário, em que representantes eleitos, ao invés de defender os direitos do povo, fazem o contrário.  Os parlamentares têm a obrigação moral de discutir o assunto com suas bases, clarificando todas as dúvidas, até a “última gota”, desse complexo e delicado tema. Fidelidades partidárias e interesses cartoriais não podem orientar as ações dos políticos em momento tão decisivo.

Não haverá sustentabilidade na Previdência Social se forem ignoradas as necessidades do povo, particularmente de quem é mais pobre e frágil.  A oportunidade dessa reforma precisa ser também a chance para corrigir situações vergonhosas na sociedade, historicamente organizada para favorecer alguns grupos, poucos privilegiados, prejudicando uma ampla maioria que não possui a mesma força no exercício dos poderes. Espera-se que o espírito da Constituição cidadã de 1988 não seja ferido. Não se pode, por exemplo, agir com “mão de ferro” ao lidar com os cidadãos comuns e tratar com “luvas de pelica” as empresas que devem à Previdência. 

Agora é necessário investir nos entendimentos sociais e políticos, bases indispensáveis para uma nova aragem civilizatória na sociedade brasileira. A reforma da Previdência que precisa ser feita requer compromisso com a verdade e com a justiça. Para isso, os processos devem ser pautados no respeito que o povo merece.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


 Críticas e avaliações

A fragilidade dos fundamentos da cultura pode ser uma das causas que explicam a incapacidade que a sociedade tem ao lidar com as críticas e as avaliações. Muito frequentemente, o que deveria ser uma rica troca de argumentos se reduz a ataques e ironias. Basta observar o cotidiano das pessoas nos diferentes setores. É incrível a falta de compostura de muitos parlamentares durante seus pronunciamentos, ou mesmo certas atitudes dos cidadãos. Essa falta de respeito resulta também da incompetência para uma autoavaliação. Movidos pela revolta pessoal que nasce do desinteresse em exercitar o autoconhecimento, muitos se sentem no direito de dizer, de qualquer jeito, o que bem entendem, sem medir as consequências. Por isso mesmo, é crescente a incompetência para avaliar os próprios atos e conceitos.  Sem reconhecer a própria inaptidão, muitos se consideram certos em tudo. Acham-se no direito de desferir juízos sobre os outros e permanecem fechados a qualquer tipo de observação, ainda que seja pertinente.

Essa fragilidade no tecido cultural gera uma atmosfera permanente de revolta nas relações, fazendo crescer a intolerância e os equívocos no discernimento e adoção das prioridades. Consequentemente, perde-se o sentido de limite, que é necessário para que sejam estabelecidas as relações humanas. Impulsos que brutalizam essas relações ganham força, enquanto as instituições sociais ficam enfraquecidas. Assim se estabelece uma confusão que deseduca e é responsável por retrocessos civilizatórios. O risco permanente é a sociedade ser conduzida ao marasmo e às permissividades. De um lado, ficam as massas enfurecidas e raivosas. Do outro, defensivamente e se lamentando, os dirigentes, líderes e representantes do povo. Um descompasso de terríveis proporções.

Nesse contexto, nascem os medos paralisantes e a falta de criatividade que inviabilizam as respostas urgentes e necessárias. Tudo acaba em confusão que descompassadamente envolve o conjunto da vida. Urge aprender e praticar, culturalmente, a competência para se fazer críticas pertinentes, que nunca pode estar desatrelada da autoavaliação. E para se alcançar essa habilidade, torna-se necessário investir na autoestima. Quem não conquistou essa qualidade, não suporta críticas e permanece obtuso. Busca promoção e privilégios sem avaliar o próprio desempenho. Segue a tendência medíocre de se “fazer juízo em causa própria”, com a parcialidade de quem não aceita observações ou posicionamentos divergentes. 

A sociedade e suas instituições não avançam se os cidadãos não cultivarem a competência crítica que pressupõe abertura suficiente também para se deixarem avaliar. São sempre lamentáveis a animosidade e a resistência criadas quando o discurso inclui críticas e avaliações. Buscam-se justificativas para tudo. Dessa forma, uma barreira intransponível é construída, impedindo o diálogo capaz de reorientar processos. As perdas são muitas, nos prazos e na qualidade dos resultados, pois o objetivo é cada um se colocar como o melhor e o mais importante.

Investimentos civilizatórios capazes de garantir aos cidadãos a competência de criticar, de ouvir críticas e de se deixar inserir em processos de avaliação, em vista do bem maior, são urgentes. Não há outro caminho para superar mediocridades nos âmbitos dos funcionamentos institucionais, que requerem sempre novas respostas, em razão dos crescentes desafios da sociedade contemporânea. Nesse sentido, oportuno é avançar na implantação de sistemas que possam avaliar desempenhos em diferentes âmbitos - educacional, religioso, cultural, político e tantos outros – capacitando todos com a habilidade para criticar e ouvir críticas. Assim se alcança a cidadania qualificada, com a abertura a processos permanentes de avaliação.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Abismo da consciência

O “abismo da consciência” é o núcleo determinante da conduta humana. É o lugar mais importante da configuração da personalidade e da definição do caráter, onde se encontra a “central de comando”, que pode orientar uma conduta digna. Por isso, requer permanentes investimentos e cuidados, fundamentais para que o ser humano não seja instrumento de psicopatias, dubiedades e descompassos - males que atrapalham a regência adequada das relações sociais e políticas.

Cada indivíduo é responsável por sua “central de comandos”, mas conta também com os tecidos institucionais e a rede de relações sociais para alcançar o equilíbrio necessário à convivência, ao respeito, ao compromisso com a justiça e com o bem comum. Ainda assim, é oportuno destacar a dimensão do “abismo da consciência” e sua relevância. Sua materialidade e formalidade ético-moral são tão amplas que permitem fazer uma correlação com o número de sinapses cerebrais – semelhante ao de uma galáxia. Essa complexidade e centralidade torna possível reconhecer uma necessidade: o “abismo da consciência” carece de uma luz que não lhe é própria, vem da Luz maior. Sem a Luz maior, o “abismo da consciência” perde seu rumo, encobre-se de escuridão. E as escolhas tornam-se comprometidas, os discernimentos não são orientados pelo amor e honestidade. A presidência da conduta pessoal passa a ser regida por parâmetros desastrosos. 

Por isso, há urgência em deixar que a Luz maior encontre o “abismo da consciência”. Abrir mão dessa Luz e pretender reger-se por conta própria é arriscado. Isso fica comprovado quando são observados os descompassos que afligem a humanidade, em razão de escolhas obscuras, mesquinhas, e da indiferença que ameaça a paz mundial. Os fundamentos da consciência, assimilados sempre nos processos educativos, familiares, culturais e religiosos, precisam ser tocados pela Luz maior. Para isso as pessoas precisam vivenciar, no cotidiano, a espiritualidade que reúne o conjunto das experiências pessoais e comunitárias, sociais e políticas, tocadas pela presença de Deus. A espiritualidade ultrapassa, assim, o aspecto devocional e as práticas simplesmente piedosas. É um diálogo permanente e indispensável com Deus, porque só Deus alcança as profundezas do “abismo da consciência” de todos. 

A indiferença e a ausência de esforço para essa imprescindível busca por Deus são incapacitantes. Deixam as pessoas sem condições para reger a própria consciência. A dimensão abissal da consciência precisa ser preenchida com valores e referências capazes de manter as atitudes individuais nos parâmetros éticos. E o “abismo da consciência” não é simplesmente controlável por mecanismos sociais. Esses mecanismos têm força reguladora indispensável, mas o alcance é limitado. O necessário equilíbrio humano requer mais que a dimensão organizacional e sistêmica da configuração social, política, cultural e religiosa de um povo ou nação. Mesmo porque está em permanente ebulição a vida de grupos diversos, segmentos políticos e culturais, povos e etnias. Rumos inadequados são dados a processos, escolhas equivocadas enrijecem e enfraquecem as instituições. Há pouca versatilidade para oferecer respostas aos problemas contemporâneos e priorizam-se as ações que buscam apenas as benesses, a satisfação da mesquinhez de grupos familiares, políticos, religiosos e tantos outros. Resultado da desarticulação do “abismo da consciência”, que traz consequência avassaladora para a conduta humana. Sinais de que a luz própria da razão, que é indispensável, ao mesmo tempo é insuficiente para garantir atos e escolhas corretos. Essencial é o investimento nas dimensões humana e espiritual capazes de fazer brilhar, no “abismo da consciência”, a Luz maior.

Esse é um passo decisivo para evitar que se repitam as muitas irracionalidades que ameaçam a vida: as guerras, as catástrofes causadas pela ganância que dizimam o meio ambiente, além das disputas ferrenhas e manipulações que ocorrem nas instituições e refletem escolhas fundamentadas na mediocridade. É preciso evitar que a sociedade continue a sofrer com as graves perdas, que atingem, de modo ainda mais forte, a vida dos pobres. Nesse sentido, vale seguir o exemplo de Santo Agostinho, apresentado na sua famosa e monumental obra Confissões, do século V. Nesse livro estão reunidos exercícios oportunos para este tempo da Quaresma, um investimento, pessoal e comunitário, na qualificação dos “abismos da consciência”.

O convite é para a oração e o diálogo com Deus, de modo semelhante ao que fez Santo Agostinho.  Que cada pessoa possa se dirigir à Luz maior, Deus, com as palavras e a oração desse Santo: “Que eu te conheça, ó conhecedor meu! Que eu também te conheça como sou conhecido! Tu, ó força de minha alma, entra dentro dela, ajusta-a a ti, para a teres e possuíres sem mancha nem ruga. Essa é a minha esperança e por isso falo. Nessa esperança, alegro-me quando sensatamente me alegro. Tudo o mais nessa vida tanto menos merece ser chorado quanto mais é chorado, e tanto mais seria de chorar quanto menos é chorado. Eis que amas a verdade, pois quem o faz, chega-se à luz. Quero fazê-lo no meu coração, diante de ti, em confissão, com minha pena, diante de muitas testemunhas. A ti, Senhor, a cujos olhos está a nu o abismo da consciência humana, que haveria de oculto em mim, mesmo que não quisesse confessá-lo a ti? Eu te esconderia a mim mesmo, e nunca a mim diante de ti.”  Este é o caminho, o mais eficaz para iluminar com a Luz maior, que é Deus, o “abismo” da própria consciência.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Cidadania e lideranças

A cidadania sofre um avançado processo de deterioração, comprometendo o equilíbrio de processos complexos e importantes para o bem viver.  São enormes os prejuízos - incluem desde as brutalidades que ameaçam o relacionamento entre pessoas até os descompassos nas instituições e governos -  evidenciando a gravidade dessa deterioração. Isso acelera a desumanização na sociedade contemporânea e o descontrole dos funcionamentos que deveriam garantir, minimamente, a convivência sadia na urbanidade. Percebe-se que o ser humano, diferentemente das outras criaturas, quando se considera o conjunto da criação, percorre uma via na contramão da sua natureza, identidade e missão. A ação depredadora da humanidade no tratamento da “casa comum”, produzindo desequilíbrio ambiental, causa triste impacto. A racionalidade não consegue delinear atitudes e estilos de vida capazes de evitar os prejuízos que, cedo ou tarde, caem na conta da sociedade. Uma conta alta que resulta da dificuldade para mudar hábitos e definir prioridades.

As posturas egoístas e interesseiras impedem as pessoas de abrirem mão de certas práticas, confortos e bem-estar aparentes, aumentando descontroladamente os danos que impactam todo o planeta.  Há um processo crescente de distanciamento da vida social, política e ecológica equilibrada. Parece importar ao cidadão tão simplesmente as garantias de suas benesses, confortos, o dinheiro que ganha e o seu usufruto. Tudo balizado por irracionalidades no comprar, comer, viajar e possuir. São valorizadas no cotidiano as experiências marcadas pela fugacidade. Ao mesmo tempo, cresce uma insatisfação inscrita na subjetividade humana. Esse descontentamento ateia fogo abrasador nas disputas por títulos, lugares e vantagens.  O outro é sempre o inimigo e o concorrente. Um individualismo mesquinho contamina a vida familiar, e até o lar se torna palco de disputas. Acaba-se, inclusive, com a garantia dos vínculos, desde os matrimoniais aos da amizade sincera.

Não se consegue enxergar o outro. E não há cidadania sem que se enxergue o outro, particularmente os mais pobres e sofredores. No turbilhão dessa avalanche individualista, que evidencia a perda da direção do amor, a cidadania é substituída pela incivilidade.  A sociedade, enlouquecida, vira uma arena de batalha. E vai ficando distante o sentido da solidariedade, o compromisso com a fraternidade, a coragem altruísta de ser bom e partilhar, sem medo de perder. É crescente o instinto devastador do apego aos próprios bens, sem se importar com o próximo, desconsiderando as dádivas de Deus. Por isso, são acirradas as brigas por privilégios, embrutecendo as relações. As pessoas são reduzidas a peças de uma engrenagem social e política, desprovidas da responsabilidade de buscar o bem maior, o respeito ao bem comum. Ignora-se o fato de que é abominável uma sociedade de privilégios que causam discriminações e a exclusão social.

A sombra que delineia o horizonte da sociedade cega os indivíduos e, consequentemente, os conduz a situações de guerras, confirmadas pelos números de homicídios e que revelam o aumento da miséria. Triste é a mesquinhez e a indiferença de quem conseguiu um “lugar ao sol” e não abre mão de nada para oferecer um pouco a quem precisa. Uma situação que contamina a convivência entre pessoas, mas também impacta a relação entre nações, grupos e culturas. “Primeiro o meu, o que importa sou eu, a minha nação, o meu grupo, os meus aliados, meu partido, a minha Igreja”. É assim que se pensa e, por isso, a cidadania se deteriora, não se constituindo mais como parâmetro para o exercício da liderança. Os “líderes” – nos âmbitos políticos, culturais, educacionais e mesmo religiosos – tornam-se prisioneiros no tecido cidadão corroído.  Tendem a lutar simplesmente para se manter no lugar que ocupam e continuar a  usufruir das benesses. Buscam apenas alimentar vaidades e, assim, se contentam com uma atuação pífia, pouco inventiva. Não oferecem respostas adequadas às necessidades de reformas e atuações. 

O assoreamento da cidadania inviabiliza o surgimento de líderes altruístas. Gera uma opacidade que impede o enxergar mais adiante. Assim, tornam-se cada vez mais raras as pessoas que se desdobram para fazer a diferença no cumprimento dos próprios deveres. Percebe-se que a cidadania comprometida por modos mesquinhos de se viver mata a natural e indispensável índole de liderança que está na essência do ser humano. Cada pessoa deve ser protagonista do desenvolvimento, responsável por rumos novos no horizonte humanitário e civilizatório. Isso quer dizer que, nas diferentes situações, da cozinha da própria casa à mesa dos tribunais e dos parlamentos, incluindo os laboratórios, as salas de aulas, os templos e as ruas, é inegociável a cada cidadão desempenhar bem a sua liderança em vista de um tempo novo. Caso contrário, todos ficarão presos nas mediocridades que impedem avanços.  Crescerá a barreira da resistência que atrapalha a inovação nas instituições, nos modelos e nos procedimentos.

Urgente é investir cotidianamente na recuperação do tecido cidadão, a partir das posturas, gestos e adoção de princípios. Vencer as condutas individualistas e as disputas sem sentido, para reacender o gosto pela liderança, que não deve ser compreendida como forma de garantir privilégios mesquinhos e alimento para vaidades. Em vez disso, o exercício da liderança deve revelar o amor por uma vida cidadã, que traz equilíbrio para a sociedade. Assim, é possível a cada pessoa cumprir bem o próprio papel, assumindo o compromisso com o bem maior das instituições e do povo. Essencial é o exame de consciência, de cada um, com a coragem de assumir a própria responsabilidade, e a oferta da própria inteligência, das competências, a serviço de uma cidadania que conduza o mundo na direção da justiça e do amor.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Ética civil soberana

A sociedade convive com a lamentável perda da soberania da ética que, gradativamente, deixa de presidir a conduta cidadã e os funcionamentos institucionais diversos. E quando se desconsidera a soberania da ética, perde-se a credibilidade e a possibilidade de corrigir rumos. As consequências são as derrocadas que vão corroendo o tecido social e político. Não se confia mais no que deveria ser inquestionável: a palavra das pessoas, inclusive de líderes. Tornam-se escassos os que são merecedores de reconhecimento. E cada vez mais raras são as práticas alicerçadas em princípios que convençam os indivíduos, no mais recôndito de suas consciências, a agir conforme os valores que refletem o respeito incondicional à soberania da ética.  

Hoje, infelizmente, vale tudo, conforme conveniências e interesses. Perde-se o rumo, pois quando se abandona a soberania da ética, a sociedade tende a descompassar-se violentamente. São produzidos cenários abomináveis que danificam a identidade social e política de uma nação. Tudo em consequência do desrespeito de governos e de segmentos variados que pautam seus funcionamentos nos interesses cartoriais e partidários. Por isso mesmo, o noticiário está repleto de referências aos esquemas de corrupção, às muitas formas de violência, às abomináveis ações que revelam a perda do sentido de respeito e de sacralidade da dignidade humana. 

Considerações subjetivas, com a força arbitrária de relativização negativa, impactam no sistema de valores que deveriam ser capitaneados pela ética. Isso provoca uma deterioração do núcleo da consciência e escancara as portas para atos ilícitos. Assim, constata-se a falta de ética nas escolhas, nas decisões e nas atitudes. Uma situação ainda mais preocupante quando se considera que a formação da consciência cidadã requer longo percurso, com práticas cotidianas e a exemplaridade de testemunhos. Já a deterioração dessa consciência cidadã ocorre “da noite para o dia”, desencadeada pela hegemonia que se confere aos interesses relacionados à patológica ganância por dinheiro, às condutas que revelam mesquinhez e indiferença com o que é digno. Por isso, urgente é promover a recuperação da ética civil, com investimentos na dimensão moral da sociedade.

Sem esses investimentos, as reformas da sociedade ficam enfraquecidas. A racionalidade que poderia produzir avanços e garantir conquistas torna-se ineficaz pela ausência da ética civil.  Há, pois, urgência em priorizar a moralidade na sociedade contemporânea.  O pluralismo não pode jamais dispensar o compromisso e a responsabilidade de todos, particularmente de dirigentes, líderes e formadores de opinião, em colaborar com um projeto legítimo e unificador: o resgaste do gosto de ser honesto. Envergonhar-se das dinâmicas prejudiciais ao bem comum, com atentados à dignidade humana.  Se esse projeto unificador não for assumido, os segmentos sociais e políticos continuarão a gastar suas maiores e mais importantes forças na tentativa de recuperar os prejuízos da corrupção.

Toda a sociedade está desafiada a redesenhar ou retomar o horizonte ético e moral, que deve orientar desde as práticas mais simples do cotidiano até o respeito incondicional a leis e normas. Trata-se de caminho para garantir a justiça e a paz. Nesse sentido, é importante pautar a ética civil como prioridade e razão dos investimentos. É hora de assumir os valores próprios de uma ética civil soberana.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Pela força da palavra

A credibilidade perde espaço no mundo contemporâneo em razão do enfraquecimento da palavra. Este é um tempo de “palavra fraca” e os impactos negativos dessa situação têm incidência nos diferentes âmbitos. Diz-se que é, mas não é. Promete-se e não se cumpre. Definem-se prazos que não são respeitados. Garante-se que foi e não foi. Afirma-se desconhecer, mas conhece intimamente. Compromete-se em ir e não vai. Ensina e não se abre à aprendizagem. Elogia com falsidade. Passa a ideia de convicção sem, de fato, ter certeza. Fala uma coisa e é outra. Refere-se a preceitos morais e não os cumpre. Jura que não fez, mas continua fazendo. Usa a palavra para camuflar o que deve ser revelado. E assim, constata-se uma interminável ladainha que fragiliza a palavra.  Desconsidera-se que a palavra é, por si, uma força que cria e recria. 

É inconsistente o dito popular: “palavras são apenas palavras e nada mais”. Recorde-se o Salmo 33 que sublinha a força da palavra, quando se canta que pela palavra de Deus foram feitos os céus, pelo sopro de sua boca todos os seus exércitos.  E em Jesus Cristo, o filho de Deus Pai, a Palavra se fez carne e veio morar entre nós.  Vale ler e reler as narrativas iniciais dos primeiros capítulos do Livro do Gênesis, 1-3, e compreender o sentido, o alcance e a força da palavra: “Faça-se!”. 

Pela palavra, até mesmo no silêncio, Deus fala e vem ao encontro de cada pessoa. A palavra tece os diálogos, fazendo-os autênticos e construtivos quando a sua força se manifesta, não pela imposição, mas a partir da transparência e da verdade. Há de se constatar que o falar não é qualquer coisa. A palavra é essencial na construção da vida pessoal, na edificação da sociedade e na busca por novos horizontes.  Assim, a palavra, para edificar vínculos duradouros na verdade e no amor, em vista da justiça e da paz, não dispensa sinceridade, transparência, honestidade e o compromisso com o bem comum. É incontestável que a sociedade contemporânea precisa avançar na recuperação do sentido da palavra, para que por sua força possam ser sanadas as consequências das incompreensões, distorções, equívocos que têm como parâmetro a mesquinhez. Esses males conduzem o mundo rumo a fracassos, incompetências institucionais, familiares, governamentais e religiosas.

Embora a contemporaneidade seja tão marcada por grandes avanços tecnológicos, que incluem as redes intermináveis para a transmissão das palavras, em velocidades surpreendentes, ainda é tempo de se aprender a falar. Esse é um investimento indispensável no alicerce básico da consciência humana, que abrange a individualidade e a clareza de pertencimento comunitário e familiar.  Deus, em diálogo com cada pessoa – porque Ele fala – estabelece uma dinâmica que leva a esse necessário aprendizado, cultivando nos corações o gosto de ser sincero, bom, lúcido e capaz de agir como instrumento da paz.

O segredo, portanto, é dar centralidade e primado à Palavra de Deus.  Ao escutar a Palavra, cada pessoa abre-se à verdade, aprende as lições do amor, capacita-se para ser justo.  Mais que outras escutas, é essencial ouvir a Palavra de Deus que também revela, inevitavelmente, a dramática possibilidade de o homem subtrair-se a esse diálogo de aliança com Deus. O resultado nefasto é a expansão de domínios perversos no coração.

Proclamar a Palavra é investir no cumprimento da tarefa dada pelo Mestre Jesus, a Palavra encarnada. Cristo quer o Povo de Deus congregado em uma “Igreja em saída”, missionária, próxima de todos, presente especialmente nos lugares mais pobres e sofridos, em diálogo com a sociedade. Uma Igreja que ajude a confeccionar o tecido da cultura solidária e da vida.

Nenhuma outra palavra tem a força da Palavra de Deus, capaz de renovar a Igreja, as pessoas e reconstruir a sociedade contemporânea tão marcada pelo cansaço, fracasso e pelas banalizações. Proclamar a Palavra é o compromisso primeiro, entre muitos outros, assumido pela Arquidiocese de Belo Horizonte, como Igreja no mundo e a serviço do Povo. É seu Projeto de Evangelização, para que surja o novo pela força da Palavra de Deus, iluminando as palavras de cada cidadão.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Recuperar as instituições

É grave o processo de sucateamento das instituições. Isso porque os funcionamentos institucionais, frequentemente, são obsoletos e não conseguem promover o bem da coletividade.  Essa realidade traz resultados nefastos para cada instituição – sejam elas governamentais, educacionais, religiosas ou familiares, além de prejuízos para toda a sociedade. Os investimentos para se adequar processos são insuficientes e, consequentemente, os resultados são pífios na prestação de serviços. Um mal terrível que envolve variadas instituições, inclusive as que têm seu balizamento maior na experiência da fé. 

A sociedade pede mais consistência por parte das organizações, que precisam cumprir bem sua tarefa: assumir a responsabilidade de cooperar para a transformação de uma sociedade carente de novos impulsos e inovações. É preciso deixar de insistir em práticas de tempos que já se foram. Muitas ações que são próprias do passado já não têm força para interagir com as demandas do mundo contemporâneo. Consequentemente, não conseguem interferir positivamente na realidade. Mas ainda assim, permanecem os gastos - com recursos financeiros e também humanos - direcionados a esses funcionamentos inadequados. As pessoas ficam submersas na mediocridade de escolhas e de encaminhamentos. Conviver com a pequenez naquilo que se faz, por não se engajar nos processos de mudanças, torna-se normal. Isso trava criatividades e amordaça muitos na condição de não conseguir contribuir. Cria-se facilmente o vício de se fazer das configurações institucionais, nos seus funcionamentos, simplesmente um amparo para quem se satisfaz com a oportunidade de ter um “lugar ao sol”. Ora, esse fenômeno é a contramão das dinâmicas modernas e inevitáveis das inovações.

Inovar é uma exigência e deveria ser a meta, mas os agentes da inovação – as pessoas que integram as instituições – se satisfazem com a conquista de uma zona de conforto que mata gestos de altruísmo, impedindo o ser humano de ser participe na criação e recriação. Compreende-se, assim, porque a ocupação de cargos não é garantia para uma atuação proativa e com força de transformação. O marasmo no interior das instituições envolve como uma nuvem a preciosidade de cada pessoa. O resultado nefasto é o cumprimento de mandatos ou tempo de serviço com opacidade. 

Percebe-se que a dimensão pessoal sucateia a instituição. Mas, também a dimensão institucional pode prejudicar as pessoas, enjaulando-as, inclusive as que têm grande potencial. Sem conseguir mostrar a própria capacidade, elas permanecem na linha mediana de atuação.  Por isso, cada pessoa precisa assumir o compromisso de lançar um olhar sobre a instituição na qual se insere, buscando saídas para a terrível fragilização das organizações. Essa fragilização é fundamentada na incompetência que afeta modos de agir e nos desvios ético-morais que, inclusive, levam agentes a usufruírem, de modo desonesto, de recursos institucionais, conduzindo velozmente as organizações, na qual trabalham, rumo a precipícios.

O fato mais comum é, consciente ou inconscientemente, tender a escolhas que levem a colocar responsabilidades e intervenções nas mãos de quem não as operará adequadamente. Certamente, trata-se de mecanismo de defesa que perpetua a mediocridade que, infelizmente, incomoda menos. O que incomoda mais é o desafio de desinstalar-se da “zona de conforto” para responder às exigências e às demandas do dia a dia, às necessidades de qualificação permanente do tecido institucional. Esse tecido, quando fortalecido, pode alavancar mudanças que levem às soluções adequadas para o tempo atual.  Assim, em gesto de humildade e batendo penitencialmente no peito, cada pessoa precisa cultivar uma consciência cidadã e não apenas ocupar postos que representem, somente, oportunidade de promoção pessoal. Todos devem assumir a responsabilidade para ajudar a encontrar novas respostas, com trabalho produtivo. Esse é um indispensável caminho no combate à mediocridade, no enfrentamento das demagogias e na coragem de avaliar, sinceramente, o que se está fazendo, para encontrar os caminhos da inovação e recuperar as instituições.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Encantar-se com a verdade

Encantar-se com a verdade pode ser importante indicativo para a recondução da sociedade na direção do bem e da justiça. O conhecimento da verdade e sua prática confeccionam o tecido de uma cultura assentada na solidariedade e na competência de prezar os valores e respeitar, incondicionalmente, a dignidade de cada pessoa. Não basta a referência à verdade objetiva de fatos e acontecimentos tratada nos parâmetros da verdade jurídica. Embora seja esse curso indispensável para equilibrar os compassos intocáveis no funcionamento de uma sociedade, não tem a força preventiva e educativa necessária. É semelhante ao apagar o fogo de incêndios que surgem a todo momento e vão se agravando, em quantidade e intensidade. Assim, torna-se impraticável dominar as labaredas em curto prazo, sem atingir a base do fogo, a exemplo do que ocorre, na atualidade, com o sistema prisional, que exige reformas radicais.

A sociedade, hoje, cruelmente, paga o preço de uma realidade carcerária organizada ora como cartel, ora com descaso e, sobretudo, sem o entendimento adequado do que é necessário para recuperar o tecido degradado da dignidade humana, em tantas pessoas que cometem crimes, transgredindo as leis. Situações análogas estão presentes em outros setores sociais que contabilizam graves prejuízos produzidos pelo comprometimento da verdade, assumida e empunhada como bandeira de honra do viver cotidiano. 

Esse processo de relativização da verdade na sua formulação filosófica e conceitual compromete a sua vital assimilação na dinâmica ético moral. Abre as portas à permissividade, impedindo as substituições necessárias capazes de deter os descalabros da corrupção, da violência e da indiferença, passivos que atrasam a sociedade nos seus projetos de desenvolvimento e esgarçam as relações sociais e políticas. Relativizar a verdade produz o caos, a exemplo do que vivenciamos neste momento, atravanca o encontro de saídas para crises que, retardadas na sua solução, multiplicam esses passivos, exigindo muito mais tempo e recursos investidos para serem corrigidos.

O processo de encantar-se com a verdade, sempre libertadora, começa pela prática de atitudes muito simples, embora de grande relevância, a principal delas, banir do dia a dia o terrível costume das chamadas pequenas mentiras - ilusória preservação da própria privacidade, defesa desnecessária da individualidade, ou ainda tolice de se justificar perante fatos e pessoas. Na convivência familiar, por exemplo, essas práticas constituem-se verdadeira armação de bombas futuras, quando adultos, até inconscientemente, exercitam crianças e jovens nesse tipo de conduta.  É fundamental rechaçar toda e qualquer forma de distorção da verdade, até mesmo quando a própria cultura adota como “um jeito de ser”, nunca mentir, mas jamais dizer a verdade toda. Esquece-se de que a verdade só pode ser assim considerada quando é inteira, nunca em pedaços. A sabedoria é dizer a verdade na hora certa e à pessoa certa.

Não há outro caminho para a edificação de relacionamentos autênticos e impulsionadores na direção do bem. Desde a intimidade de cada casa, de cada família, ao parlamento, nas instituições e nos ambientes de trabalho tem que valer a sinceridade no dizer e compartilhar a verdade. Ninguém há de se iludir.  O alicerce da arquitetura da corrupção, devastadora da sociedade, reside na mentira e no pouco apreço pela verdade moral,  valor capaz de prevenir pessoas e instituições de armar esquemas de favorecimentos e privilégios que desvirtuem os caminhos de uma sociedade justa e solidária. Assim, ao perder no coração de cada cidadão o encantamento pela verdade, a sociedade precipita-se na direção irreversível de seu fracasso.

Esse mesmo raciocínio vale no estabelecimento das relações interpessoais. Quando não se consegue ser transparente, por conveniência ou até por respeito humano, as relações sofrem abalos de grandes proporções, gerando desconfianças que varrem projetos comuns e quebram alianças de todo tipo. Quantas famílias desestruturadas, amizades de uma vida inteira desfeitas, projetos de cooperação mútua arruinados em razão da falta de apreço pela verdade, no dizer e no seu alcance moral, quebrando toda a confiança.

Essa cultura contamina a política partidária e nas instituições governamentais, que perdem a credibilidade pela ausência dessa prática doméstica de não dizer a verdade a quem precisa ouvi-la. A exemplo do que ocorre no âmbito pessoal, prevalecem o falso apreço pela  autoimagem, os interesses na preservação de cargos e lugares, tudo fecundado pelo  abominável costume de  bajulações e interesses mesquinhos, empurrando gente a mentir e a distanciar-se do encanto pela verdade. Para obter ganhos, avanços, ou apenas para manter situações, pode parecer vantajosa a estratégia de esconder a verdade, mas não se iludam: essas conquistas não se sustentarão quando as incoerências vierem à tona. 

Conhecendo a verdade é que se encontrará a verdadeira e duradoura libertação - ensina o Mestre Jesus. Vale também recorrermos a Santo Agostinho, que afirma nunca ter encontrado alguém que gostasse de ser enganado com mentiras e inverdades. Esses são ensinamentos que devem nortear a conduta humana em todos os tempos.

A sociedade contemporânea é a do cansaço. Não menos é a sociedade da mentira ou do escasso encanto pela verdade. Sua reorganização e avanços na superação das muitas crises devem ser precedidos de estratégias e políticas públicas assertivas, com investimentos prioritários nas áreas da educação, saúde, trabalho e inovações. Mas é imprescindível a atitude cidadã individual para configurar um novo rosto e um novo tecido cultural para a sociedade, retomando, assim, o encanto e gosto pela verdade, no ser e no dizer.

As necessidades de mudanças são grandes e é interminável a lista das exigências para o respeito à dignidade de cada cidadão, numa sociedade desigual como a brasileira. O caminho é longo, mas importa começar com assertividade, com o que há de mais simples. O segredo é, em tudo, no ser e no dizer, encantar- se pela verdade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Mineiros e seu Santuário

O desenvolvimento integral de uma sociedade depende, significativamente, de sua capacidade para valorizar e cuidar do seu patrimônio, que inclui personagens e acontecimentos da sua história. São eles que tecem a cultura - alicerce do progresso, do desenvolvimento, do sentido de respeito. Por isso, os mineiros têm que aproveitar a “oportunidade de ouro” que marca este novo ano e, assim, impulsionar crescimentos, consolidar a força do Estado de Minas Gerais, nos mais diferentes cenários. Esse momento especial é a celebração do Ano Jubilar - os 250 anos do povo peregrinando na fé ao Santuário Nossa Senhora da Piedade - a Padroeira de Minas Gerais. 

A vivência deste tempo é uma convocação que remete todos os mineiros à Serra da Piedade, tesouro  de inestimável valor ambiental e ecológico. Ali está um milagre da natureza, obra do Criador, com riquíssima fauna que é referência para pesquisas científicas de diferentes centros acadêmicos. Esse singular jardim botânico congrega, harmoniosamente, a Mata Atlântica, o Cerrado e os Campos Rupestres. Um território com mais de um milhão de metros quadrados, assentado sobre uma rocha de ferro, minas de ouro e aquífero exuberante, patrimônio que jamais será presa do desarvoro do lucro e da ambição desmedida. Este Ano Jubilar é, justamente, tempo propício para se firmar - a partir de legislações, gestos concretos de solidariedade e atitudes cidadãs - conforme se reza na oração de consagração a Nossa Senhora da Piedade - Padroeira de Minas Gerais: esse patrimônio é herança nossa que vamos sempre preservar e defender. 

A proteção desse bem significa o rompimento com as dinâmicas que deixam “heranças nefastas”, verdadeiras ofensas: as graves feridas na casa comum, os buracos e as devastações que nunca serão apagados da história em razão dos pesos e das desolações que provocam. Por tudo isso, a defesa do Santuário Ecológico dedicado a Nossa Senhora da Piedade é compromisso da Igreja, mas também de todos os segmentos da sociedade, que precisam trabalhar juntos, em cooperação, a partir dessa missão. Não há espaço nem tempo para irracionalidades - a exemplo do desejo de se mostrar poder com a imposição de entraves burocráticos aos projetos reconhecidamente necessários para a preservação do meio ambiente e do patrimônio histórico.  Essas obstruções, de órgãos governamentais ou de outras instâncias, impedem a efetivação de iniciativas capazes de impulsionar o desenvolvimento de Minas. Ações com força para amalgamar as muitas Minas, superando dispersões regionais, para consolidar uma “consciência mineira”. A retomada do crescimento e do desenvolvimento do Estado depende dessa consciência que nasce da valorização do próprio patrimônio e da cultura. Um olhar valorativo sobre o que se é e o que se tem. 

Esse olhar permite reconhecer também os tesouros da religiosidade, um legado de riqueza inestimável desse estado diamante. O Ano Jubilar celebrado em 2017 exalta, precisamente, a fé católica mineira - 250 anos de peregrinações ao Santuário da Padroeira de Minas Gerais. O ponto de partida é conversão de Antônio da Silva Bracarena, em 1767. Esse português veio para o Brasil com o objetivo de ganhar dinheiro, trabalhando na construção da Igreja Nossa Senhora do Bonsucesso, em Caeté, exemplar precioso da arte barroca. Convertido, Bracarena colocou no horizonte de sua vida - no lugar de uma busca egoísta pelo acúmulo de bens - a espiritualidade e a devoção. Passou a viver no alto da Serra da Piedade, como eremita e, após receber autorização da Igreja, começou a construir a Ermida da Padroeira de Minas, ainda em 1767.

Tempos depois a história do Santuário da Padroeira de Minas Gerais é enriquecida com um dom alcançado graças ao trabalho do Cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, que integrou o clero da Arquidiocese de Belo Horizonte. A partir da atuação desse mineiro ilustre, que foi colaborador do Monsenhor Domingos Evangelista Pinheiro - o Evangelista da Piedade -  admirável guardião desse território sagrado, um capítulo importante foi escrito na história de Minas: o Papa São João XXIII concedeu ao Santuário Nossa Senhora da Piedade o título de Santuário da Padroeira de Minas Gerais.  Firma-se, assim e cada vez mais, esse território como grande centro de espiritualidade, força indispensável que conduz a sociedade mineira rumo a avanços, a partir da fé, do compromisso com a justiça e com o bem de todos. 

O Santuário Nossa Senhora da Piedade é o coração de Minas Gerais e este Ano Jubilar deve ser vivido sobre os trilhos da oração e do trabalho. Nos trilhos da oração, todos são convidados a peregrinar - em grupos, com as comunidades de fé e famílias, para viver os momentos que reúnem celebrações e a oportunidade de se reconciliar com Deus. Momentos propícios para deixar-se tocar pela força restauradora do silêncio da montanha sagrada, por sua aragem que limpa o coração, fecundando-o com a densidade espiritual da presença inspiradora de Maria, discípula exemplar. Esse Ano Jubilar, que precisa ser vivido também nos trilhos do trabalho, é convocação para que todos, em parceria e colaboração com os que integram a Faço Parte - Campanha dos Devotos de Nossa Senhora da Piedade -, instâncias governamentais e segmentos diversos, se comprometam com a realização de obras fundamentais: a edificação da Via do Peregrino, do Museu Maria Regina Mundi, a conclusão e restauração da Igreja Nova das Romarias, que pode tornar-se Basílica da Padroeira de Minas.

Essas e tantas outras iniciativas buscam fortalecer, cada vez mais, o Santuário e, consequentemente, as batidas do Coração de Minas, que é esse território sagrado.  Peregrinar ao Santuário e receber a graça de uma nova etapa na vida - abrindo um novo ciclo familiar, pessoal e social, de vida cidadã e religiosa -, além de assumir a tarefa de divulgar que Nossa Senhora da Piedade é a Padroeira de Minas Gerais. Um compromisso de todos, ato de fé e de religiosidade, de cidadania e de apreço pelo dom de ser do Estado de Minas Gerais.  Agora é a hora dos mineiros e de seu Santuário.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Frear as banalizações

A progressiva banalização do mal revela uma exigência: o confronto dos processos que deterioram o núcleo humanístico essencial de cada pessoa, recôndito sacrossanto da consciência que conduz atitudes e escolhas nos trilhos do bem e da justiça.   Sem a superação do sentimento de que o mal é algo natural, não se conquistará a paz. Essas banalizações são uma sucursal do inferno, aprisionando a humanidade. Gradativamente, perde-se a sensibilidade fundamental que capacita, motiva e impulsiona o coração para o perdão e a reconciliação. Consequentemente, prevalece a incapacidade para a convivência fraterna e pacífica. Multiplicam-se os cenários aterrorizantes dos atentados, das chacinas e de outras diversas violências que, além dos prejuízos nefastos e das perdas irreversíveis, vão adoecendo consciências, deturpando entendimentos e formatando - com vícios - as escolhas. Ficam comprometidas as condutas, pois é banido o sentido que se conquista na experiência convincente de que é bom ser bom. 

A reação contrária às banalizações do mal deve nascer de uma articulada e contemporânea retomada do compromisso de se investir na formação moral. Obviamente, isso não pode ser um posicionamento reacionário marcado por rigidez e intolerâncias. Em vez disso, é um enfrentamento dos descompassos que inviabilizam a convivência solidária, aumentam a indiferença, levando-a a um patamar que produz brutalidades, estampadas em chacinas como as ocorridas em presídios, nos homicídios registrados nas cidades, atentados contra a vida em muitos outros lugares. Esses crimes ocorrem de modo fragmentado, disperso, mas, se somados, evidenciam números de uma sociedade em guerra. 

A moralidade tem força para frear as banalizações agravadas ainda mais pela influência das tecnologias sobre o comportamento humano. De um lado, são verificados avanços fantásticos no universo tecnológico, mas, por outro, surgem verdadeiras “armas de destruição”, quando as relações presenciais são substituídas por “contatos virtuais”. Um contexto preocupante em que, muitas vezes, as interações renunciam ao mais elementar sentido de respeito pelo outro e pelas singularidades. Eis um dos nascedouros da banalização do mal que, nessas situações, se revela na ausência do sentido de igualdade, do apreço pelo outro. As consequências são a perversão do deboche e da manipulação das pessoas, desconsiderando a sacralidade de todos. Trata-se o outro como descartável, compreendendo-o como simples instrumento para se alcançar certos objetivos pessoais. Por isso, não há alianças e vínculos duradouros, necessários alicerces para uma vida qualificada e verdadeiramente humana.

Os investimentos na ordem moral devem incidir na esfera individual, com o balizamento do núcleo familiar, célula da sociedade, e com o empenho das mais diferentes instituições e segmentos, todos comprometidos com um funcionamento eticamente exemplar. Há um terrível dilaceramento do tecido moral que precisa ser recuperado. Isso só é possível a partir da redescoberta dos valores que promovem o altruísmo. Assim, as escolhas não serão somente orientadas pelos critérios do lucro, das vantagens e das comodidades, mas regidas pelo compromisso de se fazer o bem.

Essa reação exige que todos reconheçam um preocupante fenômeno, consequência da banalização do mal: a perda do sentido de gratidão e da competência para a generosidade. As portas, assim, escancaram-se, cada vez mais, para todo tipo de violência. Nada tem sentido de sagrado, tudo é vulnerável e descartável.  O ser humano passa a se habituar a tudo o que deveria ser condenado. Banalizam-se as chamadas “pequenas mentiras”, os enganos que sordidamente são produzidos para manipular pessoas e esconder esquemas de corrupção. 

Importante é reconhecer que as violências alimentam essas situações, que, por sua vez, fomentam as violências. Para superar essa perversa dinâmica, é preciso acolher a orientação de Jesus, que também viveu tempos de violência. O Mestre ensinou que o verdadeiro campo de batalha, onde se defrontam a violência e a paz, é o coração humano. Nesse sentido, o Papa Francisco pede a cada pessoa, em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz: comprometamo-nos, por meio da oração e da ação, a tornar-nos pessoas que baniram dos seus corações, palavras e gestos a violência, e a construir comunidades não violentas, que cuidem da “casa comum”. O estilo adotado de se viver pautado pela não violência depende que cada pessoa seja um “coração da paz”. Nobre e pertinente, interpelante e indicativa é também a palavra do Papa emérito Bento XVI, ao dizer que a não violência para os cristãos não é mero comportamento tático, mas um modo de ser da pessoa, uma atitude de quem está tão convicto do amor de Deus e de seu poder que não tem medo de enfrentar o mal com as armas do amor e da verdade. Assumir esse modo de ser: aí está o caminho único para a moralização capaz de frear as banalizações do mal que deterioram a humanidade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Uma política para a paz

O Papa Francisco, na mensagem para o Dia Mundial da Paz 2017, convoca todos à adoção de uma política para a paz: a não violência. Esse estilo precisa ser adotado por todos os cidadãos, um compromisso especial a ser assumido principalmente pelos responsáveis por comunidades religiosas, segmentos diversos da sociedade civil, chefes de governos e parlamentares, que têm o dever de ser não violentos. Isso significa não manipular parlamentos e outras instâncias do poder para aprovar medidas que, aparentemente, são avanços, mas na verdade representam mais peso nos ombros dos pobres e indefesos. Assim, uma política para a paz é a contramão do que se verifica no âmbito das disputas partidárias, das oligarquias e na egoísta busca pela manutenção de privilégios, dos “foros especiais” que facilitam as contravenções. 

Não podem ser permitidas as “violências do colarinho branco” que buscam atender, por exemplo, as hegemonias pretendidas pelo capital financeiro. Isso inclui condenar e combater qualquer negociação tácita de soberanias, a perda de controle sobre riquezas que deveriam ser administradas para o bem do povo. Se essa direção não for seguida, prevalecem as estratégias para acobertar privilégios, que se desdobram no crescimento da exclusão, na “vista grossa” para processos de corrupção que corroem o erário e os direitos sociais da população. Uma política para a paz, diz o Papa Francisco, é um estilo de viver que se assenta no princípio ético moral da intocável sacralidade da pessoa humana, imagem e semelhança de Deus. Quando não se respeita a dignidade mais profunda de toda pessoa, desconsidera-se o princípio da não violência. E as consequências são sempre nefastas: o caos social e político que emoldura nações, gera a predisposição para confrontos, guerras, roubos, autoritarismos, déficit moral que compromete governos. 

Por isso, faz a diferença quando o povo se reveste do tecido de uma cidadania que se alicerça no estilo da política pela paz. Essa conduta deve se manifestar, particularmente, nos diferentes modos de expressão da vida cidadã – nas opiniões, debates, modos de reivindicar e, especialmente, na hora do voto - caminho democrático para se evitar transtornos políticos que conduzem a sociedade às muitas formas de violência. Não se pode, portanto, comprometer a paz com imposições políticas, com a perda do sentido da ética, com soluções que ignoram uma série de aspectos intocáveis nos procedimentos e nas decisões. Principalmente, não se combate a violência quando governos ou a participação cidadã na política ignora a urgente necessidade de enfrentar os cenários de degradação humana que revelam uma situação de guerra no país.  Afinal, as estatísticas de degradação e de mortes no Brasil superam os números de muitas guerras mundo afora.

A paz é a única e verdadeira linha do progresso humano, diz o Papa Francisco, e não as tensões de nacionalismos ambiciosos, nem as conquistas violentas, nem as repressões geradoras de uma falsa ordem civil. A não violência exige valores humanísticos e religiosos do amor, da verdade, da justiça e da razão. Quando se percebe a carência desses valores, são identificadas as causas dos graves problemas sociais - desmandos, ganâncias, mesquinhez e a inteligência totalmente investida para se alcançar simplesmente vantagens pessoais. 

O Papa Francisco deseja que sejam a caridade e a não violência a nortear o tratamento recíproco - nas relações pessoais, sociais e internacionais. É hora de debelar todo tipo de vingança para frear a escalada de descalabros, que incluem guerras devastadoras, os muitos conflitos que vão se prolongando neste terceiro milênio. O Papa Francisco chama a atenção a respeito da violência que se revela de modo diverso, em diferentes contextos – nos presídios, terrorismos, criminalidade, ataques armados, abusos sobre migrantes, devastação ambiental e tráfico humano. É urgente uma compreensão lúcida sobre o conjunto desses cenários. E as mudanças necessárias não serão alcançadas com revides e vinganças, mas a partir dos entendimentos e do altruísmo. Os líderes mundiais, governamentais, religiosos e políticos estão desafiados a mensurar, sabiamente, suas propostas, o sentido de suas posturas e atitudes, emoldurados pelo mais qualificado sentido humanístico e dialogal. Assim, evita-se a crueldade no sistema prisional, o recrudescimento do ódio, das revoltas e das vinganças. Devem ser prioridades: a seriedade no cumprimento das responsabilidades, a transparência no desempenho de funções e a obediência ao princípio fraterno-solidário de considerar a importância do “outro”. Mais poderosa que a violência é a não violência, estilo efetivo e revolucionário de uma política para a paz. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Por um Ano Novo

Os descompassos da vida cotidiana de cada cidadão fazem aflorar no coração o desejo, a prece e o sonho de um ano verdadeiramente novo. Uma novidade que não se refere ao início da inevitável contagem dos próximos 365 dias. São esperadas, principalmente, novas atitudes, amadurecimento da cidadania e a competência para reinventar projetos, programas e ações que tirem a sociedade brasileira de sua preocupante situação. Para isso, as instituições sociais, em todos os seus segmentos, devem se tornar capazes de oferecer novas respostas, o que inclui aproveitar, de modo mais inteligente e humanitário, as riquezas do Brasil e as potencialidades do povo brasileiro.

A primeira e mais determinante ação para se efetivar o desejo de um ano realmente novo é voltar-se para o próprio coração. Nele deve ocorrer a intervenção mais revolucionária, configurando-o como “coração da paz”. Se você, o outro, todos, mundo afora, se tornarem “coração da paz”, a humanidade terá um tecido cultural capaz de regrar funcionamentos, reger consciências e fazer despertar o mais fecundo sentido de cidadania. Tudo seria balizado pelo princípio incondicional do respeito à vida de cada pessoa, em uma luta cotidiana para combater o que ameaça esse dom inviolável.  “Coração da paz” é quem se compromete, dentro das próprias responsabilidades e no dia a dia, a amparar as muitas vítimas de conflitos armados, dos terrorismos, das mortes silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto e pelas discriminações. 

O sábio princípio de que todos são irmãos precisa ser reconhecido e vivido. Pois o amor rege a relação entre irmãos, fazendo-os partilhar tudo o que proporciona o bem. Assim, esse princípio é determinante no ajuste moral que cada um dos integrantes da sociedade precisa. Desconsiderá-lo inviabiliza a tarefa de encontrar saídas para os muitos problemas.  E as consequências são as prisões cada vez mais cheias, os entraves para o crescimento e o desenvolvimento, os conflitos entre os poderes, a expansão da pobreza e a continuidade dos privilégios que revoltam. Por tudo isso, no horizonte, há de se desenhar a silhueta da grande família humana. Não somente a família biológica, ou a que reúne pessoas conhecidas. A convocação é para que, diariamente, cada pessoa amplie as medidas do próprio coração para nele acolher princípios morais que motivam o respeito ao bem comum e o compromisso com os mais pobres.

Diante dessa necessidade de fazer com que cada pessoa torne-se coração da paz, é preciso dedicar atenção especial à família, enquanto comunhão íntima de vida e amor fundada sobre o matrimônio entre um homem e uma mulher.  Trata-se do lugar primário da humanização.  Por isso, urgente e indispensável é investir na constituição da vida familiar, sem fantasias, conscientes dos desafios culturais que existem, das mudanças que atropelam e confundem. A família é fonte da experiência da paz e do amor entre irmãos e irmãs, ambiente para a aprendizagem insubstituível da função da autoridade, manifestada pelos pais. É também lugar para se exercer a dedicação aos mais fracos e pobres, doentes e idosos, onde se cultiva o gosto pela ajuda mútua e se exercita a inigualável virtude de sempre perdoar. Há um léxico da paz que só a escola da família tem propriedade para ensinar, exercitar e selar, como a impressão de uma indelével marca.

Cuidar da família é fundamental para se proteger a verdade, tão ameaçada no mundo contemporâneo. E as consequências desse comprometimento se manifestam nos muitos descompassos sociais. Quando não se é transparente no que se faz, os impactos negativos incidem na rede de relações entre pessoas, no dia a dia, incluindo a prática de “mentirinhas” até os absurdos esquemas de corrupção. Deixar-se iluminar pelo esplendor da verdade é fundamental para que ela, com a sua força libertadora sem igual, construa o caminho novo, o novo ano que se quer.

A mentira, seja qual for, é a manifestação do fracasso. Ela não é alicerce capaz de sustentar os cidadãos e os projetos exitosos. Já a verdade, com sua força de transparência, gera a prosperidade, a alegria que não morre. Dela brota o novo que se sonha alcançar. Para que cada pessoa aproxime-se da verdade e, consequentemente, ajude a construir o novo almejado no ano que se inicia é oportuno acolher o convite e os votos do Papa Francisco, apresentados em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz: “No início deste novo ano, formulo sinceros votos de paz aos povos e nações do mundo inteiro, aos chefes de Estado e de governo, bem como aos responsáveis pelas Comunidades Religiosas e pelas várias expressões da sociedade civil. Almejo paz a todo o homem, mulher, menino e menina, e rezo para que a imagem e semelhança de Deus em cada pessoa nos permitam reconhecer-nos mutuamente como dons sagrados com uma dignidade imensa. Sobretudo nas situações de conflito, respeitemos esta dignidade mais profunda e façamos da não-violência o nosso estilo de vida.” No compromisso de acolher o convite e os votos do Papa Francisco, cada pessoa reconheça que muitos são os caminhos, mas tudo depende de cada um para que se alcance o “novo” esperado neste ano de 2017.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Natal: acenda sua luz

O Papa Francisco ensina que Natal sem luz não é Natal. Não se trata, obviamente, de referência às luzes dos centros comerciais. Nem mesmo se refere às lâmpadas que integram o cenário dos presépios e ornamentam as árvores, indicando o genuíno sentido do Natal, a chegada do Salvador do mundo.  O Santo Padre faz, na verdade, um interpelante convite a cada pessoa: acenda a sua luz. 

Oportuno é fazer um exercício de imaginação usando a imagem simbólica das luzes nas árvores de Natal, nos enfeites das casas, edifícios, tantas outras decorações que provocam alegria e emoção. Todas essas luzes poderiam ser a multidão - a humanidade da cidade da gente, do bairro, da rua, de sua casa, do seu prédio, do ambiente de trabalho, das escolas, das instâncias de governos e dos segmentos todos da sociedade. Assim seria possível formar uma grande procissão da humanidade com a luz que dissipa a escuridão. Não haveria mais as sombras que embaçam a vista, confundem entendimentos, induzem a escolhas equivocadas, geram indiferença e as muitas formas de violência - como o aborto e o “descarte das pessoas”. Se houvesse uma luz nas mãos de cada indivíduo, uma grande tocha se formaria, fazendo brilhar os olhos da esperança.  Surgiriam novos caminhos a serem percorridos e os rostos de cada pessoa revelariam encantamento pelos rumos reencontrados. Haveria um verdadeiro fenômeno de luz, que faz raiar um novo dia.

O Papa Francisco diz que o Natal é a festa da luz - muito mais do que um efêmero espetáculo produzido com impacto visual, mas sem efeitos duradouros. A falta de saídas para as crises e a carência de entendimentos humanitários que podem devolver ao ser humano a sua mais nobre condição indicam que o mundo atual, com suas tantas outras “luzes”, nunca esteve tão obscurecido. A humanidade sofre com percalços dolorosos, potencializados pelas brutalidades, ganâncias, ódio e desejo de vingança. Por tudo isso, a convocação é urgente: acenda a sua luz interior. O verdadeiro Natal é luz. É o evento da luz que brilha nas trevas. Vale guardar a narrativa de São João na introdução do seu Evangelho: “E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguira"m dominá-la. Veio um homem, enviado por Deus, seu nome era João. Ele veio como testemunha, a fim de dar testemunho da luz, para que todos pudessem crer, por meio dele. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. Esta era a luz verdadeira, que vindo ao mundo a todos ilumina”. A Palavra de Deus possibilita essa compreensão a respeito da luz verdadeira que, se recebida, faz crescer um brilho interior. Quem a acolhe e cultiva sua luminosidade passa a orientar-se nos parâmetros da verdade e do amor.

Acender a luz, sua luminosidade interior, antes e acima de tudo é, deliberada e amorosamente, receber a Cristo, a luz que vem ao mundo. A luz que pode brilhar no interior de cada pessoa depende dessa luz, fonte inesgotável de luminosidade, que é o amor infinito de Jesus. Acender a própria luz é acolher Cristo Luz dos Povos e conseguir caminhar nas trilhas do bem, da verdade e da justiça. Diante das muitas incertezas vividas por toda a sociedade, só há uma saída possível: empreender o acendimento da própria luz. 

Este grave momento da história, quando a sociedade se submerge nas escuridões produzidas por desmandos e relativizações dos parâmetros ético-morais, torna se urgente um gesto humilde e simples, mas significativo: reunir os restos e os cacos da própria lamparina interior e acendê-la, de novo, com a acolhida de Cristo que vem, a luz que todos ilumina. Esse compromisso exige resgatar valores na interioridade, assumir novos propósitos, arcar com o peso indispensável de recomeçar, abrir mão de privilégios. Assim torna-se forte a luz da esperança de um novo tempo, com a escuta de Cristo, o messias Salvador. O que está quebrado pode ser reparado.  Os erros, corrigidos. E o que foi retirado indevidamente pode ser reposto. 

Reacendam os corações para iluminar um caminho diferente e, assim, com esperança, que possa ser vista no horizonte a realização da profecia de Isaías quando diz que “o Povo que andava nas trevas viu uma grande luz, para os que habitavam as sombras da morte uma luz resplandeceu”. Sem esperar milagres dos “salvadores da pátria”, a única saída é o gesto pessoal capaz de provocar efeito revolucionário sobre a sociedade, um convite interpelante e transformador: acenda sua luz!

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Crise na representação

A sociedade brasileira carrega nos ombros o peso de muitos problemas, um deles especialmente grave: a crise envolvendo os representantes do povo. O que tem sido protagonizado na Praça dos Três Poderes, em Brasília, causa perplexidade. São fatos com desdobramentos que atingem fortemente a democracia, colocam em risco seus funcionamentos e propósitos. Por isso mesmo, há uma demanda imediata para que se estabeleça amplo processo de revisão das práticas e posturas nesses âmbitos, para que elas sejam balizadas por parâmetros éticos. Assim, os representantes do povo, em suas responsabilidades políticas, poderão valorizar e garantir a dimensão moral necessária à atividade para a qual foram eleitos. 

É inquestionável que hoje a maior parte das energias é investida nas situações e interesses pessoais e partidários, deixando de lado o que deveria ser prioridade: o supremo bem do povo. Não se reconhece que a representação política significa a capacidade e a disposição de partilhar os sofrimentos e as angústias do povo, buscando soluções para problemas sociais. Além disso, falta aos representantes a luminosa razão que permite enxergar problemas e intervir. Isso se revela na ausência de coragem para acabar com privilégios e regalias que estão muito acima das necessidades reais para o exercício da representação, mas que continuam a emoldurar o cotidiano de tantos representantes do povo. Na verdade, essas “vantagens pessoais” agem como um veneno contaminador. Induzem à equivocada crença de que toda representação, longe de ser compreendida como serviço, é simplesmente a conquista de benesses, de lugares que facilitam o enriquecimento a partir da corrupção. 

Quem exerce a representação deveria estar sempre a serviço da coletividade. No entanto, há um daninho vício de se valer do lugar que se ocupa para adquirir mais prestígio e outras vantagens pessoais. Isso compromete o bem comum e explica o constante “bate-boca”, os sucessivos e recíprocos ataques, que objetivam a conquista de privilégios.  Fica evidente que a corrupção política é a mais grave deformação do sistema democrático, por ser uma traição vergonhosa aos princípios da moral e da justiça social. O sério comprometimento no funcionamento do Estado nasce da corrupção, que influencia as relações entre governantes e governados e tira a credibilidade da representação política. Um déficit que leva ao enfraquecimento das instituições representativas.

A Doutrina Social da Igreja Católica afirma que a corrupção política distorce na raiz a função dessas instituições, “porque as usa como terreno de barganha política entre solicitações clientelares e favores dos governantes.” Lamentavelmente, esse mal se tornou um vício na sociedade brasileira. Até quem pode agir de modo diferente, por não ter afundado, ainda, nas dinâmicas da corrupção, corre o risco de ser envolvido nos processos que comprometem o exercício da representação política.  Consequentemente, prevalecem os interesses que são restritos a pequenos grupos. 

Se a dinâmica que prioriza interesses particulares não for vencida, a representação política na sociedade brasileira só servirá para aumentar a exclusão social e fomentar um gosto vicioso: o de ocupar cargos para apenas se apropriar do poder, desconsiderando o bem do povo. Tudo mudaria se a cultura dos que estão na administração pública, em qualquer nível, fosse marcada pelo objetivo de servir aos cidadãos.  Porém, na contramão desse ideal, o Estado permanece apropriado pelos interesses que contrariam o bem comum, guiado por encaminhamentos que não são suficientemente lúcidos. Prevalecem as escolhas que sacrificam o povo, principalmente o mais pobre. 

Urgente é investir na representação política para inverter os descompassos em curso, promover novas posturas, sem os vícios que fazem os governantes gastarem a maior parte do tempo com infrutíferas discussões e acusações. Só uma nova cultura nas dinâmicas da representação política poderá reverter esses quadros desoladores. O investimento pode ser alto, o percurso a trilhar certamente é longo, mas uma profunda mudança na representação política é fundamental. Sem a necessária moralidade e a consequente qualidade no exercício da representação política, continuará aberta a ferida na democracia brasileira.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Advento, um tempo novo

Os cristãos se preparam para a celebração do Natal de Jesus em um tempo chamado advento, com momentos de espiritualidade e celebrações que recuperam a sintonia dos corações com o coração de Deus. Um tempo de esperança, que pode fecundar um futuro melhor sonhado por todos, particularmente quando se avalia o peso dos muitos percalços vividos na contemporaneidade - a desolação provocada pelos esquemas de corrupção, as irresponsabilidades e o gravíssimo descaso pelo outro, que é um irmão.  De modo muito especial, o advento da vinda do Messias tem propriedade para reavivar sensibilidades perdidas, o gosto pelo bem, e sedimentar a convicção da importância de todas as pessoas, sem distinções. 

Isso pode parecer mera teoria diante da dificuldade para se vivenciar a beleza e a delicadeza deste tempo, pois há uma avalanche de apelos nessa época para estimular o consumismo e as festas. Convive-se com a fantástica e ilusória sensação do belo, a partir de luzes e cores com fugacidade própria – logo após esse período vem a realidade com seus desafios. A força necessária para todos vem justamente do amor e da experiência de se encontrar com Jesus Cristo. Ora, o que define a vida e as pessoas não são as circunstâncias, nem mesmo os desafios da sociedade. Acima de tudo, o que define a autenticidade da condição humana e os rumos novos da história é o amor. E o amor torna-se realidade na experiência de se buscar Jesus Cristo. Eis o sentido da celebração do Natal, oportunidade singular e inigualável para se desenhar um horizonte diferente, conferir à vida uma orientação decisiva.

A alegria que nasce do encontro com Jesus não é artificial, diferentemente das que são produzidas por mecanismos ilusórios, efêmeros. É a felicidade que nasce da experiência de aproximar-se da fonte inesgotável do amor de Deus, Pai misericordioso, que transforma, recria e salva.  Sem esse encontro, não há como passar da morte para a vida, da tristeza para a alegria, do absurdo para o sentido profundo da existência, do desalento para a esperança. Não aproximar-se do Messias Salvador é perder a chance de se qualificar como ser humano e, assim, contribuir para melhorar a sociedade. Distante dessa necessária espiritualidade profunda, que deve ser experimentada na dimensão existencial - longe de misticismos ou fundamentalismos - a humanidade não avançará rumo aos avanços almejados. As estatísticas serão sempre vergonhosas, revelando que a sociedade adoece cada vez mais, convivendo com o medo e o desespero. Permanecem as dinâmicas que levam ao desrespeito, à violência e à desigualdade social.

Sem o encontro com Cristo, que promove transformações nas pessoas, a humanidade continuará regida pela economia da exclusão, pela falta do compromisso com a solidariedade e com a busca pelo bem da coletividade.  A idolatria perversa do dinheiro será sempre doença incurável e o povo permanecerá carente de governantes competentes, com sólida moral. Somente com uma profunda espiritualidade, temperando todas as práticas, será possível promover reformas fundamentadas na ética. 

O convite permanente, com força singular no tempo do advento, é fixar o olhar n’Ele, Cristo, o Messias Salvador. Conhecê-Lo, dialogar com Ele, deixar-se transformar por suas propostas e lições - os valores do Evangelho.  Essa experiência espiritual qualifica a existência, as ações e escolhas do ser humano. Por isso, é hora de aceitar a proposta de se encontrar com Jesus Cristo – abertura ao advento de um novo tempo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Acolher uma nova vida

A Igreja Católica, fiel ao Evangelho da Vida, em sintonia com segmentos religiosos e da sociedade civil, trabalha para que a humanidade compreenda bem as palavras do Papa Francisco: “Quero enfatizar com todas as minhas forças que o aborto é um pecado grave, porque põe fim a uma vida humana inocente. Com a mesma força, no entanto, posso e devo afirmar que não existe nenhum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, ali onde se encontra um coração arrependido". Assim, há de se ter redobrado cuidado com o risco das relativizações interpretativas que abrem caminhos legislativos para ferir o dom absoluto da vida. É imprescindível legislar e agir com o compromisso de tecer uma nova cultura da vida humana. 

Desconsiderar esse dever é provocar graves prejuízos, pois há um peso insustentável a carregar quando as dinâmicas sociais, no âmbito legislativo ou mesmo nas interações cotidianas, relativizam um compromisso que deve ser absoluto: defender a vida. Eis a tarefa que é irrenunciável. Cada pessoa precisa promover a dignidade humana. E isso significa, antes de tudo, reconhecer o direito inviolável à vida, desde a fecundação até a morte natural. Assim, grave é a porta que se abre com a recente decisão da Corte Suprema, no julgamento de um caso de aborto, que pode desencadear mudanças drásticas no tratamento desse tema delicado no horizonte mais amplo.

A interpretação da letra legislativa não pode, em hipótese alguma, possibilitar a abertura para atentados contra a vida, particularmente contra a vida de inocentes, o abominável aborto. Não se pode ajustar legislações recentes e antigas considerando apenas a busca por um simples sentido legal. É preciso precaver-se da existente tendência a se considerar normais os crimes contra a vida. Nesse cuidado, deve-se ponderar muito a respeito da situação atual, particularmente da sociedade brasileira. Um contexto, indiscutivelmente, marcado por confusões - que incluem a desarmonia entre os poderes que regem a sociedade e também os amplos setores da opinião pública que chegam a justificar crimes contra a vida em nome do direto à liberdade individual. Esses segmentos buscam não apenas a impunidade, mas a autorização por parte do Estado para a prática do aborto, com a colaboração gratuita dos serviços de saúde. 

A Justiça não pode ajudar a deteriorar a consideração sobre a vida e as relações entre as pessoas, com alterações legais de consequências graves. Diante da sacralidade da vida, o posicionamento interpretativo de um magistrado, por ser relativo, não pode ser considerado irretocável. Há de se avaliar as aberturas e a constituição de certos “direitos” que fazem a sociedade reconhecer legitimidade onde não existe. Opções, outrora consideradas unanimemente criminosas, tornam-se, pouco a pouco, socialmente aceitas.  O ordenamento jurídico, a medicina e os outros setores todos devem, em primeiro lugar, defender a vida. Desconsiderar essa obrigação deforma a face da humanidade, contribuindo para fortalecer uma cultura da morte. 

Urgente é retomar valores morais que são basilares, com propriedades para evitar que a sociedade afunde na corrupção, nos atentados criminosos contra a vida, desconsiderada em seu sentido moral e espiritual. O respeito e a solidariedade devem aflorar diante das vidas inocentes interrompidas a partir do aborto e da humilhação dos pobres. Assim será possível estabelecer um novo contexto, legal e espiritual, capaz de superar as ilusórias decisões de poucos, enjaulados nos limites próprios de qualquer intérprete.  Diante de seres humanos indefesos, espezinhados no seu direito fundamental à vida, em particular as crianças não nascidas, o conjunto da sociedade não pode se calar e deixar-se enganar por disfarces de progresso, de liberdades e de organização. Todos precisam reconhecer: é irrenunciável a luta pela reafirmação do valor e da inviolabilidade da vida humana. Esse é o caminho da justiça, da verdadeira liberdade, da paz e da felicidade, via que permite tecer a cultura de se acolher uma nova vida.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


A caminho com Francisco

Há uma clássica percepção sobre a Igreja Católica que enfatiza o seu estado permanente de reforma. Isso significa compreender a Igreja assentada sobre alicerces imutáveis e inegociáveis da Doutrina da Fé, inserida na história e em diferentes culturas, assumindo o desafio de ser contemporânea. Um compromisso vivido sob a luz e o impulso da ação do Espirito Santo. Assim, a Igreja se confirma, ao longo dos tempos, como servidora do Reino de Deus e anunciadora do Evangelho. Hoje, a Igreja trilha o caminho de um mundo marcado pela multiplicidade e velocidade das transformações, entre outras características, que exigem novas ações capazes de permitir o encontro de todos com a pessoa de Jesus Cristo - a assimilação de seu Evangelho, força com propriedades para tornar o mundo melhor. É preciso alcançar novos paradigmas alicerçados na misericórdia, que quebra privilégios e segregações. Nesse processo, para ser fiel à sua identidade, a Igreja precisa cultivar a proximidade, sobretudo com os mais pobres. E diante dessa realidade, o Papa Francisco deve ser reconhecido como um dos sinais de Deus para os conturbados dias atuais. 

O Santo Padre é sucessor do apóstolo Pedro e, a partir de sua missão, conduz a Igreja na direção que deve seguir para qualificar-se, na fidelidade imorredoura à verdade da fé, e, assim, ser capaz de interpelar a contemporaneidade. Nessa tarefa, o Papa Francisco convoca todos os fiéis a fazer uma Igreja cada vez mais missionária, seguindo o mandato de Nosso Mestre e Senhor.  Jesus Ressuscitado envia seus discípulos em missão para pregar o Evangelho em todos os tempos e lugares, para que a fé n'Ele se estenda a todos os cantos da terra.  Inquestionável é a convicção de que o Evangelho de Jesus guarda a semente que, se cultivada, faz nascer sociedades mais justas e igualitárias. 

A tarefa de ser cada vez mais missionária exige da Igreja coragem para se submeter a indispensáveis reformas práticas, relacionadas aos exercícios do poder, à organização e aos funcionamentos conjunturais. Requer também a coragem para abrir mão de privilégios. Há inércias e funcionamentos que são claros impeditivos para que as comunidades avancem no caminho de uma conversão pastoral e missionária. Diante das perguntas novas, que exigem novas respostas, todos devem estar convictos de que as coisas não podem continuar como estão. Afinal, soluções obsoletas não são capazes de resolver problemas contemporâneos. E a novidade que se busca está em Jesus Cristo e no seu Evangelho. Desnecessários e prejudiciais na vida da Igreja são os hábitos que caracterizam clubes fechados, ou que remetem às organizações de caráter partidário e político-religioso. Esse processo de renovação exige rapidez, para não se perder a oportunidade, mas é complexo, pois confronta posições e defesas de práticas que são verdadeiras barreiras, erguidas pela incompetência de se dialogar com o mundo contemporâneo. 

É urgente a reforma de estruturas, mas não é somente “aquela onde o outro se assenta”. São todas as estruturas, que devem abrir-se à ação do Espírito Santo para renovar-se. O aparecimento de reações e de posturas não suficientemente lúcidas, que incapacitam para o diálogo com o mundo, constitui um risco. Pode conduzir a Igreja a uma espécie de “introversão eclesial” que ameaça a força de sua própria identidade. E se a Igreja estiver enfraquecida, distante dos homens e mulheres deste tempo, perde sua capacidade de promover o encontro de todos com a pessoa de Jesus Cristo, impulsionando transformações. As centralizações excessivas que complicam a vida da Igreja e mutilam sua dinâmica missionária impõem, a todos, um alto preço. 

A grande força motora de todo o necessário processo de transformação, que recria e redesenha estruturas, funcionamentos, sobre o alicerce imutável da Doutrina da Fé, vem da lição que permanentemente desafia a aprendizagem e a prática de todos os cristãos: a misericórdia. Eis o vetor que impulsiona as transformações, vencendo medos e resistências, fecundando mentes e corações nas inventividades. A misericórdia não é um parêntese na vida da Igreja, mas constitui a sua própria existência. Por isso, afirma o Papa Francisco que tudo se revela na misericórdia e tudo se compendia no amor misericordioso do Pai.  Na medida em que se é tocado pela misericórdia, brota-se o novo, firma-se o passo conduzido pelo amor. A vivência da misericórdia exige a ruptura com círculos de egoísmo, de carreirismo, de exercícios equivocados do poder e com o gosto por privilégios. Não se pode querer limitar a ação do Espírito Santo, pois d’Ele vem a indicação de novos caminhos. 

Essencial para acolher esses novos rumos é Proclamar a Palavra de Deus. Reconhecer que esse é o tempo da misericórdia e de renovar, pela misericórdia, o rosto da Igreja, possibilitando novas dinâmicas e respostas. Para isso, são necessários investimentos, sinergia e comunhão com a marca da humildade, amor sincero e operoso pela Igreja. E a indicação mais segura, no mundo contemporâneo, é que todos possam estar a caminho com o Papa Francisco.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Evangelho da tolerância

O mundo celebra, todos os anos, o Dia da Tolerância, oportunidade para que cada pessoa reconheça a necessidade de vivenciá-la no cotidiano. A tolerância é valor necessário para o equilíbrio da sociedade. Quando se desconsidera esse valor, crescem na humanidade as inimizades, os revanchismos e muitas outras ameaças às relações pessoais, políticas e institucionais. Por isso, tolerância não pode ser compreendida apenas como uma questão governamental, relacionada ao tratamento das religiões que se diferem daquela que é partilhada pela maior parte de uma nação. O ocidente inaugurou, a partir da Reforma Protestante e das guerras motivadas por disputas religiosas uma grande modificação no entendimento desse conceito, tornando-o mais abrangente. 

A evolução da tolerância enquanto valor social pode ser percebida a partir das reflexões de muitos filósofos, que advertem a respeito da existência de uma prisão: por muitas vezes, pessoas se enjaulam na própria opinião quando se encontram com alguém que pensa diferente.  Uma rigidez alicerçada na desconsideração de conceitos morais, na estreiteza de horizontes, na mediocridade de intuições e inventividades. Essa dureza traz impactos na dimensão relacional e gera o malefício terrível da intolerância. Mata diálogos, tenta justificar autoritarismos, fomenta discriminações e permite que sejam erguidas as bandeiras da exclusão, da desconsideração de raças, culturas e povos. É, assim, base para preconceitos e abusos de poder. 

A intolerância inviabiliza entendimentos e gera o caos, por obscurecer princípios básicos e, consequentemente, dar lugar às tiranias e às impiedades. Condutas que são alicerçadas nas razões afetivas contaminadas por desvios éticos e morais. Entre os desdobramentos, estão as concessões de todo o tipo oferecidas aos próprios pares, enquanto se trata, impiedosamente, os diferentes. Antídoto para esse mal é a tolerância compreendida a partir de sua evolução conceitual, política e social, que se relaciona à compreensão mútua entre os que partilham perspectivas divergentes. Uma atitude indispensável para não inviabilizar o funcionamento social e político, como também as relações familiares e institucionais.

Da tolerância de governos, apontada pelo filósofo Locke, na sua Carta sobre a Tolerância, “escancaram-se as portas” para uma compreensão mais ampla e determinante na vida da sociedade: agir com tolerância evita um caos social e político que recai sobre a cabeça de todos.  É conduta imprescindível para se conquistar a paz, o bem, o respeito à dignidade humana e o progresso nas relações que tecem a cultura. Assim, quando a tolerância norteia atitudes, alcança-se um grau admirável de civilidade, com desdobramentos na organização social e política. Já a direção oposta a esse qualificado modo de agir leva ao crescimento das segregações, do ódio e das disputas que alimentam os focos de guerra, gerando xenofobias e massas de refugiados perseguidos. As consequências também são percebidas nos lares, nos escritórios e nas repartições públicas, frequentemente contaminados pela desarmonia. 

No horizonte amplo e fundamental do conceito de tolerância, é urgente exercê-la, especialmente, trilhando os caminhos de uma espiritualidade que pode, com mais eficácia e rapidez, qualificar cada pessoa para conviver com quem é diferente. Essa espiritualidade sustenta a tolerância que fecunda projetos, respeita e promove dignidades, salva a sociedade da violência e de outras ameaças. Nesse sentido, oportunidade de ouro é conhecer o Evangelho da Tolerância, que reflete o jeito de uma pessoa: Jesus Cristo, o Mestre de Nazaré. 

A vida de Jesus é o Evangelho da Tolerância, escrito para nortear os gestos cotidianos de todos e, assim, sustentar grandes transformações. A luz desse Evangelho balizou a essencialidade das práticas do cristianismo em interface com outras religiões e escolhas confessionais. Encontros guiados por valores que superam a mesquinhez do egoísmo e permitem compreender que qualquer tipo de discriminação é inadmissível. Parâmetros a partir dos quais se reconhece que o mundo é de Deus e deve ser partilhado, igualmente, por todos. 

Nesse rico Evangelho da Tolerância há um núcleo fundamental, nascido no coração de Jesus e eternamente desenhado por suas palavras: o Sermão da Montanha, capítulos cinco a sete, apresentado pelo evangelista Mateus. Trata-se de uma leitura a ser adotada diariamente, fecundando a meditação que orienta as práticas do dia a dia. A preciosidade desse núcleo pode ser reconhecida a partir do comentário instigador e provocante de Mahatma Gandhi, ao dizer que se os cristãos levassem a sério o Sermão da Montanha, operariam uma radical revolução no mundo, nas relações e nos propósitos, desencadeando uma civilização fundamentada no amor e na paz. 

O exercício diário de ler o Sermão da Montanha é simples e custa muito pouco - somente o tempo do silêncio restaurador, que também é fonte de sabedoria e de saúde. Por isso, todos são convidados a praticá-lo, reservando um breve momento para, individualmente, em família, no trabalho, ou mesmo na roda de amigos, ler um trecho, ainda que seja um só versículo. Assim é possível exercitar o coração e a vida no Evangelho da Tolerância.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Painel de escolhas

O painel de escolhas que afetam e desafiam a subjetividade humana no mundo contemporâneo é de tamanho imensurável. Essa realidade oferece novas possibilidades para discernimentos, mas, ao mesmo tempo, os tornam ainda mais complexos. Uma complexidade que incide também nas relações entre grupos, pessoas e sociedades. É muito forte o fluxo da cultura globalizada que, sem deixar de apresentar novos valores e possibilidades, produz fragmentações e fragilidades, processos que, frequentemente, desqualificam subjetividades.  Por isso, são urgentes as medidas que permitam recuperar a interioridade humana.

A carência de líderes capazes de conduzir processos sociais, culturais, políticos e religiosos com propriedade para dar novos rumos à sociedade é consequência dessa fragilidade no âmbito da subjetividade, enfraquecido nas dimensões humana e espiritual. Os desdobramentos são os atrasos nas dinâmicas conjunturais, com a desfiguração e a falência de muitas instituições. Sem líderes e agentes capazes de garantir o adequado funcionamento institucional, é estabelecida uma ambiência confusa, onde as pessoas não reconhecem o próprio papel, o serviço que devem oferecer e as prioridades.

Diante desse quadro que atinge os recursos humanos, as instituições não conseguem se adequar às necessidades do mundo contemporâneo e, por isso, não são capazes de oferecer contribuições à sociedade.  Tornam-se prisioneiras de um tipo de marasmo egoísta que incapacita pessoas, permanentemente indispostas para assumir compromissos e, por isso mesmo, apenas preocupadas em manter o “tempo livre”.  Essa situação cria indisposição para posturas altruístas, que requerem dois componentes indispensáveis: a motivação e o objetivo prioritário de se promover o bem do outro.

A esse marasmo, acrescenta-se ainda a ânsia pelos resultados imediatos, um mal contemporâneo. Busca-se uma velocidade que desconsidera os necessários processos para se alcançar certos objetivos. Essa ansiedade gera sensação de fracasso e de desânimo. Mais grave ainda é o pessimismo estéril que precisa ser vencido com um “não” radical. O derrotismo apenas aprisiona as pessoas em uma permanente sensação de desencanto, tornando-as lamurientas. Esse quadro, indiscutivelmente, é reflexo da falta de uma espiritualidade profunda, déficit que gera uma desertificação interior, o apego e a submissão ao que conta menos.  Um mal que domina, faz perder a serenidade e a alegria de servir e de participar dos projetos que ajudam a transformar o mundo.

As instituições, consequentemente, não conseguem agentes capazes de inovar e abrir novas frentes. Apegam-se apenas à manutenção do que já fazem, inviabilizando as dinâmicas capazes de gerar novas respostas.  Mesmo reconhecendo a necessidade de caminhos novos, permanecem amarradas a processos pesados. Respondem às “perguntas de hoje” com as “respostas de ontem”.

Ao se reconhecer a importância dos funcionamentos institucionais, que se alicerçam no agir de cada pessoa, identifica-se uma urgência: investir nas tarefas educativas que deem aos indivíduos a possibilidade de conquistarem uma subjetividade com envergadura humana, espiritual e moral, condição para que se tornem agentes de mudanças e de inovações. Ao mesmo tempo, inadiável é a permanente avaliação das dinâmicas institucionais, para que elas não enjaulem as pessoas e os grupos na mediocridade. Assim é possível romper o “círculo vicioso” que impede o desenvolvimento humano. A superação desses entraves ajudará no surgimento de líderes e agentes com criatividade para oferecer novas respostas à sociedade diante do atual painel de escolhas. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Conflitos e verdades

As dinâmicas de construção e manutenção da sociedade estão inseridas nas tensões entre conflitos e verdades, de modo semelhante ao que ocorre nas relações familiares e pessoais. Há uma dimensão do conflito que é inevitável porque a verdade não é propriedade exclusiva de alguém. Alcançá-la é sempre tarefa árdua, que abrange o exercício interpretativo da realidade a partir do confronto de interesses, ponderações e de prioridades.  Importante é reconhecer que as pessoas estão permanentemente em busca da verdade e, por isso mesmo, ninguém pode reivindicar a sua propriedade. Assim, exige-se muita humildade nessa procura para que se viva a experiência indispensável do diálogo, com a imprescindível abertura para a atenta escuta. Essa é condição fundamental para se alcançar a verdade capaz de garantir, acima de tudo, o bem e a justiça. 

Os processos de definição de prioridades, particularmente aqueles que podem promover as mudanças necessárias na vida social e política do povo, são complexos. Assim, não basta agarrar-se a posições - dizendo-se ser contra ou a favor de algo -, é preciso dialogar para se aproximar da verdade. Trata-se de exercício racional e espiritual que requer redobrada atenção de todos, com o objetivo de superar conflitos que sempre se desdobram em prejuízos. Males que incluem as guerras, disputas ferrenhas pelo poder e as escolhas que privilegiam poucos, consolidando a injustiça contra os pobres. Nessa tarefa, indispensável é avaliar o lugar que se ocupa e, ao mesmo tempo, se perceber no lugar do outro, principalmente dos excluídos da sociedade. Ignorar essa atitude é perpetuar uma organização societária que desconsidera o abismo crescente entre ricos e pobres, os que podem muito e os que nada podem. 

Sem o processo dialogal e interpretativo, à luz de regras, leis, normas culturais e morais, continuarão a proliferar, em todas as regiões do mundo, conflitos motivados pela diferença entre povos, culturas e religiões. Buscar o bem comum há de ser fundamento para a formulação de juízos, escolhas e definição de prioridades. Para isso, exige-se o reconhecimento de barreiras psicológico-afetivas e de tantas outras, fundamentadas nas visões de mundo individuais, e superá-las com o objetivo de se alcançar o bem maior. Constituem-se grandes obstáculos, na busca pela verdade, os conflitos que advêm do âmbito da política partidária, eivado por projetos de poder que, quase sempre, se alicerçam no interesse individual, familiar ou de pequenas oligarquias. Esse contexto do ambiente político traz consequências graves, pois favorece a perda de foco e de clarividência na identificação do que, de fato, merece ser prioridade. Não raramente, induz a um tipo de visão que se restringe ao “retrovisor”, desconsiderando a amplitude de todo o “painel”. 

Consolida-se, assim, a perversa dinâmica que gera a elitização, uma enfermidade verificada em diferentes áreas - inclusive na religiosa - que se torna ainda mais grave quando é acompanhada pela mediocridade. A mediocridade, ao emoldurar a vida das pessoas, inviabiliza o surgimento de novos líderes capacitados para conduzir a sociedade, as instituições e seus funcionamentos rumo a horizontes mais promissores. O planeta sofre com as consequências, que incluem o crescimento do ódio entre as pessoas, cenários desoladores marcados pelo grande contingente de refugiados, de pessoas famintas e amedrontadas. Somente as dimensões técnica e tecnológica não bastam para superar tudo isso. É necessário um novo passo que exige a construção - pessoal e coletiva - de uma envergadura espiritual, humana e moral: a competência humanística. 

Essa competência é alicerce para avanços, vetor determinante nos diálogos que geram entendimentos e promovem a sensibilidade social - fortalecendo a solidariedade entre pessoas, povos e nações.  Também possibilita a permanente autocrítica, tarefa que dissipa as escolas alimentadoras de arcaísmos políticos, religiosos e de tantas outras naturezas. Por isso mesmo, deve ser sempre prioridade o investimento, de muitas formas e por parte de todos os segmentos da sociedade, no cultivo de uma sensibilidade capaz de superar selvagerias e indiferenças. 

Desconsiderar essa urgência levará a sociedade a conviver com gente desempenhando papéis que não são seus, sem competência, multiplicando desorientações. E no lugar dos diálogos, haverá sempre arenas de gladiadores que derramam até suas últimas gotas de sangue. 

Maior que a crise financeira, política e tantas outras é a crise humanística, fruto da carência de nobres valores, a exemplo dos que são partilhados no Evangelho de Jesus Cristo. As consequências são oportunidades perdidas em um contexto de grandes desenvolvimentos alicerçados na inteligência humana. Todos devem cultivar, inadiavelmente, a competência humanística para superar conflitos e reconhecer a verdade. Assim, será possível viver um tempo novo na história da civilização.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Diálogos educativos

O contínuo processo de deterioração global, que atinge tecidos culturais da civilização contemporânea, configura grave crise humanística e impõe urgente desafio: resgatar instituições diversas – políticas, religiosas, sociais, familiares e tantas outras – de certos funcionamentos que comprovam o descompasso de um tempo em que novas perguntas e complexas dinâmicas culturais convivem com respostas obsoletas e procedimentos ultrapassados. A necessária reconstrução civilizatória requer muitos investimentos, a começar pelos diálogos educativos, fundamentais em todos os processos, indispensáveis para superar o atual fenômeno de deterioração global. 

O conjunto de situações que ameaça a humanidade desafia a compreensão de líderes e cidadãos comuns. Por isso, buscar diálogos que impulsionem efetivos entendimentos a respeito da realidade, nas muitas ações cotidianas, nos diferentes âmbitos, constitui o caminho para se encontrar soluções. Obviamente, não basta que esses entendimentos sobre a realidade se concentrem nas mãos de uma minoria privilegiada. Indispensável é proporcionar a todos uma nova compreensão, que ilumine competências e, consequentemente, permita a intuição de novos modelos e funcionamentos capazes de garantir um futuro melhor.   Esse desafio, que só pode ser vencido a partir de diálogos educativos, é capaz de promover reconfigurações nas instituições a partir de suas engrenagens: as muitas pessoas que as integram.

Oportuno é reconhecer que a sociedade padece de estreitamentos no horizonte da compreensão e isso dificulta escolhas, atrasa respostas e gera verdadeiras prisões. Enjaulada, a humanidade não dá mais conta de encontrar as respostas novas que a complexidade sociocultural do mundo contemporâneo exige: permanece inerte neste tempo que demanda uma virada antropológica, de modo veloz, para evitar prejuízos irreversíveis. Sem a necessária ruptura com essa situação, a sociedade continua a se deixar conduzir rumo a direções que invariavelmente produzem deterioração e conflitos. Proliferam cenários degradantes que preocupam muito e, ao mesmo tempo, provocam sentimento de impotência, exatamente por não se saber o que fazer para superá-los.

Quando se reflete, por exemplo, a realidade do sistema prisional brasileiro, que combina uma população carcerária numericamente tão alta, com poucos recursos para os processos de ressocialização, sabe-se que o país está potencializando um explosivo “barril de pólvoras”.  Sua explosão atingirá a dignidade inviolável de cada pessoa, degradando o conjunto de toda a sociedade. Também causam preocupação os processos educativos dedicados aos jovens. Conduzidos em direções perigosas que ameaçam o futuro, esses processos carecem de investimentos capazes de qualificar os jovens para o exercício da cidadania. Essas e tantas outras realidades desoladoras impactam a vida de todos, de modo especial o cotidiano dos mais pobres que, além de sofrerem com os pesos que lhes são impostos pela perversa exclusão social, perdem, gradativamente, a esperança.

A continuar assim, a sociedade prossegue rumo a um precipício: a indiferença relativista. Fenômeno extremamente perigoso, que se revela em diferentes estatísticas. O número de assassinatos no Brasil, por exemplo, é semelhante ao de guerras. As mortes no trânsito, resultado da imprudência e do descaso, são também um desrespeito à vida.  Essa indiferença relativista integra uma cultura dominante que se ocupa, prioritariamente, do que é exterior, visível, imediato, superficial e provisório. Ao mesmo tempo, deteriora raízes culturais que são importantes para a humanidade. O preço já pago é a banalização da violência, o desconhecimento sobre a sacralidade da vida, o obscurantismo nas escolhas e nos posicionamentos.

A indiferença relativista também promove a diminuição da competência racional e humanística dos cidadãos, incapacitando-os para a necessária tarefa de se alcançar respostas inventivas e criativas que devem substituir as engrenagens enferrujadas e comprometedoras do desenvolvimento integral. Há um antídoto para essa indiferença: investir nos diálogos educativos, envolvendo academias, escolas, famílias, igrejas, as instituições todas e cada cidadão, em um mutirão de intercâmbios de narrativas, com a partilha dos modos de ver a realidade. Esse exercício possibilita recuperar o tecido cultural, primeiro passo para reconstruir a sociedade. Ignorar a necessidade de se investir no diálogo é permanecer na amarga situação de cegueira, sem saber o rumo certo a seguir. Os diálogos educativos, por diferentes modos e dinâmicas, em todos os lugares, garantem o aprimoramento da compreensão cidadã para discernimentos e escolhas, ante a urgente tarefa de se reconstruir a cidadania brasileira.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Emendar o Brasil

O compromisso de emendar o Brasil é muito mais do que simplesmente aprovar um projeto de emenda constitucional. É tarefa complexa. Nessa missão, a Constituição Brasileira, chamada de Constituição Cidadã, foi uma conquista decisiva. Agora, a grande emenda que se espera precisa ocorrer no tecido político-cultural do país. Há de vir com a superação das condutas egoístas que buscam perpetuar privilégios, exceções e facilidades, gestos e posturas que acirram preconceitos e cenários de discriminação. Quando se nomeia a Constituição de 1988 como “cidadã”, salienta-se, justamente, o alcance, naquele momento, de qualificado avanço na sensibilidade e no compromisso social.  Naquela ocasião, a busca por uma sociedade igualitária ganhou prerrogativas de uma meta insubstituível, com o bem do povo acima dos interesses das instituições todas. Por isso, emendar o Brasil é urgência, mas essa tarefa exige que não se prejudique as conquistas cidadãs da Constituição. 

A verdadeira emenda deve ser capaz de configurar os funcionamentos governamentais e de outras instituições para torná-los instrumentos capazes de eliminar certas dinâmicas produtoras de exclusão social. Processos que só servem aos interesses de pequenos grupos detentores do poder econômico. Nesse sentido, quando se fala em “emendar o Brasil” na perspectiva fiscal, por exemplo, não é possível tratar, igualmente, ricos e pobres. Inteligente e nobre é ter a coragem de encontrar intervenções capazes de gerar mais avanços e conquistas no âmbito dos direitos sociais. Assim, emendar o Brasil não pode ser simplesmente a proposição estática de um congelamento dos gastos públicos, sem garantias de que essa medida preservará os direitos fundamentais de todos, particularmente dos que mais sofrem. Há incredulidade e desconfiança a respeito da sensibilidade social da classe política e, assim, decisão tão impactante não pode se restringir apenas aos que têm demonstrado falta de competência para o diálogo. Por isso, o primeiro passo para emendar o Brasil é recuperar o verdadeiro fundamento e finalidade da comunidade política: o povo. 

Não é correto decidir um projeto de emenda constitucional, como a PEC 241, sem mensurar as consequências todas. Exige-se mais lucidez para regular a máquina pública, extirpando, primeiramente, privilégios e regalias de uma sociedade desigual. Esse processo requer também a disciplina para não se gastar mais do que se arrecada e o compromisso de discernir prioridades, considerando, sobretudo, as necessidades do povo.  Fundamental é superar as dinâmicas viciadas da organização social e política no Brasil que geram clara divisão: de um lado, os poucos privilegiados e, do outro, o grande contingente de excluídos. Essa é uma urgência e a essência para se viver uma evolução civilizatória no país. Porém, para que o Brasil avance, a classe política, no Executivo e no Legislativo, precisa considerar a dignidade humana como fundamento e finalidade.

Nesse sentido, torna-se possível reconhecer como tarefa prioritária dos políticos ouvir os diferentes segmentos da sociedade e jamais excluir a participação popular. Também deve ser compromisso evitar a intervenção pública fora dos parâmetros da equidade, racionalidade e eficiência. Evidentemente, o Estado não suporta o crescimento excessivo de seus aparatos, principalmente quando esse processo é guiado por lógicas burocráticas pouco criativas, pois a conta é sempre paga pelos mais pobres. A arrecadação fiscal e a despesa pública são questões econômicas fundamentais para qualquer comunidade civil e política. Mas, na contramão da proposta de emendar o Brasil com um projeto que, no horizonte, cega o compromisso com o social, particularmente com a educação e a saúde, os políticos e governantes, principalmente, têm que assumir um desfio: encontrar a saída para fazer da finança pública instrumento de desenvolvimento e de solidariedade.

Como bem sublinha a Doutrina Social da Igreja Católica, a exigência é o pensar inteligente, com sensibilidade social, para estabelecer uma finança pública eficiente, equitativa, eficaz, geradora de empregos, capaz de amparar as atividades empresariais e as iniciativas sem fins lucrativos, fazendo com que o Estado reconquiste sua credibilidade, pela garantia de sistemas de previdência e proteção social, destinados especialmente aos excluídos.  Não há outro caminho para emendar o Brasil. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Brasil nos trilhos?

Colocar a sociedade brasileira nos trilhos sob os parâmetros da justiça social e do desenvolvimento integral é um caminho complexo. Por isso, todos os cidadãos devem buscar se envolver no necessário processo de discernimento relacionado à Proposta de Emenda Constitucional 241 (PEC 241). Em pauta, estão importantes definições que vão impactar nossas vidas ao longo de duas décadas. Imagine o que significa vinte anos para o país. Podem ser décadas de avanços rumo ao desenvolvimento integral, um caminhar promissor para todos, especialmente para quem é mais pobre. Mas, é preciso atenção para a permanente ameaça de se seguir na direção oposta, com a multiplicação dos vergonhosos cenários de miséria e exclusão já presentes no país. Por isso, a escolha dos rumos com a PEC 241 merece uma mobilização nacional, que contemple análises e discussões, envolvendo os mais diversos atores: economistas, especialistas e movimentos da área social, igrejas, universidades e, de modo particular, o parlamento brasileiro, que a partir do voto, fundamentado nas necessárias ponderações, indicará o passo a ser dado.

Não se pode, imprudentemente, apoiar ou definir escolhas que, se equivocadas, pesarão crucialmente sobre os ombros de todos - mais perversamente atingindo os excluídos. Isso não significa deixar de investir nos ajustes e readequações que são necessários, adotando lógicas de gestão capazes de extinguir as dinâmicas que garantem certas regalias a determinadas classes, grupos e indivíduos, privilégios que estão na contramão da equidade e da justiça social. O Governo Federal e o Parlamento têm o dever de encontrar, criativamente, saídas para as crises e apresentar soluções para os graves problemas enfrentados pela nação brasileira. Evidentemente, isso não é tarefa fácil e exige complexas ponderações para não se perder as conquistas alcançadas na Constituição Cidadã de 1988, marco para o início do pagamento de dívidas sociais históricas.

Em um momento tão determinante para o futuro, nada de precipitações. São esperadas análises e um amplo processo de escuta da sociedade para que os mecanismos escolhidos, diante da necessidade de se colocar o Brasil nos trilhos, não ameacem, irreversivelmente, a vida de todos, principalmente a vida de quem já sofre. Assim, oportuno é sublinhar que as mudanças propostas não podem ser justificadas e definidas apenas pelas avaliações do ponto de vista econômico. É preciso considerar e buscar intervir, de modo mais profundo, no tecido cultural brasileiro, habituado a funcionar nos trilhos dos privilégios e das regalias.

Nesse sentido, a PEC 241 não pode ser, simplesmente, fruto da interlocução entre Executivo Federal e o Parlamento. Sua análise e discussão têm que se tornar um fato político e social mais amplo, permitindo o envolvimento dos segmentos todos da sociedade. É preciso haver debates entre especialistas, de diferentes áreas, e também uma convocação do povo, por diversos modos, para uma ampla mobilização nacional, de modo a criar entendimentos. Restringir a definição de uma diretriz que terá impacto nas próximas duas décadas à Praça dos Três Poderes em Brasília é algo desrespeitoso e temerário. Afinal, não se pode definir o futuro de um país sem análises e clarividências capazes de incluir, junto com a busca pela regulamentação e limitação dos gastos públicos, outros graves desafios que precisam ser enfrentados. Não bastam as afirmações políticas, em tom de promessa acalentadora, diante de mecanismos que podem funcionar, mais uma vez, como guilhotina destinada aos mais pobres e indefesos. Esses mecanismos precisam ser configurados a partir dos parâmetros da justiça social.

Entre os pares envolvidos na ampla discussão que o momento politico requer está a Igreja Católica, cujo tom de voz deve estar sempre em sintonia com as orientações do Papa Francisco. O magistério e a singularidade pastoral de Francisco impulsiona essa instituição bimilenar a contribuir com a construção de uma sociedade justa e solidária. Por isso, antes de qualquer elogio ou apoio apressado, embora sempre reconhecendo e dialogando com os interlocutores e agentes da sociedade pluralista, particularmente nos âmbitos governamentais, a Igreja recorda o que pede o Papa Francisco, em sua Exortação Apostólica Alegria do Evangelho: não à economia da exclusão, não à idolatria do dinheiro, não a um dinheiro que governa em vez de servir. 

No cumprimento de sua tarefa missionária, a Igreja está atenta às transformações vividas pela humanidade, às singularidades próprias da realidade brasileira. Reconhece tudo o que contribui para o bem-estar das pessoas, nos âmbitos da saúde, educação, da comunicação e em tantas outras áreas. Mas também é, diante das graves situações sociais e políticas, porta-voz de quem vive precariamente. Cada vez mais, crescem o medo e o desespero no coração de inúmeras pessoas. A alegria de viver, frequentemente, se desvanece por falta de respeito à dignidade humana, pelo crescimento da violência e da desigualdade social. Urge reverter a fonte desses males, a cultura do descartável. Isso inclui avaliar medidas necessárias, ponderar suas consequências, contemplando a exigência de não se correr o risco de acertar de um lado, mas, por outro, favorecer o aumento da vergonhosa exclusão. Somente com o fim da exclusão de quem vive nas periferias de todo tipo é que se pode constituir um verdadeiro projeto capaz de colocar o Brasil nos trilhos.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Cumprir bem o papel

A sociedade sofre graves consequências quando o parâmetro da mediocridade preside o desempenho de tarefas, missões, exercícios profissionais e deveres cidadãos. Os prejuízos são incalculáveis nos âmbitos da economia e da cidadania, com impactos negativos que atrasam terrivelmente o desenvolvimento integral e retardam os avanços necessários para que a sociedade possa trilhar novos caminhos. Cumprir bem o próprio papel é uma tarefa desafiadora que exige pré-requisitos adquiridos na esfera pessoal: talentos, qualidades e capacidade técnica, além dos princípios éticos e morais que alimentam o altruísmo e proporcionam a lucidez para solucionar problemas, vencer desafios. Esses requisitos possibilitam o uso racional do tempo e de outros recursos, permitem reconhecer a prioridade do bem comum e do crescimento igualitário de todos os cidadãos.

A corrosiva mediocridade que emoldura o exercício de papéis, inclusive o cumprimento de tarefas e responsabilidades profissionais, é entrave para o avanço social. Com frequência, percorre-se longo caminho em busca de soluções e de respostas, investe-se dinheiro, tempo e outros recursos de maneira pouco exitosa. Insucesso que advém, exatamente, da falta de clareza e de competência analítica no cumprimento do papel de gestor público, privado ou comunitário. Constata-se que certas pessoas têm facilidade apenas para construir discursos, muitas vezes para simplesmente embolar relações, produzir sombras que inviabilizam diálogos. Desconsideram, assim, que as relações têm, em si, a prerrogativa de clarear rumos e definir acertadamente as direções.

A competência analítica não é característica necessária apenas aos consultores, analistas e acadêmicos. Deve ser partilhada por todos e se consolidar como valor cultural. Um valor que permeia o conjunto dos hábitos e das atitudes, possibilitando a constituição de cidadãos habilitados para analisar situações, propostas e projetos; pessoas qualificadas para discernir bem e serem capazes de decidir adequadamente. Oportuno é lembrar que as escolhas, individuais e institucionais, são determinantes na definição dos rumos de uma sociedade. E, lamentavelmente, é comum ver problemas que se arrastam, geram atrasos e desgastes pessoais, em razão da falta de competência analítica nos processos de leitura e interpretação da realidade. Quando não se dá conta nem da própria tarefa, cumprindo-a de maneira medíocre, as perdas não ocorrem somente no âmbito individual, pois toda a sociedade partilha os prejuízos. Por isso, é importante cumprir o próprio papel a partir de motivações que ultrapassem a simples remuneração financeira. Afinal, os corações estão eivados por medidas e vetores sustentados por uma desenfreada busca pela acumulação de riquezas e, por isso, as pessoas nunca estão satisfeitas com o dinheiro que recebem. Para corrigir esse descompasso, vale se colocar no lugar dos mais pobres e dos que vivem na penúria. Certamente, é um remédio para debelar tudo o que atrapalha o princípio da solidariedade, fundamental nas relações sociais e políticas.

Há uma avalanche de dados e situações que precisam ser mais considerados no tecido social e político de uma sociedade para superar a cultura da mediocridade, o gosto patológico pela burocratização desnecessária, o entendimento infeliz de que o importante é apenas o próprio bem, ou de um pequeno grupo. O bem só para alguns é similar a uma ilha em constante ameaça, cercada por territórios marcados pela violência, desmandos, incivilidades e pela ruína de patrimônios. Por isso, cada pessoa é convidada a se compreender como parte de uma realidade mais ampla, a sociedade é fruto da articulação de suas partes. E o não cumprimento adequado do próprio papel é fonte de prejuízos incalculáveis para todos, que afetam a qualidade de vida, a economia, a saúde e a segurança pública, os mais diversos setores.

Superar o grave problema cognitivo e ético que impede cada pessoa de se perceber como parte de um conjunto maior, considerando que a sociedade é a união de suas partes, é um urgente desafio. Todas as pessoas, no exercício competente, inteligente e esforçado de seu papel, têm decisiva importância na articulação dos elementos que integram o tecido social. Cada indivíduo deve ser elo indispensável e determinante que assegura as condições saudáveis para o bem viver de todos, o desenvolvimento sustentável.

Nesse sentido, são necessários investimentos em processos educativos que qualifiquem o exercício da cidadania. E isso não pode se restringir somente ao território da educação formal, pois se relaciona a uma dinâmica formativa mais ampla: o cultivo, em todas as pessoas, da disposição para cumprir bem o próprio papel. Na lista grande de requisitos para a qualificação cidadã não pode faltar a humildade, a superação da ganância, a sensibilidade com a dor dos mais pobres. Para além dos discursos e promessas, o importante é fortalecer o amor à própria nação e lutar por uma cultura civilizada, que se oriente nos parâmetros do bem comum. Tudo muda e tudo avança quando se cumpre bem o próprio papel.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Gestão e política

Gerir processos e funcionamentos é complexo desafio principalmente quando são consideradas as exigências, necessidades e prioridades. Ao gestor, requerem-se resultados e não é permitido um planejamento que busque apenas a manutenção burocrática do que já se conquistou. Mas, lamentavelmente, existem certos hábitos culturais que impõem atrasos e inviabilizam o caminhar na direção das inovações. Esses costumes também alimentam a baixa autoestima da população e precisam ser superados para se alcançar o êxito. 

Há de se considerar que toda cultura guarda, nos hábitos e práticas, idiossincrasias que devem ser corrigidas para não se tornarem furos por onde as energias escapam. E muitos são os procedimentos que podem eliminar tudo o que impede a limpidez, a velocidade e a objetividade nos processos capazes de vencer descompassos. Para que esses mecanismos se efetivem, sempre será necessário o exercício cidadão das avaliações e análises. Uma permanente disponibilidade para derrubar os obstáculos que impedem avanços e progressos. São muitas as barreiras, de todo tipo, e várias delas são desconsideradas. Assim, não recebem os tratamentos adequados e continuam a minar forças.  Acabam alimentando comodismos com a justificativa de que “sempre foi assim”. 

Dentre esses graves hábitos culturais que precisam ser superados, há um que merece atenção especial: o descaso com o qual é tratado o patrimônio histórico, cultural e religioso de um povo. A desconsideração é generalizada, indicando a necessidade de se promover, inclusive a partir de processos educativos, o desabrochar da consciência sobre a grandeza desse patrimônio. É grave quando uma ambiência cultural não contribui para a difusão do conhecimento e a valorização dos próprios bens históricos, culturais e religiosos. Principalmente, quando se costuma valorizar somente o que pertence aos outros, em lugares distantes. 

A consequência dessa visão distorcida é o inadequado tratamento, nos campos da preservação e promoção, por parte de cidadãos e governantes. É lastimável o desconhecimento da riqueza da própria história. Parece que tudo começou hoje. Perde-se, no esquecimento, a herança dos antepassados, com prejuízos para identidades e sua preservação. Nesse horizonte, é deplorável a incapacidade para lidar, usufruir e valorizar as diferentes culturas que compõem o tecido de uma sociedade.  É condenável a tendência jocosa de “rifar” a própria riqueza cultural, enfraquecendo o amálgama consistente que pode advir desse patrimônio. Sem esses bens, a contribuição cidadã fica sempre muito comprometida, pois se perde componente determinante para a promoção da autoestima. Perde-se a capacidade para a inovação e a audácia. Habitua-se ao que é mediano e contenta-se em admirar o que é extraordinário, mas pertencente a outros lugares e pessoas. 

Nessa direção, convive-se com prejuízos - na economia, no turismo e na infraestrutura. Potencialidades são desperdiçadas. Esses comprometimentos, com uma lista de tantos outros, precisam ser considerados, pois não é possível admitir as perdas acirradas pelas irresponsabilidades ou incompetências das instâncias administrativas e governamentais. É preciso que se contemple os patrimônios de outras culturas, não para simples contemplação, mas como gesto capaz de mexer com os próprios brios e, assim, suscitar um espírito de luta - força para ações que busquem valorizar o que se tem e o que se é. Os que governam necessitam de uma sabedoria que lhes permita incursões no domínio da cultura para promover e fortalecer valores com a insubstituível consciência da prioridade que merecem os mais pobres. O desenvolvimento de uma sociedade, para ser duradouro, tem que ser sustentável e integral. 

A gestão, pois, para além de resultados econômicos, deve se pautar na relação entre princípios e valores, alicerçados nos parâmetros da justiça, liberdade e da verdade. Esse modo de pensar processos gerenciais é conflitante com o que se percebe na dimensão da política partidária. Os representantes do povo, no Executivo e no Legislativo, gastam tempo demais na arquitetura de conchavos, coligações, discussões, muitas delas de caráter apenas partidário, motivadas por interesses pessoais ou de pequenos grupos.  Sobra pouco tempo para os assuntos verdadeiramente urgentes, de interesse da população, que requerem sabedoria, agilidade, priorização. Prevalecem a pouca assertividade, a velocidade similar a passos de tartaruga, a busca por soluções a partir de velhas respostas, sem inventividade. Vangloria-se sobre o que já foi feito, quase sempre aquém das necessidades e das potencialidades. 

Gasta-se tempo demais com disputas por cargos e para a satisfação de interesses partidários. Certamente, esses são alguns hábitos que inviabilizam o desabrochar de autênticos líderes. No complexo âmbito de gestão e política, há urgências que exigem ousadia, correções de elementares posturas. De modo mais amplo, torna-se urgente corrigir dinâmicas que atrasam processos, promovem a mediocridade, demolindo patrimônios culturais, históricos e religiosos em razão de vícios e descompassos na relação entre a gestão e a política.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Cidadão, operário da paz

A importância da paz em nossas vidas e, sobretudo, a corresponsabilidade em se conquistá-la e promovê-la é necessidade permanente, pois o comprometimento desse dom vem de deficiências em posturas individuais. Essas condutas geram terríveis focos de tensão: conflitos causados pelas desigualdades entre ricos e pobres, a mentalidade egoísta e individualista do capital financeiro desregrado, terrorismo e criminalidades, fanatismos e fundamentalismos religiosos. Esses e outros males ameaçam, continuamente, a paz. 

Na direção oposta das atitudes que geram colapsos, há uma lista de “obras do bem” que enriquecem o mundo e indicam que a vocação natural de cada pessoa é ser operário da paz. Importa, nesse sentido, investir sempre, em todas as circunstâncias e de diversos modos, no cultivo pessoal da aspiração pela paz, compreender esse anseio como essencial. Assim, todos precisam reconhecer que cada ser humano nutre, na sua interioridade, o desejo de uma vida feliz, plena e bem-sucedida. Não se alcança essa meta sem que cada um, com a própria força, faça de si um coração de paz. Quem não se dedica a esse compromisso torna-se empecilho para a paz. Esse dom de Deus depende do comprometimento e convicção na busca por um humanismo integral, fundamentado no irrestrito respeito  à dignidade de cada pessoa. 

Por isso, é preocupante a desumanização em curso no cenário mundial, impeditivo para a consolidação dos alicerces fundamentais às sociedades solidárias e fraternas. Esse grave processo gera desgastes e perdas que podem se tornar irreversíveis. Na sua raiz, estão pessoas perigosas, que desconhecem qualquer sentido humanístico e, portanto, ignoram o significado do dom de viver. Consequentemente, tornam-se peso sobre os ombros da humanidade e fazem da conquista da paz uma tarefa ainda mais difícil. Percebe-se, assim, que é indispensável a cada pessoa recompor a gramática inscrita em seu coração pelo Divino Criador, com a ajuda indispensável de vivências familiares, dinâmicas educativas e culturais.

Nesse horizonte, é inquestionável a importância de se reconhecer que há um direito natural e, ao mesmo tempo, diretriz, que não se estabelece a partir do que está no lado de fora da interioridade. Trata-se de uma convocação que se inscreve na natureza do ser humano, para realizar fielmente o projeto universal divino. Desconhecer ou tratar com descaso e indiferença essa verdade corrói a possibilidade da conquista da paz, pois compromete a condição humana de ser coração da paz. Não basta a quietude ou se compreender como “inofensivo”. Quando um indivíduo adota princípios individualistas que se transformam em mesquinharia, contribui para enfraquecer a dimensão social e comunitária que é intrínseca ao sentido autêntico de paz.

Assim, é imprescindível o irrestrito e incondicional respeito à dignidade de cada ser humano, que é imagem do Criador.  Trilhar essa direção traz como consequência a superação de toda arbitrariedade. É conduta com força transformadora, que reconfigura os cenários da sociedade. Faz com que as pessoas detentoras de maior poder econômico e político não aproveitem dessa condição para atropelar direitos dos menos favorecidos. Quando se respeita a dignidade de cada pessoa, adotando essa conduta como princípio, realidades degradantes são reconfiguradas com velocidade meteórica. 

Por isso mesmo, as instituições todas têm o dever de se tornar protetoras dos direitos fundamentais. De modo muito especial, é preciso promover o respeito à vida e à liberdade religiosa, sob pena de nunca se poder alcançar a paz. O respeito à vida em todas as suas etapas há de se tornar um compromisso inegociável. A defesa da liberdade na vivência da fé exige diálogo e reciprocidade, a consideração fundamental de que o ser humano está em permanente relação com um princípio transcendente e fundamental para a existência. 

Com convicção, deve-se reconhecer que o direito à vida e à livre expressão da fé em Deus não está nas mãos do homem. São princípios que não podem ser desrespeitados por relativismos éticos e morais. Quando são desconsiderados esses direitos, há séria ameaça à cidadania, ao compromisso de cada pessoa em se empenhar para promover a paz. E os resultados serão sempre nefastos para a humanidade, que vagará, cada vez mais, sem rumo, como gente perdida justamente por não conseguir ser cidadão, operário da paz.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Do lado da justiça

A direção a ser seguida para que a sociedade brasileira saia da crise política e econômica que a consome é estar sempre do lado da justiça. Não há outro rumo possível para os que buscam superar situações tão graves. O lado dos partidos políticos é muito frágil, pois guarda o hábito de se fazer da política instrumento para atender a interesses que, frequentemente, estão na contramão do bem comum. Os números da corrupção, que corroem o erário, causam horror e revelam práticas com raízes vergonhosas no passado. Do mesmo modo, o lado das ideologias, que têm imprescindível importância nos debates sadios, intercâmbios de pontos de vista, torna-se inadequado quando alimenta polarizações.  Sem diálogo, processos necessários para o bem do povo são interrompidos e prejudicam-se as clarividências.

Adequada rota é a indicada pela justiça, pois tem caráter corretivo. É remédio para descompassos que a política partidária não conseguirá corrigir nos hábitos culturais, nas máquinas governamentais e no conjunto de interesses particulares. Seguir a direção da justiça possibilita a reinvenção de funcionamentos, a abertura de novos ciclos que levem ao desenvolvimento integral, à consciência cidadã compatível com a modernidade, no horizonte dos entendimentos antropológicos de uma sociedade pluralista. Parece incontestável, assim, que o lado da justiça precisa ser ocupado por todos, particularmente assumido pelas instâncias superiores que regem os passos da sociedade. Em meio às derrocadas, no âmbito do exercício dos poderes que sustentam a democracia e o Estado de direito, surge um broto de esperança no topo da magistratura, com força para inspirar os guardiões da justiça. E a sociedade carece de referências para fortalecer os valores da verdade e da liberdade, tão ameaçados no contexto atual.

Justiça, verdade e liberdade são princípios indissociáveis, necessários a uma sociedade digna. A reciprocidade entre esses três princípios encontra na referência da justiça o ingrediente terapêutico e corretivo. Possibilita eliminar vícios e mediocridades que se tornam hábitos entre cidadãos, no exercício de suas responsabilidades, com o consequente comprometimento da qualidade das contribuições na edificação da sociedade solidária. A justiça, quando preside desde as condutas cotidianas no contexto familiar aos âmbitos complexos de governos, torna-se vetor que qualifica a vida, estimula a prática pessoal de virtudes alicerçadas em valores morais, tão necessários à verdade e à liberdade. Trata-se de caminho para eliminar conchavos, superar a perda de tempo de se buscar vitórias e conquistas partidárias, deixando em segundo plano os investimentos na gestão, em modernizações, na reinvenção de práticas, tarefas fundamentais para semear o bem na vida de todos.

Estar ao lado da justiça permite enxergar que a autoridade máxima da nação é o povo e que os governantes devem ser servidores. É virtude que orienta todo cidadão a buscar oferecer, a cada pessoa, o que, de fato, é devido, sem favorecimentos ilícitos a grupos privilegiados. Em sentido amplo, ser justo é articular, inteligentemente, as dimensões sociais, políticas e econômicas, para superar os abismos da desigualdade. Relaciona-se, assim, com consideração do inegociável valor de cada pessoa, de sua dignidade e de seus direitos, tão ameaçados pela generalizada tendência de somente buscar a acumulação egoísta de riquezas.

Por isso, há de se priorizar a adequada inclusão dos pobres, para além de programas meramente assistencialistas. A prioridade deve ser a escuta de seus clamores, exercício que fecunda a audácia, a coragem, a inteligência e a compreensão de todos, principalmente dos representantes do povo, capacitando-os para o desenvolvimento de programas e projetos que objetivem o bem comum. A escuta diária e prioritária dos clamores dos pobres é força indispensável que conduz todos para o lado da justiça. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Vida e a sua contramão

 A vida é dom precioso de Deus e altar da dignidade maior - a dignidade humana. Mas, na arte de viver, acumula-se uma avalanche de acontecimentos, processos, descasos e indiferenças que, assombrosamente, estão na contramão desse sublime dom. Entre as lamentáveis situações, estão os cenários degradantes de exclusão social, frutos da mesquinhez, da falta de sentido autêntico de cidadania e dos famigerados esquemas de corrupção. A lista de acontecimentos que ameaçam a vida é enorme e demanda providências urgentes, redobrada atenção e ações mais incidentes. É preciso proteger esse precioso dom de Deus em todas as suas etapas, da fecundação ao declínio com a morte natural. Particularmente, merece redobrada atenção de todos - e políticas públicas incidentes - um grave problema: o suicídio.  Falar sobre o tema é tabu que precisa ser vencido para que cada pessoa possa colaborar com a saúde pública, em compromisso irrestrito com a vida. 

O primeiro passo é ter a coragem para falar sobre o assunto. Isso é fundamental para disseminar estratégias de prevenção. A estatística oficial apresenta a preocupante dimensão do problema. Diariamente, 32 brasileiros morrem vítimas de suicídio, número que supera o de óbitos causados pela AIDS e por vários tipos de câncer. Para despertar a atenção de todos para essa realidade celebra-se no sábado, 10 de setembro, o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. E, durante todo o mês, são intensificadas ações de combate a esse mal silencioso, escondido por preconceito e vergonha que impedem a identificação do problema, a percepção de comportamentos depressivos em pessoas próximas, sintomas que levam ao suicídio. 

Compartilhar o assunto no dia a dia - na família, nos ambientes de trabalho, nos círculos religiosos, no mundo da educação, nos mais diversos lugares - pode contribuir, decisivamente, para salvar vidas, recuperar pessoas e evitar que esse mal silencioso consolide-se como epidemia. O suicídio é grave problema que atinge adultos, jovens, inclusive adolescentes e crianças, deixando feridas incuráveis no coração de famílias. Todos devem aprender sempre mais sobre os sintomas que indicam o risco iminente desse mal para, quando necessário, poder intervir e ajudar a salvar vidas, recuperá-las, reconduzindo pessoas para a saudável convivência familiar e a adequada inserção social. Cada pessoa deve se sentir convocada a contribuir com projetos que promovam o dom da vida. Segundo a Organização Mundial da Saúde, de cada dez casos de suicídio, nove poderiam ser evitados, se houvesse adequada prática de prevenção.

Por isso, é preciso unir esforços. Aliar a coragem espiritual e humana com profunda sensibilidade social para acabar com o tabu que inviabiliza falar sobre o assunto.  Vencer bloqueios nos diálogos em família, com amigos, colegas de trabalho, nas relações que constituem a convivência social e religiosa. Também é preciso lutar pela configuração de políticas públicas que contribuam, de maneira decisiva, para prevenir o suicídio. Há um largo horizonte de medidas e procedimentos a serem adotados para evitar esse grave problema, o que inclui, desde investimentos para se conhecer melhor o cérebro, seus complexos e indomináveis mecanismos de funcionamento, para se realizar as necessárias intervenções farmacológicas, até o remédio indispensável e eficaz da espiritualidade. 

É grave desconsiderar um mal que pode atingir a todos. Não se restringe a uma faixa etária específica, pois inclui crianças, adolescentes, jovens e adultos - muitas vezes afogados num turbilhão de escolhas e solicitações das quais não conseguem dar conta -, até idosos, enjaulados no ostracismo da solidão. Atinge, também, pessoas das mais diversas condições sociais. Essa consideração é comprovada pela estatística e mostra que são necessárias providências urgentes para se promover a boa saúde mental. Isso inclui construir condições sociais que não sejam peso e submetam pessoas a situações de fragilidade extrema, levando-as ao desespero que as faz desistir de viver.  É hora de escuta atenciosa das associações e instituições terapêuticas capazes de qualificar cada pessoa no enfrentamento desse monstro destruidor - o suicídio. Também é urgente e prioritário trabalhar para oferecer a cada pessoa recursos humanísticos e espirituais que contribuam para a administração do dom da vida.

Assim, será possível promover o engajamento em programas e projetos que tenham como missão promover esse dom, criando um vetor que se retroalimenta e produz o sentido de viver. De modo especial, os campos da educação e da cultura têm muito a contribuir nesse processo. A escola não pode dedicar-se exclusivamente à chamada “educação formal” e desconhecer o mundo real, muitas vezes conturbado, da vida juvenil. Essa consideração vale também para Igrejas que, para além de proselitismos, “emocionalismos” e mesquinhos interesses pecuniários, têm o dever de ser autênticos centros de espiritualidade. Ambientes que, a partir de projetos e celebrações, capacitem as pessoas para o viver. Juntos, de mãos dadas, que todos se empenhem na prevenção do suicídio, buscando enfrentar tudo o que está contramão da vida.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Perplexidades cidadãs

A política brasileira tem configurado cenários que deixam os cidadãos perplexos.  Palco de muitas aventuras e disparates, a política, que deveria ser instrumento de construção do bem comum, é vivida de modo inadequado. E as consequências são evidentes: inúmeros prejuízos que pesam sobre os ombros do povo. Candidatar-se é fácil, e talvez nem seja tão difícil obter algum sucesso no processo eleitoral. Exigente é cultivar a competência para garantir o bem do povo, por meio da execução de projetos que busquem o desenvolvimento integral.  Essa fragilidade no perfil de representantes eleitos surpreende ao assistirmos muitos deles exercerem a função de juízes sem a necessária competência e seriedade moral. Faz até lembrar o conhecido episódio dos conterrâneos religiosos de Jesus que trouxeram uma mulher, surpreendida em flagrante adultério, para que fosse condenada. Bastou uma indicação do Mestre - “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”- para que todos eles, um a um, se afastassem da condição de juiz.

Os vícios terríveis no mundo da política, dos conchavos à defesa de privilégios e benesses, que injustamente corroem o erário, emolduram o conjunto das peças que produzem outra perplexidade cidadã: a falta de credibilidade nos discursos dos representantes do povo. A política parece ser o lugar da falácia, em vez de ambiência marcada pela transparência e honestidade. Grande é a perplexidade diante das feridas que vão sendo abertas na democracia, em razão de operações que ferem legalidades. Faz-se o que se quer, por interesses partidários e eleitoreiros, e o pior: verifica-se a perversidade quando se passa por cima de pessoas e histórias, desrespeitando a população. Vale tudo para se alcançar a vitória partidária.  Prevalecem os interesses particulares ou de pequenos grupos. Em segundo plano, fica o compromisso com o desenvolvimento integral. 

Há uma miopia que satisfaz governantes, políticos e construtores da sociedade no leito de suas garantias e deixa o Brasil paralisado, convivendo com a vergonha da miséria e das exclusões, com a carência de infraestrutura e a incompetência para valorizar as riquezas do país. Esse cenário de atrasos alimenta a violência, o ódio e a discriminação rancorosa, vingativa. Agrava feridas abertas que deveriam fazer com que muitos assumissem suas responsabilidades - especialmente os que detêm poder e influência.  Mas para isso, a primeira indicação é cultivar a simplicidade de uma postura séria no exercício da política e em diversas outras circunstâncias. Uma qualidade que define competências para se buscar o bem comum. Com seriedade, é possível eliminar certos hábitos culturais de quem tem gosto por assentar-se em inverdades. Sem seriedade, cedo ou tarde, haverá a ruína de projetos, o comprometimento de serviços e o enfraquecimento da democracia. 

É ilusão achar que há força democrática em muitas situações ocorridas no mundo político. Por isso, com frequência, o povo não identifica credibilidade em seus representantes, inclusive quando os eleitos ocupam-se da tarefa de julgar.  Julgar, pelo bem da verdade e da justiça, é um ato de extrema nobreza. Porém, esse exercício exige seriedade e, sobretudo, moralidade pública. Caso contrário, sobram hipocrisias, hegemonias de grupos, riscos de retrocessos, visões ultrapassadas e comprometedoras do bem maior. O exercício da política só merecerá crédito quando se tornar efetiva a prática que busca solucionar as causas estruturais da pobreza e de outros descompassos vergonhosos.

Política que não resolve os problemas enfrentados pelos mais pobres permanece mergulhada na lama de mazelas que tornam a sociedade e sua democracia muito frágeis. Consequentemente, faz surgir novas crises. É incontestável que a desigualdade é a raiz de todos os males sociais. Por isso, diante de tantas perplexidades advindas da política, espera-se que a promoção da dignidade de cada pessoa seja reconhecida como pilar. E esse caminho começa pela via da seriedade, única forma de eliminar as perplexidades cidadãs. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Atravancos na cultura

Parece unânime a convicção de que os Jogos Olímpicos, recentemente encerrados, deixaram legados importantes para o conjunto da sociedade. Avanços que contam até mais que a infraestrutura conquistada pelo alto investimento, pois esses benefícios são restritos a uma pequena parte da população. Quando se considera a realidade do Brasil, de maneira ampliada, os legados mais importantes se inscrevem nas lições que, de agora em diante, precisam ser aprendidas e praticadas para ancorar o conjunto desta sociedade numa envergadura à altura do que o povo precisa e merece. Das muitas experiências, conquistas e festas celebradas, vem a consciência de imperiosas necessidades: enfrentar as barreiras na cultura que impedem avanços em direções inventivas e audaciosas, eivadas do sentido do bem comum;  derrubar bloqueios que enfraquecem o senso de pertencimento e dificultam a operacionalização de funcionamentos que conduzam, com velocidade maior, a sociedade brasileira rumo ao desenvolvimento integral.

Essas exigências, de avanços e novas conquistas, perpassam as lições deixadas como legados pelos Jogos Olímpicos. Conta muito a responsabilidade que advém da expressiva visibilidade que o Brasil conquistou no cenário mundial. Os bilhões de expectadores e os milhares de visitantes que viram a face espetacular e admirável do nosso país enxergaram também nossas necessidades: novas respostas, caminhos diferentes, nos mais diversos âmbitos. Certamente, esses legados cobram as necessárias correções das muitas anomalias que incidem sobre o tecido cultural, responsáveis pela perpetuação de dinâmicas, modos e escolhas que atrasam progressos, alimentam privilégios, favorecem grupos com poder político e econômico e deseducam o povo, afastando-o de posturas cidadãs.

De modo simples e abrangente, cultura refere-se à maneira particular como o povo constrói suas relações, elege seus parâmetros de vida e conforma sua visão de mundo. É pela cultura que se compreende a própria vida, se configura o conjunto de valores e a consciência político-antropológica que permitem a um povo reconhecer o que é, valorizando o que possui. Assim, a dimensão cultural é determinante para o desenvolvimento da sociedade. No que se refere ao contexto brasileiro, fundamental é reconhecer a experiência histórica de uma nação com dimensões continentais e, ao mesmo tempo, resgatar patrimônios próprios de regionalidades, que integram uma diversidade de riquezas. Trata-se de caminho para os avanços fundamentais. Nesse sentido, os entraves na cultura devem ser seriamente combatidos, reconhecendo que cada pessoa nasce e se desenvolve em determinado contexto cultural já estabelecido, mas pode contribuir para fazê-lo avançar rumo a novos patamares.

Pode-se compor uma enorme lista de hábitos, modos de compreender, de reagir e de pensar a realidade que impedem novos passos na direção de conquistas fundamentais. São impeditivos de todo o tipo, a exemplo da resistência às mudanças. “Por que mudar? Sempre foi assim!” Eis uma observação muito comum de se escutar, que frequentemente revela resistência a novos projetos e a audaciosas propostas, por querer se manter na “zona de conforto”, muito comumente arquitetada pela mediocridade. Preocupante também é a baixa estima de um povo ou de uma região que se autodesprestigia, com jargões que desvalorizam microrregiões. Uma postura  prejudicial à constituição de um conjunto harmonioso e rico, formado justamente pela diversidade. Terríveis são as práticas na política que reduzem o exercício da representatividade - na governança ou na legislatura - aos projetos partidários e grupais, em detrimento do interesse por conquistas maiores, que verdadeiramente objetivam o bem do povo.

Atravanco na cultura é a vesguice de, fincado os pés na própria terra, só enxergar o que está distante e apenas valorizar outras realidades culturais. Trata-se de problema crônico a incapacidade para reconhecer o próprio patrimônio, seu potencial, e tratá-lo com a inventividade que permita conduzi-lo a patamares de importância e de atenção reconhecidos por todos, dos mais diversos lugares do mundo.  Não menos grave é a preguiça, o comodismo e o incompreensível gosto pela mediocridade, características que levam à pouca valorização do próprio patrimônio histórico, cultural e religioso.

Terrível é o transtorno de visão que parece reconhecer como bom apenas o que está “do lado de fora” do próprio território, comprometendo a criatividade audaciosa para cultivar a riqueza do patrimônio legado pela história e pelas singularidades da própria natureza. Destrutiva é a cultura da inveja e da disputa, que cria o costume de não ter gosto por valorizar o que é do vizinho - passageiro do mesmo barco -, criando segregações. Consequentemente, perde-se a força própria da articulação, do corporativo. Reconhecer esses males e superá-los exige o combate a tudo o que constitui atravancos na cultura.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Convite para a Missa dia 16 de setembro:


Legados das Olimpíadas

Mergulhada ainda em graves crises, a sociedade brasileira precisa refletir a respeito dos legados das Olimpíadas. Há uma avaliação de que foram alcançados alguns avanços em infraestrutura. Porém, os ganhos poderiam ser maiores se a medalha de ouro sonhada pelos governantes fosse o bem do povo. Os legados na cidade-sede são, de certa forma, incontestáveis, embora tenha se propalado, aos quatro ventos, que havia uma “quebradeira” na administração pública, por falta de recursos. Isso, na verdade, induziu o Governo Federal a investir mais na realização das Olimpíadas, priorizando evento de tamanha importância social e política para o Brasil. Essa jogada de ouro faz pensar: demandas urgentes e óbvias, em diferentes regiões do país, relacionadas às estradas, habitação, mobilidade, saúde e educação merecem tratamento semelhante, com rápidas respostas.

A população brasileira tem o direito de exigir que o espírito olímpico tome conta da cabeça e do coração dos governantes e dos construtores da sociedade. A meta deve ser a medalha de ouro que consiste na priorização daquilo que, efetivamente, promove o desenvolvimento de todas as regiões do Brasil, sem discriminações. Virar as costas para quem precisa mais, na ilusão de que o país alçará voos maiores com número reduzido de localidades estratégicas - que teriam prioridade na destinação de recursos - é grave erro. As regionalidades do Brasil, com suas dimensões continentais, riqueza impactante, merecem tratamentos específicos e investimentos adequados.

Por isso mesmo, é necessário que administrações e intervenções governamentais sejam aliadas a ações mais competentes dos políticos de cada região e microrregião. Esses representantes do povo devem cultivar um espírito olímpico que os faça lutar pelo bem de seus eleitores, evitando conchavos que objetivem resguardar privilégios de pequenos grupos ou garantir a longeva ocupação de cargos por quem não está capacitado para liderar. São pessoas incapacitadas justamente por terem perdido a credibilidade e por estarem distantes da vida do povo, sem conseguir proporcionar melhorias para o seu Estado e microrregião. Gente que se contenta em viver na mediocridade, sem força para promover mudanças culturais maiores, ou para valorizar riquezas que estão tão evidentemente à vista, a exemplo dos patrimônios religioso e ambiental.

O pódio que consiste no desenvolvimento integral não pode ser alcançado quando se caminha a passos lentos, no estreitamento e na pequenez, sem fazer da luta do povo a própria luta. Assim, oportunidades são perdidas. E o pior: nesse cenário a cultura perde força e se torna incapaz de impulsionar a sociedade rumo a novas direções, a partir da reconfiguração de hábitos, da compreensão e tratamento adequado dos bens ligados à própria história, ao patrimônio ambiental-paisagístico-religioso. Permanece uma dinâmica que inviabiliza avanços nos índices de qualidade social e educativa. Para reverter esse quadro, é oportuno alimentar o espírito com as propriedades do que é olímpico e, consequentemente, buscar desempenhos melhores, resultados mais adequados, com a meta de conduzir ao pódio a própria região.

Os legados das Olimpíadas a uma cidade são consideráveis. Inclusive no que se refere à projeção internacional. Porém, o sonho fantástico da abertura dos Jogos Olímpicos, a beleza da harmonia que se verifica nas diferentes modalidades, a quebra de mitos e preconceitos, relacionados a doenças e a violências, apontam que as heranças mais significativas das Olimpíadas para o Brasil são as lições inspiradas no espírito olímpico. Elas indicam a importância da disciplina e da coragem para suportar a exigente tarefa de configurar um tecido cultural mais consistente na sociedade brasileira.

Emoldurando o horizonte dessas lições a serem aprendidas e praticadas, aparecem as exemplaridades de Martine, Kahena, Thiago, Robson e Rafaela, de tantos outros atletas que superaram dificuldades para representar o Brasil. Há de se imaginar a revolução que pode ocorrer se políticos, magistrados, formadores de opinião, religiosos, construtores da sociedade, educadores, todos, se nutrirem com o espírito olímpico e, desse modo, vencerem a estreiteza perversa e buscarem a medalha de ouro do bem comum, do povo e sua cultura valorizados e da igualdade solidária. Se cada pessoa agir com espírito olímpico, a sociedade brasileira poderá contabilizar, mais amplamente, os legados das Olimpíadas.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Respostas olímpicas

A beleza da abertura dos jogos olímpicos Rio 2016 elevou, e muito, a autoestima da sociedade brasileira. A releitura histórica e cultural apresentada no desenrolar da solenidade comprova a existência das sólidas bases que o povo tem para enfrentar, com envergadura, suas labutas diárias e edificar uma realidade nos alicerces da justiça, da solidariedade e da paz. Enxergar e reconhecer as riquezas que definem o Brasil é oportunidade para dar passos decisivos rumo a uma sociedade organizada - na perspectiva social, política e cultural -, buscando parâmetros do desenvolvimento integral e na contramão de retrocessos civilizatórios. Nesse sentido, a abertura dos jogos olímpicos não pode ser esquecida - há sempre esse risco, em razão da chamada “memória curta” que ataca cabeças e centros decisórios – pois é mais que simples fantasia. Trata-se de documento que compromete cada cidadão a apresentar “respostas olímpicas”.

Essas respostas, para serem alcançadas, exigem muita disciplina e empenhos, concentração e espírito de equipe. Necessitam de um sentido patriótico que ultrapasse a mediocridade do interesse limitado pela busca do dinheiro. Ser “olímpico” está muito além de se almejar conquistas apenas pela vaidade ou de se almejar, mesquinhamente, vitórias desconectadas do bem que é de todo o povo. Construir “respostas olímpicas” é espelhar-se nos atletas que, diante das metas, reconhecem a tarefa exigente da disciplina, esforço e muito trabalho. Uma construção norteada especialmente pelo sentido de lealdade e o compromisso de se representar uma nação. Assim, visualiza-se na medalha em disputa o sentido do bem maior, a estima e a alegria, capazes de impulsionar a vida de um povo, a “tocha da honestidade” que deve sempre estar acesa.

A sociedade precisa, urgentemente, de “respostas olímpicas” para sair de marasmos e “enrolações” gerados, justamente, pela falta de sentido olímpico que possa nortear desempenhos, funções e missões. Essa deficiência impede o desenvolvimento almejado. Por isso, os ares olímpicos precisam tocar os rostos de líderes, construtores da sociedade pluralista, dos representantes do povo, formadores de opinião, educadores e de tantos outros segmentos. Assim será possível renovar o tecido cultural, tornando-o substrato para superar atrasos sociais vergonhosos na sociedade brasileira. Isso se torna claro quando se avalia os desdobramentos no mundo da política, que tem no horizonte as eleições municipais. Inconsistências e a falta de envergadura nas candidaturas, além da carência de nomes com credibilidade e competência apontam para a grande distância que existe entre o ponto de partida - a necessidade de mudanças - e a meta a ser alcançada.

Constata-se também a falta de força de líderes regionais para impulsionar o desenvolvimento de infraestruturas, o sentido e o apreço pela própria cultura. É lamentável a tibieza das autoridades políticas que não conseguem defender os interesses dos seus representados e assim alavancar, para além de interesses partidários, o crescimento, a articulação das microrregiões, a partir da vocação de territórios e de suas riquezas histórias, culturais e patrimoniais. Ainda mais séria é a falta de sentido de cidadania que corrói o marco civilizatório, o respeito, os bens e as exigências que preservam a inteireza da dignidade humana.

No horizonte dos sonhos desenhados durante a abertura das Olimpíadas, sejam tocados os brios dos cidadãos brasileiros para se começar a desenhar novos cenários regionais, tendo como meta a busca por soluções audaciosas e o comprometimento de todos. Essas são as “respostas olímpicas”, capazes de promover avanços na cultura e na civilização.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Acolher interpelações

Em diferentes passagens do Evangelho, Jesus chama a atenção para uma incompetência das cidades: não escutar advertências e interpelações. O Mestre compara as cidades de Cafarnaum, Betsaida, Corazim e aquelas pagãs, como Nínive, Sodoma e Gomorra. Destaca que as cidades pagãs, surpreendentemente, acolheram melhor suas interpelações. Desconsiderar essas indicações pode inviabilizar as mudanças necessárias, permanecendo, assim, o caminhar rumo ao caos e os descompassos que pesam sobre a vida. Também faz crescer a dureza de coração e imperar grande insensibilidade, acirrando os embates entre pessoas, grupos e instituições. Os prejuízos se multiplicam, os retrocessos tornam-se evidentes. Tudo em consequência da surdez ante às interpelações.

Na mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano, o Papa Francisco fez uma advertência sobre algo que, de modo sorrateiro, destrói a paz: a globalização da indiferença, fenômeno que atinge o ápice no atual momento da história. Tornam-se cada vez mais comuns os corações fechados, desinteressados pelos outros, que se cegam propositadamente para não ver o que acontece ao redor, esquivando-se de serem afetados pelos problemas alheios, particularmente dos mais pobres. Ora, só se alcançará a paz quando cada pessoa acatar a interpelação de ser “o coração da paz”. Somente assim, todos serão capazes de compreender e priorizar a tarefa de se respeitar incondicionalmente a dignidade de cada pessoa, fundamentando as bases para um autêntico humanismo integral.

Esse investimento - o de ser “coração da paz” – não tem custos e resulta em ganhos determinantes para alicerçar o indispensável sentido social que deve alimentar o comprometimento solidário. Uma proximidade fundamental para configurar os tecidos social e cultural, buscando o equilíbrio e a paz. Aceitar essa interpelação significa admitir que é preciso revisar a gramática que rege os funcionamentos do próprio coração e dela retirar ódios, rancores, preconceitos – os dispositivos de discriminação fundamentados na hegemonia de sentimentalismos e emoções que estão descasados da racionalidade, propiciando injustiças com pessoas e grupos.

Entre tantas regras de ouro, a interpelação firmada no Evangelho – “não te deixes vencer pelo mal, antes vence o mal com o bem” - é fundamental ser acolhida e praticada como exercício que modula o coração na contramão das cardiopatias graves que provocam prejuízos irreversíveis no tecido humanístico. Essa passagem aponta, portanto, que o bem promove e garante a paz duradoura. E para efetivamente acolhê-la deve-se investir na lei moral que conduz a competência humana. Assim, é possível reverter cenários e quadros que degradam o mundo. O combate à anarquia, a busca pela superação da desordem social, o “não contundente” à guerra, o fim das injustiças e da violência dependem do cultivo dos valores morais.

Nesse sentido, a lei moral que deve reger a consciência de cada indivíduo faz crescer a convicção de que é preciso combater a pobreza para que se impere o dom da paz. Isso porque, apesar dos avanços tecnológicos e dos muitos progressos, frutos da inteligência humana, cresce a irracional disparidade entre ricos e pobres, até mesmo nas nações mais desenvolvidas. Essa situação precisa incomodar a consciência de cada cidadão, que deve refletir sobre o que possui, o que usa e acumula, colocando-se no lugar de quem está na miséria.

Muitas, incontáveis, as interpelações para se alcançar um mundo mais justo e de paz devem ser acolhidas no cotidiano, nas práticas religiosas e espirituais, a partir do zelo e do apreço pela honestidade, cultivando um sentido humanístico e social autêntico que muda a vida das pessoas e, consequentemente, os rumos das sociedades. “Quem tem ouvidos, ouça”!

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Vida familiar, uma escola

Há uma perigosa, progressiva e ameaçadora perda do sentido da vida como dom precioso. São muitos os cenários que comprovam a maneira relativista com que se vem tratando a vida: o resultado é a crescente perda de seu valor sagrado. Assim, torna-se urgente compreender e investir sempre mais em processos educativos que permitam o enfrentamento dessa realidade problemática e ameaçadora. Isso porque a dinâmica da delinquência, incentivada pela impunidade, entra sorrateiramente no tecido da cultura urbana, moldando o comportamento de pessoas e grupos.

Nesse cenário, gravíssimo é constatar o quanto está corroído o núcleo da consciência individual pelas escolhas subjetivistas, voluntaristas, norteadas por conveniências que relevam até mesmo preconceitos e ódios. Desse modo, esses adiantados processos de delinquência surgem na contramão de tudo o que se pode presumir. Há um pisca alerta em último grau indicando a urgência de programas educativos mais efetivos para enfrentar esse caos. Os altos preços já pagos e os prejuízos evidentes alertam para o agravamento dos mais diversos tipos de violência, desde o terrorismo de estado até aquelas que se escondem no silêncio dos lares, a exemplo das abomináveis agressões às mulheres.

Não bastam, porém, apenas intervenções pontuais nessas situações todas. É preciso completa reorganização nos funcionamentos da sociedade, considerando, sobretudo, o apreço sagrado pelo dom da vida. Inclui-se aí o enorme desafio de articular a complexidade e a diversidade das linguagens e das simbologias em meio às velozes transformações socioeconômicas, religiosas, políticas, culturais e ambientais. Também não bastam as intervenções estruturais na organização externa das realidades urbanas. É preciso investir em contextos com impactos estruturantes. No cenário amplo dos investimentos educativos, os governos, as igrejas, as academias e os demais segmentos devem priorizar a família, sempre mais.

Mesmo considerando-se superada a fase vivida recentemente, de relativização da família e até mesmo da preconização do seu fim, ainda são necessários ajustes na compreensão do que ela realmente representa. É essencial ter-se a clareza da importância de se constituir o núcleo familiar para ser qualificado no contexto educativo e, assim, ser capaz de questionar as realidades. Antes e acima do ensino formal, está a família. Escola indispensável, nela se configuram os elementos estruturantes do caráter, da socialização, do exercício da liberdade, da cidadania e da capacidade de amar. Tudo isso mantém acesa a chama do respeito à sacralidade da vida, força capaz de reconfigurar os cenários que a ameaçam.

É na família que nasce o novo caminho no enfrentamento daquilo que esgarça o tecido da cultura urbana, ao formar cidadãos capazes de oferecer a força do testemunho imprescindível a toda transformação, fundamentado na justiça, na verdade e na paz. Essa competência para intervir positivamente na realidade estrutura-se primeiramente a partir das relações familiares. Com a preponderância das figuras parentais é que se dá o aprendizado da indispensável dinâmica da reciprocidade, do sentido do outro, de sua dignidade e, sobretudo, do gosto por amparar e promover a vida.

A primeira e mais importante escola da vida não pode, contudo, caminhar sozinha. Esses desafios todos exigem políticas públicas adequadas, espiritualidade qualificada, sentido social e político da cidadania, que resultem em práticas capazes de fecundar o respeito incondicional à vida.

Âmbito da socialização primária, a família oferece os meios insubstituíveis de produção de um tecido urbano mais civilizatório, constituindo-se em lugar privilegiado para se repensar hábitos, relacionar-se com os outros, respeitar, ouvir e dialogar. Se não se aprende as boas maneiras de convivência em casa, comprometido estará o modo de se habitar em meio à comunidade, empurrando, mais aceleradamente, a sociedade para o caos.

A abordagem desta questão, emoldurada pela complexidade da cultura urbana contemporânea e pela realidade desafiadora própria da família, convida a refletir, debater e investir em novos cenários para fazer da vida familiar uma verdadeira escola. Todos somos sempre aprendizes.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Pilares para a cultura

O Conjunto Arquitetônico Modernista da Pampulha, agora Patrimônio da Humanidade, é mais do que justa homenagem aos belo-horizontinos e à ousadia de Juscelino Kubitschek. Além da alegria experimentada por cada um de nós – com o anúncio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) -, a merecida distinção inscreve no horizonte de Minas Gerais, particularmente da capital mineira, um importante desafio: reverter essa nova realidade configurada em benefício de toda a cidade e da perenidade de cada uma das obras desse complexo de alta significação arquitetônica, cultural e turística, importante capítulo na história da arquitetura mundial. Tarefa que desafia especialmente os governantes, operadores e gestores de turismo e todo povo mineiro.

O conjunto arquitetônico que colocou Belo Horizonte à frente de seu tempo, com sua inauguração em 1943, ainda é símbolo da lucidez e ousadia de Juscelino Kubitschek e do talentoso Niemeyer - à época, no início de sua carreira, hoje, reconhecido mundialmente. A medida dessa lucidez e ousadia pode ser avaliada a partir da seguinte imagem: a Pampulha sem o complexo arquitetônico ao seu redor.

Isso significa que, em seu tempo, cada governante é desafiado a interpretar e a tratar com clarividência e audácia a realidade na qual se insere como servidor. Não só quanto ao legado recebido. Por exemplo, no caso da Lagoa da Pampulha, não basta somente cuidar de sua urgente e inteligente despoluição, é preciso ver adiante. É preciso oferecer no seu tempo uma contribuição que assente mais pilares para a cultura. Neste horizonte, conservar e tratar adequadamente o patrimônio que se tem e intuir os novos e exigidos desafios, tecendo uma história que possa assegurar sustentabilidade à vida social, política, cultural e econômica.

Os pilares da cultura, em arquitetura, infraestrutura e investimentos não são obras mortas. São forças incidentes na circulação do sangue que move a vida de uma sociedade, gerando economia produtiva e inclusiva, por meio do turismo, uma força de referência que ultrapassa as fronteiras de Minas e do Brasil. É também o fortalecimento da consciência de “pertença” de um povo. Sem essa consciência, corre-se o risco de ver as riquezas, naturais, culturais, religiosas, artísticas e populares se dispersarem. Isso se verifica em realidades articuladas por culturas diferentes, numa riqueza tão plural que pode levar a sociedade a se entender repartida, enfraquecendo a sua identidade. A sociedade, assim, se sente impotente para multiplicar as próprias riquezas, torna-se incapaz de produzir cenários de mais justiça e o mais grave: de ser protagonista de sua história. Repete-se, então, o estribilho de que o melhor é o que vem de fora. De que só os outros são capazes de grandes conquistas. Alimenta-se a lógica do desmanche da própria identidade, perdendo riquezas produzidas e legadas.

A alegria do reconhecimento conquistado pelo Complexo Arquitetônico da Pampulha deve se transmutar em ardor guerreiro por novos passos em Minas Gerais. É indispensável o entendimento inteligente de fazer crescer o potencial turístico do Estado, valorizando singularidades. Dentre elas, vale destacar o inexplorado potencial do turismo religioso, tesouro da nossa realidade histórico-cultural. Um exemplo é o Caminho Religioso da Estrada Real (CRER) que liga o Santuário de Nossa Senhora da Piedade, Padroeira de Minas Gerais, ao Santuário Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Trajeto tão rico, pela beleza do conjunto paisagístico e arquitetônico, particularmente sacro, como o Caminho de Santiago de Compostela na Espanha. Esse é um dos projetos com potencial turístico ainda adormecido, esperando ações mais efetivas e entendimentos governamentais e empresariais para tratamento competente para que, de fato, beneficie os mineiros.

Não menos importante é o desafio de colocar no coração de cada mineiro a Padroeira de Minas Gerais – Nossa Senhora da Piedade. E que cada mineiro se sinta especial guardião da Serra da Piedade, que em breve aspiramos ser reconhecida como patrimônio da humanidade pela sua relevância ambiental, paisagística, histórica e religiosa. Um patrimônio que merece mais empenho dos representantes do povo, a começar pela duplicação da Rodovia BR-381, lamentavelmente conhecida por “rodovia da morte”.

Patrimônio que traz a fé e a religiosidade enraizada na cultura e na vida do povo mineiro. Um exemplo é a Igreja de São Francisco de Assis, símbolo e coração do Complexo Arquitetônico da Pampulha, a primeira projetada por Niemeyer. Bem perto está a Catedral Cristo Rei, a última projetada por esse grande arquiteto. Aí está a indicação do nascimento do Circuito Niemeyer, unindo a Pampulha, a Catedral Cristo Rei e a Cidade Administrativa, pela Avenida Pedro I, passando pelo final da Av. Cristiano Machado e seguindo pela MG-10. Trecho de quatro quilômetros que merece ser reconhecido como uma grande avenida com o nome de São João Paulo II. É hora de novas audácias e novos passos pelo bem de Minas e dos mineiros.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Convite para a Missa dia 16 de agosto:


Viagem a Lavras dia 20 de agosto:


Credibilidade X privilégios

A contaminação do tecido da cultura pelo vício dos privilégios é preocupante. A busca pela acumulação de vantagens de todo o tipo é uma síndrome que se generaliza. Talvez se busque mais regalias do que o honroso pódio conquistado por ações competentes, em benefício da coletividade. E esse gosto pelos privilégios contraria o princípio do altruísmo. Por isso, torna-se oportuno questionar: não será esse um fator determinante na mediocridade que afeta e corrói a credibilidade da classe política? Trata-se, certamente, de problema que incide sobre a vida e a produtividade das pessoas, em qualquer segmento da sociedade. Consequentemente, há um obscurecimento do respeito aos direitos intocáveis dos cidadãos todos, pois o que se defende e o que se busca são os privilégios.

Nessa direção, muito do que se faz ou se promove, inclusive com a articulação de diferentes segmentos, têm como horizonte o aumento de regalias, erroneamente compreendido como “conquista de direitos”. Ao priorizar a patológica busca por vantagens, a organização sociopolítica fica sempre emoldurada por disputas insanas. Inclusive porque se gera uma insaciabilidade - privilégios fazem crescer, principalmente, o gosto por mais privilégios. É como uma droga que causa dependência, corroendo o tecido da cultura. Tudo tende a funcionar a partir do objetivo de se conquistar mais benesses. Oportuno é pensar, por exemplo, o que ocorre nas casas de representação do povo - Câmaras, Assembleias e Congresso Nacional. Na contramão do dever de representar toda a coletividade, esses ambientes muitas vezes funcionam a serviço de pequenos segmentos privilegiados. A complexidade e artimanha desses funcionamentos têm força até para cooptar igrejas, pela representação de bancadas. A luta desarvorada por privilégios causa confusão e instala um caos nas relações sociais, alimenta revoltas e mesquinhez, insufla a violência.

A representação legítima é a que se fundamenta na defesa da cidadania e do bem comum. E nobres são as ações que buscam garantir o incondicional respeito à dignidade de todos. Distanciar-se dessa meta conduz instituições e segmentos ao fracasso. Gera, na sociedade, situações críticas de pobreza e de dificuldades que parecem insuperáveis. Entre as nefastas consequências estão a morosidade e a perda de capacidade para agir. Os indivíduos não aproveitam de todo o seu potencial e, por isso, não conseguem fazer o mínimo esperado. Essa postura é contramão da alegria altruísta de poder oferecer mais para o bem comum. Ameaça o sentido de “pertença”- importante para que cada pessoa se comprometa a ajudar no desenvolvimento da sociedade. Lamentavelmente, muitos indivíduos, olhando apenas interesses pessoais, antes de assumir uma tarefa, se fazem uma pergunta rasteira: “O que se ganha com isso?” Trata-se de questionamento que expõe as anomalias produzidas pela cultura dos privilégios – alimento para a mesquinhez que compromete o núcleo da honra.

Esse núcleo se constitui e se fortalece pela hombridade e gosto de ser - em tudo o que faz e fala - digno de credibilidade. Trocar privilégios por credibilidade é vetor com força para conduzir a sociedade rumo a outras direções, tornando-a mais igualitária, com dinâmicas orientadas pelos parâmetros da justiça e da solidariedade. A partir dessa troca, podem ser superadas as vergonhosas e gritantes desigualdades sociais entre grupos, classes e pessoas. Em vez de regalias, deve-se buscar o necessário e a garantia do respeito à dignidade de toda pessoa. Isso se faz cultivando o gosto pelas dinâmicas que geram oportunidades iguais para todos.

A opção por investir na conquista e manutenção de vantagens é, certamente, um resquício de colonialismos. Para romper com essas dinâmicas de privilégios é necessário repensar funcionamentos, cortar gastos. Esse caminho exige que os próprios privilegiados repensem suas comodidades pessoais. Trata-se de verdadeira conversão, com profunda mudança de hábitos, que abre caminho para uma civilização diferente. É preciso pensar no caráter irreversível das desumanizações que são produzidas pelas dinâmicas das regalias. Torna-se fundamental erguer a bandeira da credibilidade nos muitos ambientes. Isso significa cultivar o gosto de agir com honestidade e de trabalhar em favor do bem comum. A reversão dos males produzidos pela cultura dos privilégios, que se desdobra em outros prejuízos - uma lista interminável -, requer formação moral e cidadã de cada pessoa, cultivando, no lugar da ânsia por privilégios, o objetivo de ser merecedor de credibilidade em tudo o que faz e fala.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Ano eleitoral desafia

Situações muito complexas no ambiente sociopolítico emolduram este ano de eleições - com riscos de fracassos que poderão afetar ainda mais seriamente as dinâmicas da sociedade. O quadro de candidaturas não é promissor quando se toma conhecimento dos cenários que estão se configurando nos municípios todos, dos maiores aos menores. Quando não se investe em líderes lúcidos, capazes de priorizar o bem comum e de agir com a velocidade indispensável para solucionar graves problemas, paga-se alto preço. Por isso, é fundamental que todos os cidadãos se comprometam com o processo eleitoral, interessando-se pelo assunto, superando o consequente desânimo que se abate sobre o conjunto da sociedade, em razão das derrocadas e desarticulações ocorridas, especialmente, nestes últimos anos. “Virar as costas” para o processo eleitoral é um risco, pois favorece os “aventureiros”, as escolhas inadequadas. Desconsiderar a importância das eleições significa menosprezar a força que só o povo tem, de exigir dos políticos novas posturas.

A direção correta é a participação clarividente em discussões e reflexões sobre política. A dedicação a esse tema pode promover uma participação popular mais adequada, com a adoção de critérios que favoreçam as eleições destituídas de emocionalismos e, sobretudo, dos interesses partidários e cartoriais que têm marcado o modo de fazer política no Brasil. Nesse sentido, corrigir as dinâmicas que definem o universo da política é um modo eficaz de debelar a corrupção, freando interesses pequenos e grupais que prejudicam o bem comum, o equilíbrio social e econômico. Por isso mesmo, as igrejas, as escolas, a mídia, os segmentos culturais e artísticos, associações e grupos organizados da sociedade civil, de todo tipo, têm o dever de se mobilizar para que o ano eleitoral não seja marcado pela apatia dos cidadãos.

Vale lembrar o que ensina o Papa Francisco: para o cristão é uma obrigação envolver-se na política, não se pode lavar as mãos como Pilatos. O Santo Padre afirma que “devemos nos envolver na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade, porque busca o bem comum. E os leigos cristãos devem trabalhar na política”. Francisco ainda apresenta a seguinte argumentação: “Você, então, me dirá: ‘mas, não é fácil porque a política está suja’. E, então, eu pergunto: a política está suja por quê? Não será porque os cristãos se envolveram na política sem o espírito do Evangelho? Faço-lhe outra pergunta: é fácil dizer que a culpa é de outro, mas o que eu estou fazendo? É um dever trabalhar para o bem comum, é um dever do cristão”.

Sem o envolvimento cidadão de todos não será possível alcançar as metas de um país democrático, economicamente justo, socialmente igualitário, sem corrupção, sem violências, discriminação e com oportunidades iguais para todos. Por isso, não se pode abdicar da participação na política. É preciso ir aonde está sujo para limpar. E a etapa que precede as eleições, as campanhas eleitorais, é de grande importância para que o voto seja escolha adequada. Para votar bem é imprescindível conhecer os programas dos partidos, os candidatos e suas propostas de trabalho. Oportuno lembrar também que o dever cidadão não se esgota nas eleições, mas abrange outra fundamental fase: o acompanhamento dos mandatos, tecendo culturas e práticas que possam comprometer os governantes a estarem sempre a serviço do povo, do bem comum.

Muitas são as iniciativas que agora precisam entrar em cena para a mobilização participativa de toda a sociedade, com a promoção de debates, sabatinas, apresentação e assinatura de cartas-compromisso, relacionadas a causas relevantes para a comunidade. Ações que abrangem, até mesmo, a elaboração de projetos de lei fundamentados no bem comum, solicitando o comprometimento de candidatos para que, de fato, essas iniciativas sejam incorporadas ao sistema legal. A democracia precisa ser fortalecida e as eleições municipais são uma “oportunidade de ouro”. Para aproveitá-la, é preciso sair da apatia, promover a participação, conhecer a vida dos candidatos, avaliar se “dão conta do recado”, se têm competência humanística. Trata-se de um desafio, mas, ao mesmo tempo, de grande chance para reverter o quadro calamitoso da política brasileira, investindo em mudanças que já são tardias.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Exigências nas crises

A adoção de novas práticas é exigência que desafia permanentemente todos na superação das crises enfrentadas pela sociedade. Na contramão desse caminho, o que se verifica é um arriscado afrouxamento, incompatível com as demandas de outras dinâmicas culturais. Basta um pequeno sinal de alguma melhora - mesmo ilusória - para se dirigir ao território da zona de conforto. Um lugar que abriga as justificativas e a inércia, adiando as ações mais efetivas rumo às mudanças. É comum a tendência de se pensar ter feito o necessário, embora, muitas vezes, as soluções alcançadas sejam apenas paliativas: não representam audaciosa intervenção nos funcionamentos, gastos, prioridades. A esperada e urgida superação da crise não pode ceder espaço para as comodidades conquistadas, muito menos para benefícios particulares adquiridos no interno de instituições e segmentos da sociedade.

Certamente, crises não são superadas sem os sacrifícios necessários para o benefício de todos. Assim, espera-se, de quem tem mais recursos, o gesto altruísta de abrir mão de algumas benesses. Porque o que se percebe é a indisposição para sacrifícios. A antífona para analisar e emitir juízos de valor a respeito dos muitos problemas não cessa. Porém, na prática, promovem-se reduções, cortes e novas configurações no modo de produzir e trabalhar buscando apenas aumentar a própria produção para acumular mais vantagens e riquezas. Não se vê, na frequência esperada, atitudes de oferta e de partilha dos que ganham bem. As dificuldades dos que precisam de ajuda pouco afetam as consciências e as atitudes de quem pode mais. Assim, diante das crises, age-se apenas a partir da expectativa de que a situação melhore para si, desconsiderando o outro.

Uma nova cultura é a grande exigência para superar os muitos problemas sociais. Isso significa que, além das indispensáveis mudanças nos funcionamentos institucionais, é preciso rever prioridades, renovar condutas pessoais. Na prática, essas transformações devem corrigir descompassos que incluem o desperdício - de energia, alimentos e de outros recursos - e não se medir, em importância e reconhecimento, apenas pelo tamanho da própria remuneração - postura que alimenta seguranças ilusórias e tem como parâmetro a idolatria do dinheiro.

Por tudo isso, fica evidente que a superação das crises não pode reduzir-se às intervenções sobre os rumos da economia, conforme os ditames, orientações e opções das instâncias financeiras e de controles. Não conseguir abandonar hábitos e funcionamentos pautados pela idolatria ao dinheiro - que se desdobra na quase patológica necessidade de aumentar benefícios - é contribuir para acelerar processos de desumanização. É querer superar as crises sem sair da própria zona de conforto. A exigência é a partilha e a adoção de outras lógicas, baseadas na generosidade. Porém, o que se percebe é a postura de “fechar as mãos”, por medo de perder o que se tem.

Essa e outras fragilidades no tecido da cultura põem a expectativa da superação das crises, particularmente a econômica, restrita à melhora de índices relacionados à circulação de bens de consumo. Trata-se de estreiteza que inviabiliza uma reforma financeira adequada e terapêutica, pois deixa de lado novos parâmetros éticos que poderiam promover mudanças de atitudes. Com esses parâmetros, seria mais comum ver ricos ajudando pobres. O Papa Francisco, na sua exortação sobre a alegria do Evangelho, sublinha a importância do aprendizado de uma solidariedade desinteressada e a conversão da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano. Eis o caminho para superar muitas crises da sociedade. Um percurso longo e doloroso, por exigir mudanças profundas na cultura. Transformações capazes de derrubar a defesa que encouraça o cidadão na indisposição de inserir-se em um projeto comum, que vá além de benefícios e de desejos pessoais.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Convicção X conveniência

As dinâmicas da vida em sociedade carecem de imprescindível convicção: o bem do outro, particularmente dos mais pobres, deve estar acima de qualquer outro bem ou razão. Por isso, torna-se importante refletir sobre a responsabilidade social, que precisa orientar funcionamentos empresariais e presidir a consciência individual. O senso de responsabilidade social é indispensável para conduzir a sociedade desigual e empobrecida na direção da justiça e da prática cidadã de se buscar o bem comum. Isso é incontestável e há de ser uma convicção que inspire o comprometimento com a solidariedade. Porém, lamentavelmente, há sempre o sério risco de se dedicar ao tema da responsabilidade social apenas de maneira teórica. Nesse sentido, são construídas reflexões até bem arquitetadas, ancoradas em citações. Mas ficam apenas no campo das teses, não se efetivam em ações. Então, a abordagem sobre a responsabilidade social se torna mera conveniência, estratégia para conquistar a simpatia da sociedade ou do poder público. Também, torna-se mero caminho para reunir apoios a projetos sociais que são verdadeiras migalhas, quando comparados ao lucro que seus autores acumulam em seus negócios.

Quando o discurso social conquista a simpatia de eleitores, mas não se desdobra em ações dos eleitos, reduz-se a mera conveniência. Da mesma forma, quando instituições - particularmente governamentais e empresariais - adotam slogans em que manifestam o “compromisso social”, mas disponibilizam pouco para reverter quadros de pobreza e exclusão, apenas instrumentalizam o discurso da responsabilidade social para conquistar simpatia. A apropriação desse discurso por mera conveniência pode, até mesmo, ocorrer por parte de organizações religiosas, que correm o risco de pregar certos valores relacionados à solidariedade, mas pouco fazem para mudar a realidade dos mais pobres. Responsabilidade social é, permanentemente, uma lição a aprender, prática que precisa ser exercida, compromisso para ser assumido. Quando os indivíduos, os funcionamentos empresariais e governamentais não a traduzem em práticas, torna-se apenas um discurso conveniente. O Papa Francisco sublinha, na Exortação sobre a alegria do Evangelho, que "a solidariedade é uma reação espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada".

Nesse sentido, tranquilizar a própria consciência enquanto se acumula bens sem servir, decisivamente, ao bem comum, é um equívoco. O bem de todos é, obviamente, mais importante que um simples usufruto familiar, partidário, institucional, empresarial. Sobre toda produção - lucro e aumento de posses - pesa uma hipoteca: o que deve ser devolvido aos pobres. Cada pessoa tem, no dízimo ofertado em suas comunidades de fé, a oportunidade para participar de projetos e campanhas que beneficiam a sociedade. E o mundo empresarial também é desafiado a apoiar projetos grandes, importantes e indispensáveis para o bem de todos. Iniciativas capazes de resgatar muitas pessoas de cenários marcados pelas misérias materiais e tantas outras que ferem dignidades, esfacelam a cidadania.

Urgente é cultivar a coragem para “pôr a mão no bolso” e apoiar iniciativas que promovam a inclusão social e o bem dos mais pobres, agindo de modo coerente com os ensinamentos cristãos. Práticas assim são remédio para evitar que as estruturas se tornem pesadas, propícias para hibernar a corrupção e a mesquinhez. Quanto mais a cidadania for balizada no sentido nobre e altruísta da solidariedade, mais a cultura ganhará força para manter funcionamentos que estão na contramão de tudo o que desgasta o patrimônio público. Para isso é necessário ouvir o clamor do povo, que deve ser acolhido no coração de cidadãos, de instituições e empresas, e assim se convencer sobre a necessidade de investir e apoiar projetos dedicados ao bem de todos. Nesse caminho, quem puder ajudar não hesitará, mesmo que isso signifique diminuir o próprio lucro. A consciência generalizada de que o bem comum deve ser prioridade é um sonho, uma ousada meta. Porém, deixar de buscá-la significa alimentar o recrudescimento da violência, da indiferença que compromete a paz, e da ilusão de que a vida segura e civilizada é para poucos.

Quando o tema da responsabilidade social é convicção e não conveniência, nutre-se a coragem para investir em projetos necessários para o bem comum, a promoção da cultura, dos valores e das tradições que são riquezas de um povo. Essa convicção desperta, em todos, a consciência de que é fundamental participar, nos diferentes cenários, das iniciativas que busquem devolver a inteireza da dignidade humana. Para assumir a responsabilidade social como convicção, também é oportuno ouvir esta palavra interpelante do Papa Francisco: "É preciso repetir que os mais favorecidos devem renunciar a alguns dos seus direitos, para poderem colocar, com mais generosidade, os seus bens a serviço dos outros".

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Em favor do povo

Essa expressão precisa se tornar um princípio que inspire a conduta de todos os cidadãos. E é urgente que seja adotado, particularmente, pelos governantes, políticos, dirigentes e líderes. Uma necessidade para que se passe o Brasil a limpo, tarefa gigantesca, pois a sujeira é incalculável. Não há outro caminho para superar as crises senão este: agir a partir do lema “em favor do povo”, o que possibilita edificar uma cultura mais cidadã e menos egoísta. Contribui para dissipar as manipulações que buscam favorecer pequenos grupos, partidos e interesses que claramente não são os da população. A tarefa é exigente, demanda muitas mudanças, que não são apenas de nomes. Urgentes são as transformações profundas que resgatem a cidadania de um mundanismo perverso e viciado, um contexto que impede o surgimento de pessoas motivadas para trabalhar em favor do povo.

Mundanismo é um termo refletido pelo Papa Francisco na sua Exortação Apostólica sobre a alegria do Evangelho. Ali, o Papa fala a respeito do mundanismo espiritual que corrói a interioridade do cidadão contemporâneo, com lamentáveis desdobramentos nas diversas instituições e práticas que formam a sociedade, inclusive para a Igreja. Tudo o que pode ser em favor do Povo fica comprometido. Oportuno é lembrar que a expressão “em favor do Povo” refere-se ao bem comum que se sustenta no respeito incondicional à dignidade de toda pessoa. Trata-se de um bem emoldurado pela participação e promoção de dinâmicas que conduzem os funcionamentos sociais e políticos nos trilhos da justiça e da verdade.  Assim, o mundanismo espiritual, com suas consequências, é veneno que atinge não simplesmente os que se dedicam à prática da religiosidade, mas todo o conjunto da cultura contemporânea, pois enjaula a cidadania.

Esse mundanismo, muitas vezes, aparece camuflado. Porém, é muito simples percebê-lo em pessoas que buscam ocupar cargos públicos, ou mesmo nas esferas religiosas, por motivações que desconsideram o bem comum. Gente que procura atender, exclusivamente, os quesitos da glória humana e a garantia do bem-estar. A responsabilidade pelo mundanismo espiritual é, principalmente, de todos os que exercem a liderança, nas diferentes esferas da sociedade e de suas instituições. Urgente se torna buscar um caminho penitencial, de limpeza que não pode deixar de todos envolver. Na sociedade brasileira, o mundo empresarial tem sido “passado a limpo”. Mas ainda falta a corajosa iniciativa de também submeter o mundo da política nos parâmetros da justiça. Sem essa coragem, não será possível tecer nova cultura política e, consequentemente, o povo continuará a sofrer com a corrupção.

Os jeitos tortos de tratar a coisa pública, manipulada em favor de grupos, partidos, indivíduos, perpetuam os equívocos. Validam escolhas inadequadas nas estruturações e funcionamentos que de outra maneira permitiriam conquistas em favor do povo. Torna-se indispensável analisar e entender as dinâmicas da cultura pós-moderna. Avaliar criticamente tendências extremamente subjetivistas, que consideram certas experiências como únicas, aprisionando a cidadania em sentimentos e razões muito próprias. Esse fechamento traz como consequência uma incapacidade para um olhar mais ampliado e, sobretudo, eivado com a sensibilidade para priorizar o que é “em favor do povo”. Quando governantes e políticos sofrem desse mal, em vez de agir para promover o bem comum, empenham-se somente para satisfazer o próprio interesse, no máximo as necessidades dos grupos de aliados. São orientados pelos parâmetros da mesquinhez, com a perda do altruísmo.

O mundanismo espiritual, que é também moral, enrijece e domina violentamente as instituições, neutralizando-as na sua tarefa de conduzir o conjunto da sociedade em direções mais arrojadas. Essas instituições e segmentos da sociedade, em vez disso, tornam-se verdadeiros parasitas, pois ancoram a mediocridade de quem não consegue entender e viver a cidadania. Os resultados são prejuízos incalculáveis, inclusive a perda da esperança em pessoas que se deixaram dominar por razões muito mesquinhas e, com isso, comprometeram a sua competência técnica, profissional e humanística. Assim se constitui o triste cenário dos esvaziamentos institucionais, sem credibilidade, desenhando contextos semelhantes aos de uma terra arrasada por guerras e catástrofes. O horizonte é presidido por uma mentalidade pequena, pela exacerbação de práticas religiosas que são adaptadas à demanda dos fregueses, com uma multidão ancorada na rigidez de fundamentalismos e descompromissada com as exigências éticas. Recomeçar é a saída, e a direção é fazer valer, acima de tudo, o princípio ético-político de tudo que seja em favor do Povo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Grito das instituições

As instituições nos diferentes segmentos gritam por líderes com estatura para suprir suas necessidades. E essas demandas são muitas. Relacionam-se a metas, funcionamentos e procedimentos. À enorme lista de exigências, acrescentam-se ainda certas características das instituições: o custo, o peso e a incidência sobre a realidade. Todas essas variáveis indicam, de um modo geral, que é complexo o desafio de mudar as instituições. Elas são, como define o dito popular, “um pesado piano” que, por vezes, é empurrado com grande força, mas não sai do lugar. Consequentemente, experimenta-se um sentimento de frustração, desgaste e desanimo que empurra na direção da desistência ou do habituar-se à mediocridade. Uma situação que leva a sucateamentos e promove a perda de oportunidades que poderiam gerar importantes transformações.

Diante das dificuldades, urgente e desafiador é verificar processos para aperfeiçoar a utilização de recursos, particularmente investir na gestão de pessoas. Torna-se fundamental também acabar com certas “cargas pesadas” que estão fora do território da identidade do povo, da cultura e que apenas estreitam horizontes, atrapalham funcionamentos e mantêm loteamentos.  Esses pesos ajudam a configurar um pensar pequeno que serve apenas para confirmar hegemonias do passado, com narrativas sobre fatos, momentos da história e reverências a líderes autoritários, responsáveis inclusive pelos atrasos.  Pessoas que, um dia, favoreceram alguém somente para manter sob seu domínio os favorecidos.

É fácil detectar essa realidade quando se observa aqueles que não evoluem, apegam-se ao passado e não são capazes de perceber que se vive outro tempo. Até as conversas e a linguagem, além das posturas e a manutenção de afazeres que já são ultrapassados, revelam a mediocridade que impede o surgimento de novos líderes. As instituições pesadas hibernam com pessoas que não evoluem e, gradativamente, morrem por não conseguir se renovar.  Esse peso torna-se ainda mais grave no contexto da dinâmica cultural contemporânea, marcada pela multiplicidade, velocidade e exigência de leveza. E a mudança das instituições depende, fundamentalmente, de seus líderes. Formá-los é exigência prioritária.

Para isso, deve-se cultivar a competência para o diálogo, pré-requisito primordial para ser bom gestor. Não lidera quem não dialoga. Em vez disso, arruína o que dirige e não consegue encontrar soluções. Dialogar como exercício primordial dos líderes não é artimanha espúria para negociatas. Trata-se de sabedoria que ampara a competência de discernir, de se fazer presente e próximo das muitas discussões que definem a agenda global da sociedade. É ser capaz de agregar, com paciência, muitas pessoas, inclusive as com opiniões divergentes para gerar consensos e, assim, oxigenar instituições. Desse modo, o líder estimula a inclusão participativa, a adesão a projetos que promovem melhorias no âmbito institucional e na sociedade. 

Dialogar com pessoas próximas e com diferentes segmentos é competência indispensável, ainda mais para quem busca exercer liderança.  Além disso, importa muito a realização de diagnósticos que considerem a complexidade social, a intuição inteligente na criação de iniciativas indispensáveis para alcançar os objetivos próprios das instituições, que são desafiadas a colaborar e a cumprir suas responsabilidades sociais, culturais ou religiosas. Assim é possível contribuir para melhorar a realidade.  O grito das instituições é sintoma da falta de líderes, evidencia a presença de pessoas que ocupam cargos sem a competência necessária, seja técnica, humana ou espiritual. Indica também a necessidade de se tomar novas direções para promover mudanças e alcançar respostas capazes de evitar colapsos. Para suprir a carência social de bons líderes, é preciso também romper com a forte cultura do loteamento. Isso se conquista a partir do cultivo, particularmente no ambiente familiar e educativo, do gosto pela transparência, da coragem audaciosa no enfrentamento dos problemas, da habilidade para adotar um discurso direto e para agir nos parâmetros do altruísmo.

Os líderes e as instituições estão desafiados a considerar o contexto do mundo contemporâneo para romper com a ideia de que ainda há espaço para permanecerem estáticos. Tudo hoje funciona com outra velocidade. O que antes era menos complexo, mais controlável, lento e previsível, hoje é rápido, instável, imprevisível, altamente complexo e, com frequência, fora de controle. Por isso, deve-se respeitar e cultivar valores que alimentam discernimentos necessários para escolhas adequadas. A proximidade das situações, das pessoas e dos problemas, sem medo e sem pretensão de manipular, é caminho que gera a oportunidade para o intercâmbio na chamada sociedade do conhecimento. Um exercício importante, que promove mais adesão, participação e, consequentemente, contribuições significativas. Essa proximidade alimenta sistemas e processos com informações e inventividades, respeito a autonomias e interdependências que enriquecem ações transformadoras. É tempo de investir para se encontrar novas formas de liderar, substituindo posturas arcaicas pelas que, verdadeiramente, ajudem a construir novo momento. Isso começa a partir de diálogo sincero e direto, considerando a interpelação que vem do grito das instituições.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Sucateamento de tesouros

É alto o preço que se paga em decorrência do sucateamento da máquina pública. Um doloroso prejuízo que atingirá também gerações futuras. Exemplo emblemático é o que ocorre com a educação: o acúmulo de déficits dificulta a construção de novas possibilidades. É muito preocupante a lista de tudo o que se perde quando não se trata adequadamente essa importante área. Compromete-se o tecido da cultura, tornando-o incapaz de garantir às instituições o adequado funcionamento. A análise de todo esse processo merece uma profunda reflexão que se desdobre em novas atitudes, particularmente de líderes nos âmbitos regionais. Uma tarefa que exige adequada compreensão do atual contexto sociopolítico.

Esse exercício requer, prioritariamente, considerar a realidade mais próxima - o domicílio, o ambiente de trabalho, a prática religiosa, os representantes escolhidos - mas, sem deixar de olhar para o que se localiza na amplitude de uma nação como a brasileira.  Quando o cidadão passa um “pente-fino” nas inúmeras situações que formam seu cotidiano, percebe com nitidez pontos relevantes das muitas fragilidades que corroem o tecido social. Só assim será possível detectar os vícios que levam à mediocridade e até mesmo ao desrespeito em relação aos tesouros que se tem. Ignorar esses hábitos ruins traz consequências nefastas, a exemplo da tibieza da representação política, em contextos regionais e nos cenários mais amplos. Faltam vozes com força de convencimento, pessoas com capacidade para articular e produzir projetos, atrair benefícios e imprimir dinâmicas com inventividade e competência.

A política passa, então, a carecer de líderes com autoridade para defender o bem comum e impulsionar projetos que garantam destaque nacional a contextos regionais. O resultado é o espetáculo da mediocridade que impacta negativamente as diferentes esferas da vida, com graves desdobramentos. Ainda no âmbito da educação, constata-se a timidez da incidência do mundo acadêmico sobre o cotidiano das pessoas. A grande rede de ensino, que reúne instituições governamentais e particulares, muitas de tradição e qualidade, não consegue dar novos rumos às mentalidades. Com isso, muitos desconhecem os valores de sua própria região e de suas raízes. A educação formal não chega a tocar o âmago da consciência e, com isso, perde-se a força da cultura, necessária para produzir riquezas inovadoras e libertárias. O que se percebe é certo comodismo e a falta de inteligência que alicerçam o desconhecimento sobre as heranças históricas, ambientais e religiosas.

A força dominadora da mediocridade vai tomando conta e não se tem o ânimo necessário para se falar da ética. Grande é o desconhecimento para se falar e compreender os parâmetros da solidariedade. Há uma cegueira quanto à prática da distribuição de bens. Pouca sensibilidade para efetivamente defender os mais fracos. Progressivamente, esmaece a referência a Deus, com o consequente enfraquecimento da indispensável defesa cotidiana da justiça. Com isso, no âmbito político, profissional e empresarial, prioriza-se mais o que atende a interesses individuais e partidários. Fica obscurecida a nobre tarefa de se deixar interpelar por um sentido mais amplo da vida.

Assim, são preocupantes os consequentes processos de desumanização, muitos deles irreversíveis, como é o caso da violência e do desrespeito à sacralidade da dignidade de toda pessoa. Não menos grave é o caos ético que sucateia experiências familiares, enfraquece narrativas que sustentam as tradições e, dessa forma, corrói os tesouros da cultura, depreda os acervos patrimoniais, escava, escandalosamente, pelo lucro, as paisagens, passa por cima de povoados e pessoas, apagando suas histórias.

É urgente que cada pessoa busque cuidar “da própria casa”, sob pena de perdas maiores. Especialmente, quando se pensa no povo mineiro, essa tarefa requer a elaboração de uma consciência social e política, religiosa e cultural condizente com a história tricentenária de Minas Gerais. Desse modo, será possível efetivamente reconhecer, reverenciar e respeitar a herança de antepassados que escreveram uma história mais exitosa, menos mesquinha, mais audaciosa e menos medíocre. Efetivamente serão valorizadas as tradições, sem a negociação  do que se tem como herança. Oportuna é uma reação de todos os segmentos no cenário da própria cultura regional para aperfeiçoar competências, redescobrir valores e riquezas que precisam ser adequadamente tratados. Nesse caminho se configura luminosidade na consciência cidadã para tornar sempre mais forte e qualificado o território dessa pátria menor, determinante para sustentar a grandeza da pátria maior e, assim, debelar, definitivamente, o sucateamento de tesouros.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Sequelas da cultura

A decisão de unir educação e cultura em âmbito ministerial provocou reações diversas. Esse contexto é oportunidade para uma ampla reflexão a respeito da importância do adequado tratamento da cultura, o que ultrapassa operações de crédito advindas de leis de incentivo, o suporte que se oferece para a realização de eventos, shows e projetos que contribuem para a promoção das diferentes artes.   Demanda-se uma compreensão de cultura abrangente, que permita reconhecer o seu alcance no conjunto da vida de um povo.  É da cultura que nasce uma postura cidadã adequada, substrato de uma política que é praticada a partir dos parâmetros de estadistas, com a nobreza da solidariedade, permitindo superar o “loteamento” do poder, os favorecimentos que ameaçam o bem comum.

A cultura hospeda uma essencialidade que exige a atenção de todos, pois ela contempla o que o homem faz nas muitas dinâmicas da vida, criando valores com força de impulsionar na direção das inovações, inventividade e competência. Eis o enorme desafio, que é incomparável com o labor de produzir um evento, um show, um projeto, independentemente de sua complexidade.

A cultura revela e determina a maneira particular como vive um povo, o modo como as pessoas se relacionam com Deus, com a natureza e com os outros, tecendo um estilo de vida comum. Portanto, a cultura abrange valores que animam e fortalecem - e contra valores que desfiguram e ameaçam.  Define os costumes e a convivência social, o modo de ver o mundo que influencia determinantemente os discernimentos, escolhas e juízos a respeito da realidade, dos procedimentos e dos processos em curso.  As dinâmicas que dão forma à cultura constituem processo vital e permanente. Provocam transformações e cristalizações que podem impedir avanços ou garantir entendimentos lúcidos, com influências determinantes na realidade histórica e social. Investir nesses processos é, principalmente, responsabilidade de dirigentes e líderes. Constitui tarefa que ultrapassa as fronteiras do tratamento formal e conceitual do âmbito da educação, pois, entre outros aspectos, deve contemplar, por exemplo, o funcionamento de instituições, promovendo ajustes que possibilitem projetos exitosos e conquistas.

A constituição da realidade cultural necessária para gerar respostas novas diante das necessidades do mundo contemporâneo exige lucidez e corajoso empenho de todos. Na direção oposta a esse caminho, a sociedade continuará a conviver com vícios, desvirtuamentos e estreitezas que aprisionam a cultura nos parâmetros da mediocridade. E todos continuarão a pagar um preço alto em razão dos atrasos, do comodismo e de uma compreensão com horizonte limitado, que inviabiliza o crescimento e o desenvolvimento integral. Sem a adequada reconfiguração da cultura, o povo continuará a sofrer com os descalabros institucionais, com o inadequado tratamento do que é de domínio público.

O investimento necessário no tecido cultural supõe lucidez, ousadia e, particularmente, a coragem de atuar para além de comodidades individuais e partidárias. Certamente, qualquer instituição que sofre com atrasos, descompassos e, consequentemente, oferece à sociedade uma contribuição que está aquém de suas possibilidades encontra-se nessa situação porque é regida por um tecido cultural que assenta seus integrantes na mediocridade, na incompetência de juízos, na falta de criatividade e de inventividade.  E líderes autoritários, incompetentes para o diálogo e que estão propensos à barganha são os grandes responsáveis por esse déficit. Eles geram dependências e dívidas impagáveis, imobilizam pessoas que caem na armadilha de ficar “devendo favor”. Esses líderes e esses funcionamentos medíocres estão aprisionados nos “favores” concedidos.

Tarefa exigente, que por vezes requer corrigir décadas de atrasos sem desconsiderar os desafios próprios do atual momento, é preciso investir no tecido cultural. Assim será possível tratar as paralisadoras sequelas na cultura, estabelecendo novas dinâmicas capazes de conduzir a sociedade rumo a novos tempos, de mais justiça, solidariedade e paz.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Erguer outras tochas

A passagem da tocha olímpica por diferentes cidades tem congregado multidões, uma explosão de alegria e entusiasmo. No horizonte está o acontecimento dos jogos olímpicos no Rio de Janeiro. Um importante evento, considerada a sua força educativa, que pode contribuir para a promoção da paz entre os povos, ajudar a cultivar o sentido de disciplina que é caminho para muitas conquistas.  A olimpíada traz um conjunto de lições e a tocha olímpica é seu símbolo. Sua luminosidade, que passa pelas ruas das cidades brasileiras, atraindo a atenção da mídia e das pessoas, tem poder simbólico que indica ser urgente carregar muitas outras tochas, uma interminável lista de itens.

É tarefa cidadã considerar essas necessidades e agir diante da urgência para se conquistar uma iluminação diferente, nova, capaz de retirar a sociedade brasileira dos lamaçais da corrupção. Essas tochas envolvem uma série de itens, possibilitando enxergar e alcançar novos ordenamentos sociais e políticos, fundamentais para uma arrancada mais rápida e consistente rumo à solução das crises que geram sofrimento e desfiguram o tecido cultural brasileiro.

A tocha da consciência moral deve receber investimentos, permanentemente, para evitar sua terrível degradação.  O caos moral é responsável pela desarticulação das dinâmicas que sustentam o equilíbrio, a convivência, o sentido de respeito e honestidade, indispensáveis para a vida em comunidade. O tratamento inadequado dessa tocha, enfraquecida pelos relativismos ético-morais, é responsável pela violência e a indiferença. Quando falta a chama da consciência moral, a paz fica comprometida, perde-se a sensibilidade que é fonte para um remédio indispensável: a solidariedade humana, que equilibra relações e garante sustentabilidade ao tecido da cultura.

É preciso reacender a tocha da autoridade política, apagada pela ausência de envergadura moral na tarefa cidadã da representatividade, o que leva ao uso inadequado do poder. Acender essa tocha depende, fundamentalmente, da irrestrita consideração e respeito ao povo. A autoridade política precisa ter consciência de que a soberania é do povo, que confia o poder aos eleitos para representá-lo. Por isso, cabe aos políticos exercer seu papel seguindo orientações da lei moral. Desvirtuar essa lei significa apagar a tocha essencial para iluminar o caminho das autoridades. Na direção oposta, reluz quem promove os valores humanos e morais, para além dos conchavos partidários, dos loteamentos do poder e da satisfação de interesses que ameaçam o bem comum.

Não menos urgentes são os raios luminosos da tocha empunhada pelos construtores da sociedade civil, que precisam se deixar interpelar por um sentido mais amplo de vida. Assim, poderão, verdadeiramente, contribuir para multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos.  A luz dessa tocha pode curar a cegueira que sustenta a idolatria ao dinheiro e a confiança nas ilusões produzidas pela mão invisível do mercado. Quando se conquista a luminosidade que faz enxergar de modo mais adequado a situação dos mais pobres, resultados duradouros são alcançados. Toda a sociedade precisa assumir o compromisso de agir para mudar a realidade dos que sofrem.  Sem a luz da tocha da opção preferencial pelos pobres, haverá comprometimentos diversos, com prejuízos para todos.

No atual contexto, diante do entusiasmo e da significação que emanam do percurso da tocha olímpica, é oportuno listar outras muitas “chamas” que podem garantir o intocável respeito à dignidade humana e ao bem comum, para que haja a recuperação do sentido de autoridade política, adequada estruturação da economia e para que seja reconquistada a nobreza indispensável ao exercício da cidadania. Vitórias que serão alcançadas quando todos, com galhardia, disciplina e honestidade, erguerem essas muitas outras tochas.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Em diálogo pelo bem

A tarefa de construir o bem comum necessita, acima de tudo, de diálogo.  Dialogar qualifica a capacidade humana de se dirigir ao outro, nas diferenças e nos parâmetros racionais das oposições. Permite também estabelecer uma relação com a lucidez de discernimentos e escolhas. Trata-se de prática que não oferece espaço para o ódio, vinganças e o aproveitamento espúrio de oportunidades para obter ganhos na contramão do bem comum. A ausência do diálogo permanente, em todas as esferas das relações humanas, explica o nascimento de descompassos, as mazelas de escolhas, os absurdos dos procedimentos que comprometem legalidades e produzem os leitos da corrupção.

Somente pela via do diálogo os muitos segmentos da sociedade construirão o tecido de uma cultura que sustente princípios e legalidades. As guerras, os acirramentos partidários, o recrudescimento da violência, os fundamentalismos - religiosos e políticos -, as inimizades, as crises familiares, tudo advém de incompetências humanas na essencial capacidade para dialogar. Uma qualidade fundamental para se escolher bem, decidir e garantir rumos adequados. Quando falta a indispensável competência da reciprocidade conquistada pelo diálogo, as consequências são sempre desastrosas.

Só o diálogo constrói entendimentos que levam à compreensão das mudanças e transformações tão velozes neste tempo. A vivência desse exercício mostra a importância da participação cidadã. Garante lucidez na condução de processos e engradece a alma, fazendo-a apreciar o que se baseia no altruísmo. Sem a abertura para a reciprocidade nos exercícios relacionais em diferentes ambientes - do aconchego da vida familiar aos grupos religiosos, culturais e políticos -, o que se faz torna-se desserviço. Líderes incapacitados para o diálogo, particularmente no âmbito da política, são obstáculos nos funcionamentos da sociedade, prejudicando o bem comum.

O diálogo, longe de ser “conversa fiada”, fofoca, palavras trocadas pelo simples gosto de falar - especialmente aquele gosto muito comum de se falar dos outros -, é a construção de entendimentos que dão suporte para a criação e manutenção do ethos do altruísmo, da seriedade no que se faz e da busca pela verdade.  Promove, assim, a coragem da transparência, em todos os sentidos e níveis, balizando na honestidade relações e funcionamentos. A qualidade do diálogo depende muito da visão construída no horizonte dos cidadãos, para além de paixões partidárias. O exercício do diálogo alarga a visão de mundo do cidadão, os horizontes dos funcionamentos institucionais. Permite alcançar a compreensão que anima a indispensável autoestima, a consciência histórica e a configuração política merecedora de credibilidade.  Nesse sentido, o diálogo é força para fazer com que a sociedade seja verdadeiramente democrática, capaz de respeitar e promover, com fecundidade, o bem comum.

Dialogar é o caminho da permanente construção da vida social, familiar e individual. O diálogo é remédio para curar irracionalidades, tônico que fortalece entendimentos cidadãos, intervenção que alarga as estreitezas de interpretações. O princípio do bem comum é o que deve nortear a sociabilidade, superando, assim, radicalismos e violências.  Para além de qualquer simples interesse, sobretudo daquele que nasce da idolatria do dinheiro, cada cidadão tem a tarefa de preservar e de promover esse princípio.

O respeito e a promoção do bem comum são deveres de todos.  Por isso, ecoe em todo canto, e permeie os tecidos da cultura na sociedade atual, na particularidade do momento vivido na sociedade brasileira, a autoridade do convite e da recomendação do Papa Francisco, dirigindo-se aos brasileiros: é preciso investir todas as forças no diálogo para reconstruções, respeito a legalidades e encontro das indispensáveis saídas, evitando descompassos que comprometam a civilidade, a ordem e a justiça. Acima de tudo, os segmentos diversos da sociedade, para superar mediocridades, partidarismos, radicalismos de todo tipo, fecundando nova cultura, precisam estar em diálogo pelo bem comum.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Apelo aos cristãos

Cristãos todos, de diferentes confissões, precisam vivenciar o compromisso com a unidade. Essa é a convocação da Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos, preparação para a festa litúrgica de Pentecostes, 15 de maio. Unidade inscrita no compromisso obediente ao mandato do Senhor Jesus quando ora ao seu Pai e roga a graça “para que todos sejam um”. Eis o princípio do Evangelho que exige o envolvimento de cada pessoa que testemunha a fé em Cristo. A súplica de Jesus precisa balizar a conduta de todos os cristãos, a partir de sua identidade confessional, na construção da unidade. Para além de qualquer pretensão de uniformidade, o objetivo é fazer valer a força dos valores do Evangelho nos norteamentos da história e nos rumos novos que a sociedade precisa trilhar.

A busca dessa unidade foi um dos objetivos centrais do Concílio Vaticano II. Ainda incomoda muito constatar que os princípios cristãos ainda não livraram a sociedade dos esquemas de corrupção, dos desmazelos sociais e das indiferenças que comprometem a paz. Essa realidade é uma vergonha para quem crê em Jesus, pois os processos de transformação social e político precisam ser fecundados pela força da fé. Falta a consciência clara de que se está caminhando para o Reino definitivo. A unidade dos cristãos como força de articulação que pode colaborar nessa caminhada, pela singularidade dos valores do Evangelho, é uma meta que, lamentavelmente, ainda não conquistou a necessária mobilização. Isso pode ser percebido quando se observa a participação das pessoas nos momentos que integram a programação proposta pela Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos. Poucas confissões religiosas se interessam e colaboram.

Na contramão desse caminho, o tecido cristão subjacente na sociedade brasileira vai recebendo matizes e direcionamentos que se distanciam do sentido e do compromisso da unidade. Está se verificando um fenômeno que urge a atenção do Estado, com seus governantes, bem como das Igrejas, com seus líderes, no sentido de parar um preocupante processo de deterioração da essencialidade do viver cristão. A fé cristã pode contribuir de maneira determinante e transformadora para o bem da sociedade. Porém, é uma aberração fazer da fé uma prática para sustentar partidarismos, bancadas nos âmbitos parlamentares, apoios em troca de interesses específicos, sombreando o horizonte de uma política que busca, acima de tudo, o bem comum.

Não menos preocupante é a realidade que se configura com a facilidade para se autodenominar “igreja cristã” e, assim, conseguir isenções de taxas e impostos, almejando negócios e enriquecimento ilícito. Esse problema merece atenção das confissões religiosas cristãs, particularmente pede a abertura para se rever os tratamentos recebidos, em razão de legislações que favorecem também práticas na contramão do bem comum. A força que impulsiona a construção e a vivência da unidade dos cristãos deve ser cultivada a partir da autenticidade e da coerência no âmbito das práticas religiosas, sem medo, sem proselitismos, sem disputa para arrebanhar mais gente. Assim, os cristãos, em unidade, poderão enfrentar problemas, a exemplo do que incide sobre a população jovem, cada vez mais indiferente em relação à vivência da religiosidade. É oportuno lembrar que a construção de um caminho sem o horizonte dos valores e princípios cristãos reforça o ciclo de crises existenciais e sociopolíticas. Também não se pode deixar de pensar na urgência do fortalecimento do tecido da unidade entre os cristãos para que todos possam melhor cuidar da “casa comum”.

Essa tarefa, é verdade, envolve prioritariamente as instâncias governamentais e os detentores do poder de decisão. As autoridades que representam o povo precisam trabalhar para deter as desarvoradas ganâncias que levam a um desenvolvimento questionável. Mas os cristãos todos também têm um insubstituível compromisso com a “casa comum”. Pela força da fidelidade ao Evangelho, devem cultivar hábitos novos, participação cidadã qualificada e, assim, colaborar na reconstrução da sociedade.

Diante da obra da Criação, a partir da redenção conquistada pela morte e ressurreição de Jesus, os cristãos são chamados, pois, a construir sua unidade, enriquecida pelas diferenças. Assim, poderão protagonizar a cidadania, com o perfil próprio de quem crê em Cristo, dando as mãos em torno de programas e projetos que balizem o caminho da sociedade sempre no horizonte da verdade, da justiça e da solidariedade. A Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos, embora tão frágil em publicidade e em participação das igrejas, das várias confissões denominadas cristãs, é um broto de esperança. Trata-se de alerta que mostra a importância dos cristãos se unirem para defender a vida. Deixar para depois o momento dessa união pode ser prenúncio de um futuro triste, conforme sinaliza significativa parte da juventude de hoje, indiferente à fonte inesgotável de vida plena: o Evangelho de Jesus Cristo. Que a Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos contribua para que todos, como discípulos de Jesus, caminhem de mãos unidas.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Solidariedade: Lacre do Bem

A menina Júlia Macedo, de onze anos, aluna do Colégio Santa Maria, aqui de Belo Horizonte, brilha como uma luz no fim do túnel, diante dos cenários confusos e desesperançados da política, das dificuldades que afligem milhões de pessoas provocadas pelos descompassos na economia e pela crise moral.  Um gesto simples de solidariedade incendeia uma campanha, Lacre do Bem, que troca os lacres das latas de alumínio por cadeiras de rodas.  Em dois anos a garota, com o apoio dos pais e dos colegas, conseguiu juntar 26 milhões de lacres, agregando a essa Campanha muitas outras pessoas, com a força da solidariedade que transforma vidas e corações. É um broto de esperança exemplar apontando a direção certa da aposta que precisa ser assumida como lição. O segredo é simples, revelado nos traços do rosto sereno, inocente, e sustentado pela convicção do bem que está no coração da garota de 11 anos.

O segredo maior é alicerçar o coração e a mente nos balizamentos da solidariedade. Obviamente, esse é o remédio para curar os desvios que embaraçam os exercícios da representação política. O investimento prioritário, portanto, na família, na escola e nas relações sociais todas, é entender e  vivenciar a solidariedade como princípio social, pois é ela que agiganta ações como a campanha Lacre do Bem. Esse investimento efetiva soluções para problemas que se arrastam sem saída nos debates políticos, nas análises sociológicas sofisticadas, mesmo nos discursos de denúncias ou na superficialidade de apontar o dedo para os outros. As instituições não conseguem encontrar seu ordenamento adequado e esperado fora dos parâmetros da solidariedade como princípio social. Sem esses balizamentos, os funcionamentos institucionais todos, da família à escola, da empresa à universidade, as relações entre as pessoas e os povos caem na incapacidade de eleger o bem comum como prioridade. Perdem a sensibilidade de cultivar o cuidado com os mais pobres.

Uma garota consegue mudar quadros na vida de pessoas, alimentar esperanças nos funcionamentos de creches e outras instituições com a força transformadora, a sabedoria própria e incisiva do amor ao próximo. Convence que há possibilidade de crescimento e consolidação de estruturas de solidariedade. É isso que pode, deve e é urgente acontecer com a criação e modificação de leis, regras de mercado e ordenamentos, da mais alta esfera até as relações mais domésticas. Só assim será possível configurar novo tecido cultural solidário, capaz de tirar a sociedade do caos, da falta de horizontes. A ausência da solidariedade produz prejuízos terríveis, a exemplo do preço patente e devastador da corrupção que compromete o bem comum. É próprio da solidariedade, como virtude moral a ser aprendida e praticada, manter acesa na consciência de cada um a determinação de se empenhar pelo bem comum, priorizando os mais pobres. Somente esta virtude poderá evitar os esquemas de corrupção, o terror do crime organizado e frear a indiferença para com o próximo.

Sem solidariedade não se alcançará a almejada paz no mundo, o bem comum sempre estará comprometido. Quando, pois, se afirma, com certeza, que na base de todas as crises que afetam a sociedade está a crise moral, compreenda-se que o seu remédio é a aprendizagem da lição da solidariedade, investimento prioritário na formação da criançada e da juventude, pela comprometida modelagem que os adultos devem assumir como tarefa primeira.

Só a solidariedade articula os pilares fundamentais da vida social: verdade, justiça e liberdade. É hora de grandes correções de rumos, ajustamentos de procedimentos, intervenções incisivas. É hora de envolver o conjunto dos cidadãos em práticas, pequenas e grandes, para além de obras públicas ou dos convencionais deveres de investimentos, inserindo as camadas todas da população brasileira em campanhas, projetos e programas que mereçam o reconhecimento, pelo alcance de sua solidariedade, como o Lacre do Bem.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Lições de cidadania

Os cenários não são inspiradores quando se constata a violência crescente na sociedade brasileira. São números de uma nação em guerra. Também é aflitivo o aumento do desemprego e não menos desoladora é a sensação que nasce a partir de uma pergunta ainda sem resposta: como vai ser o desfecho de toda essa situação política e econômica que caracteriza o atual momento do Brasil? Esse sentimento de desolação torna-se mais forte diante da espetacularização do que se passa no recôndito do parlamento. Nesse âmbito, o que se verifica são manifestações sem qualquer ordenamento, comparáveis às que ocorrem nos estádios esportivos. Os estádios são o lugar de entusiasmadas manifestações, da informalidade, local de explosões de alegrias e de conquistas, diante de um adversário que apenas é o outro time, derrotado naquela oportunidade, mas que pode reverter o placar em partida que ocorrerá pouco tempo depois. Já o parlamento exige conduta diferente, pois é âmbito que reúne os representantes da sociedade. Nas ruas, a população deu lições a esses representantes, quando fez vir à tona traços qualitativos de civilidade e de nobreza, no uso do sagrado direito de divergir, mantendo a urbanidade.

O povo indicou para os que estão no exercício do poder a necessidade de atitudes bem diferentes das que se restringem aos gestos, palavras e posturas de intolerância e de acirradas disputas, fora do território da nobreza que configura a autêntica cidadania. A população pede mudanças urgentes e respostas novas com incidência nas dinâmicas, funcionamentos e rumos da sociedade, particularmente no âmbito da economia e da política. As manifestações nas ruas apontam a inépcia dos que governam. São o grito que pede aos que detêm poder novas posturas, marcadas pela nobreza de ocupar lugares e postos exclusivamente para promover o bem comum. Não há espaço para interesses mesquinhos e partidários, que alimentam a corrupção e a insensibilidade.

A pluralidade das manifestações do povo brasileiro nas ruas, domingo passado, é broto de esperança na recuperação e na consolidação de uma cidadania que pode reverter os quadros deprimentes das crises instauradas. No contexto da atitude tolerante e respeitosa entre diferentes estão, incontestavelmente, hospedados outros valores e princípios que precisam vir mais à tona, ocupando os espaços da consciência para alicerçar condutas que façam jus à história e à índole do povo brasileiro. Essa luz no fim do túnel exige das classes dirigentes, dos formadores de opinião, dos detentores de poder na economia e na intelectualidade, posturas corajosas, marcadas pela generosidade e capacidade para o diálogo. 

O povo não quer espetáculos nas suas casas de representação, mas seriedade, inteligência e urbanidade. A população não busca “salvadores da pátria”, mas representantes que, na luta de cada dia, se empenhem para fazer o bem, sem manipulações. A lição dada pelo povo nas ruas, para além de qualquer romantismo, comprova o poder transformador do desejo de se fazer o bem. Que a presença cidadã do povo nas ruas, augurada como atitude permanente na travessia crítica desse momento político, mexa no mais fundo da consciência de todos, particularmente dos representantes e servidores do povo. Isso certamente ajudará a dissipar truculências, arbitrariedades, autoritarismos e desavergonhadas defesas de atitudes que estão na contramão da verdade, do bem e da justiça.

Continue o povo a cultivar e a testemunhar lições de cidadania, mesmo em momentos mais críticos e tensos, para inspirar e exigir dos que são seus representantes no exercício do poder a se fazerem eternamente aprendizes. E que a classe política não deixe secar a fonte da sabedoria que faz a vida ter sentido - ela deve ser vivida como oportunidade para servir o outro, não a interesses próprios ou partidários. Sejam os representantes do povo aprendizes para buscar o bem comum, caminho de reconstrução da cidadania.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Educar pela vida familiar

O Papa Francisco, atento às dinâmicas da cultura contemporânea e após a realização de dois sínodos, traz pertinente interpelação com a Exortação Apostólica sobre o amor na família, Amoris Laetitia.  Com sua extraordinária sensibilidade humana e a partir da escuta do mundo católico, Francisco mostra que a grande meta é reavivar a consciência sobre a importância do matrimônio e da família. Desafio complexo que não permite tratamento superficial. São necessárias ações bem fundamentadas para não se correr o risco de obscurecer ou anular o determinante e indispensável papel da família - lugar da educação por excelência - particularmente essencial neste momento, quando se precisa configurar novo tecido cultural. E isso é imprescindível para a superação das crises muito desafiadoras, nos âmbitos da ética, política, economia e instituições.

A Igreja, na unidade de doutrina e práxis, acolhe a indicação de que, em cada país ou região, é possível buscar soluções mais atentas às tradições e aos desafios locais. Longe de qualquer tipo de permissividade, o caminho é se debruçar sobre culturas diferentes, considerando a pluralidade que caracteriza cada sociedade. Essa tarefa exige acuidade, empenhos e profunda espiritualidade. Por isso, o Papa Francisco recoloca, com destaque, alguns caminhos pastorais que levam à construção de famílias sólidas, fecundas segundo o plano de Deus, com especial luz sobre a educação dos filhos.

Não há mais tempo a perder diante da necessidade de se investir na família, referência singular com propriedades para edificar nova cultura humanística e espiritual que permita superar o atual momento social e político. Há uma complexidade própria na realidade da família, que precisa ser adequadamente compreendida e tratada.  Para isso, as jaulas do egoísmo e da mesquinhez devem ser evitadas. Essas prisões nascem de individualismos perversos e da consequente perda de capacidade para gestos altruístas, indispensáveis na vida de todos, especialmente no exercício da cidadania. Em questão, portanto, está o desafio de se compreender, em profundidade, a importância da família.

O desvirtuamento dos laços familiares é um real perigo alimentado por uma exasperada cultura individualista que pode parecer atraente, mas é caminho para prejuízos irreversíveis. É preciso conhecer mais profundamente a realidade familiar para não se negociar o inegociável. A liberdade de escolha, sublinha o Papa Francisco, permite a cada pessoa projetar a própria vida e cultivar o melhor de si mesmo, mas se não houver objetivos nobres e disciplina, se degenera numa incapacidade para a doação. O entendimento de que a liberdade individual garante o direito de julgar a partir de parâmetros próprios, como se não houvesse verdades, valores e princípios diferentes, é problemático. Cria a convicção de que tudo, desde que atenda ao interesse particular, é permitido.  Contribui para que entendimentos sobre o matrimônio sejam achatados por conveniências e caprichos.

Há um percurso longo para resgatar valores que foram perdidos. Sem essas referências, continuarão a surgir descompassos e a humanidade sofrerá com a perda de rumos. A trajetória a ser seguida exige entendimentos, recomposições e a necessária capacitação para a vivência de valores éticos e morais.  E a família é, indiscutivelmente, a primeira escola desses valores. Lugar em que se aprende o bom uso da liberdade. A Exortação Apostólica lembra que há inclinações maturadas na infância que impregnam o íntimo de uma pessoa e permanecem pelo resto da vida como tendência favorável a um valor ou como uma rejeição espontânea de certos comportamentos.

O aprendizado ético e moral no contexto educativo inigualável da família sustenta a vida, permeia atos e escolhas. Somente a instituição familiar tem propriedades para cumprir certas tarefas e metas na formação das pessoas, em razão de sua particular capacidade para alcançar e fecundar corações. De modo especial, é âmbito da socialização primária, em meio aos afetos mais profundos e tocantes, que possibilitam a aprendizagem da reciprocidade, do relacionar-se com o outro. Capacita para a escuta, a partilha, o respeito, a ajuda e a convivência.

A humanidade é convidada a compreender e a investir na força educativa da família, criando condições sociopolíticas, humanísticas e espirituais para que essa escola primeira seja qualificada e se mantenha como vetor para as grandes mudanças.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Aproximar-se da luz

O desafio de aproximar-se da luz é apresentado por Jesus no contexto de seu diálogo com Nicodemos, quando o Mestre indica a necessidade de nascer novamente. Nicodemos até pergunta, curioso, como é possível alguém nascer de novo se já é velho. A possibilidade desse recomeço, indica Jesus, depende de coragem e de disposição para se aproximar da luz, indiscutível referência a uma fonte inesgotável de valores morais e éticos. No diálogo entre Jesus e Nicodemos, o Mestre afirma categoricamente que quem pratica o mal odeia a luz porque não quer que as obras más sejam denunciadas. Renascer ou recomeçar é ter coragem de aproximar-se da luz para que seus raios iluminem as trevas. Para isso, é preciso buscar a verdade que liberta.

Hoje essa procura é urgente diante da gravíssima crise de valores. Clara é a convicção de que não se dará rumo novo à sociedade se não houver vigoroso investimento em energias morais.  A cultura do descartável justifica certa permissividade de só considerar como aceitável o que proporciona satisfação imediata. As instituições, como escolas, igrejas, Estado e família, são substituídas por outras referências na regulação moral e ética. Torna-se cada vez maior a sedução provocada pelo dinheiro, idolatria que arrebata e corrompe líderes políticos, construtores da sociedade, cidadãos. Isso provoca decepções diante da descoberta de inverdades dos que mostram uma face e, na realidade, têm outra, oposta àquela inicialmente apresentada. As relações econômicas incidem forte e determinantemente na subjetividade e, assim, a hegemonia da posse e do consumo obscurece consciências, produz uma visão de mundo equivocada e pouco humanística. Com isso, gostos absurdos, incompetências e polarizações expulsam dos cenários sociais e políticos figuras merecedoras de confiança.

Sem densidade para ancorar cidadanias, a cultura contemporânea torna-se incapaz de sustentar processos nos parâmetros da justiça, nos horizontes da solidariedade e da verdade.  Prevalece a ditadura de opiniões pouco fundamentadas. São buscadas saídas a partir da abominável execração do outro, ápice da imoralidade e da falta de ética. Verifica-se falta de alicerce para a prática política, essencial na sociedade. Sem conseguir cumprir a sua missão, a ação política torna-se palco de comércios, barganhas, meio para usufruir do dinheiro público. Os males que sustentam as crises precisam ser conhecidos e tratados adequadamente para debelar seus efeitos nocivos. Uma política sem qualidades humanísticas e cidadãs corrói, vergonhosamente, os direitos sociais. O respeito a esses direitos e conquistas deve ser parâmetro para avaliar a correção dos exercícios partidários e da cidadania em geral.

A desconsideração dessa referência explica o sucateamento de campos estratégicos, como educação e infraestrutura. Também influencia no crescimento da violência, particularmente entre os jovens, e na produção vergonhosa de uma multidão de pobres e de excluídos. A corrupção converte-se em nefasta cultura. Constata-se a sua presença não apenas no âmbito da política, mas em práticas religiosas, nas famílias, no mundo do trabalho. Significativos e lamentáveis são também os pequenos atos da vida cotidiana que corroem as relações sociais, enfraquecem instituições e fragilizam líderes. É urgente investir na ética.

Para trilhar esse caminho, prioritário é cultivar na consciência o compromisso de se buscar o bem comum e o exercício da solidariedade. Deve-se investir no diálogo, superar a tendência de se iludir, pensando que a simples execração do outro é suficiente para encontrar saídas para as crises. É hora da ousadia de buscar a comunhão e, por atos de magnanimidade, fazer das diferenças uma grande riqueza. A participação em um processo assim, antes e acima de tudo, inclui a coragem de aceitar e assumir, na própria conduta, a tarefa de aproximar-se da luz.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Cultura esgarçada

O maior e mais grave desafio da sociedade brasileira é recompor o tecido da cultura, cheio de buracos. Aí está um dos mais relevantes desarranjos a serem enfrentados para encontrar saídas diante dos muitos problemas que afligem o país. A cultura sustenta as dinâmicas da sociedade e, por isso, os muitos buracos em seu tecido são preocupantes. Não se pode deixar de constatar que a extrema fragilidade no mundo da política deve-se a este horrendo fenômeno: o esgarçamento da cultura. No conjunto de tudo o que precisa ser corrigido está a política partidária, atualmente uma das mais potentes ameaças ao tecido cultural. Fragilizado, esse tecido não contribui suficientemente para o surgimento de líderes capazes de apontar novos rumos e promover a união.

Pensar o Brasil, neste momento, não é apenas uma questão de intervenção no mundo da política. Incontestavelmente, isso se configura em necessidade urgente em razão do lamaçal que se permitiu formar. Contudo, é preciso ir além e considerar o seríssimo problema de ordem antropológica, que é mais abrangente. A cultura brasileira precisa de reparos, seu tecido carece de remendos para que não aumentem os rasgões. Necessita de investimento para recompô-la, permitindo-a sustentar dinâmicas exigidas pela complexidade da vida moderna. No palco das discussões e preocupações não podem estar simplesmente mudanças de poder partidário, nem mesmo o considerável e relevante cumprimento da Constituição. A sociedade brasileira precisa de algo mais: uma correção de relevância antropológica que qualifique a cultura, sustentáculo indispensável para o funcionamento social, configuração com capacidade para fazer surgir ações inspiradas no bem e na justiça.

Essa urgente necessidade precisa estar na pauta de todos os segmentos da sociedade. Não se pode ficar somente, e o tempo todo, vendo “o circo pegar fogo” na política. Desconsiderar a importância de reformular a cultura é assistir passivamente o suicídio de uma sociedade, com tristes consequências. Todos estão ameaçados diante dos graves desarranjos culturais, como a generalizada indiferença relativista, apontada pelo Papa Francisco na sua Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, relacionada com a desilusão e a crise de ideologias. Por um lado, há uma reação a tudo o que parece totalitário. Por outro, recrudescem-se os fundamentalismos, inclusive religiosos, que alavancam terrorismos de todo o tipo.  A vida social está prejudicada, portanto, não apenas pelos números da economia, mas, dentre outros fatores, por uma cultura em que cada um pretende ser portador da verdade. Isso compromete a cidadania, pois inviabiliza a união de cidadãos em busca de projetos comuns, necessários ao bem de todos, que estão além de simplesmente contemplar ambições pessoais.   

Os desgastes da cultura que a incapacitam na tarefa de sustentar o bem e a justiça têm uma lista enorme de razões. Consequentemente, para corrigi-la, várias atitudes precisam ser assumidas, a cada dia, e por todos. Uma exigência que pede, de todos os segmentos, urgente inovação para que possam contribuir na busca da solução dos problemas da contemporaneidade. É triste constatar que instituições - religiosas, governamentais, educacionais e tantas outras - continuem a funcionar como há trinta, quarenta anos, sem se atualizar. Gastam muito, inclusive tempo e a paciência alheia, e não trazem novas respostas. Não conseguem ser força para refazer o tecido da cultura e alavancar mudanças. As consequências são muitas e graves, a exemplo da crescente violência, claro reflexo do desgaste da cultura. O número de homicídios na capital mineira ultrapassa índices de guerra. No entanto, parece algo normal. Há lugares na região metropolitana que, em apenas uma noite, já se alcança o patamar de tolerância indicado pela ONU. Imagine se essa realidade for ainda mais temperada por fundamentalismos, pela cultura das facções e pelo ódio. A cultura brasileira não pode, inclusive, viver mais da ilusão de se considerar como pacata, de índole fortemente solidária e outros adjetivos que não correspondem aos cenários de desafeição, desrespeito e massacre, sobretudo dos indefesos e mais pobres. A situação é grave. Há de se incluir diariamente na pauta, e envolver, a partir de programas e ações, as instituições e segmentos todos da sociedade brasileira na recomposição do tecido de nossa cultura.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Rasgou-se o véu

 “Rasgou-se o véu do templo de alto a baixo, em duas partes!” O evangelista Marcos registra assim a morte de Cristo, o Salvador, com força simbólica, no contexto da narração da paixão de Jesus. Independentemente das diferentes e possíveis interpretações alusivas às rupturas com aristocracias políticas e religiosas, relativização de celebrações, tradições e cultos, firma-se o marco entre o antes e o depois. A história irremediavelmente passa a ser interpretada, entendida e contada de modo novo e diferente. Uma pessoa torna-se divisor de águas para o mundo. Emoldura o horizonte da humanidade com o singular jeito de ser do Messias, Profeta e Salvador. Rasga-se o véu do templo pela força do forte grito de Jesus que entrega o seu espírito. Ele morreu! Uma morte vencida pela força do amor misericordioso de Deus.

A história já não é mais a mesma. Abre-se nova perspectiva, balizada pela justiça e pelo amor, pela força de dinâmicas advindas dos valores do Evangelho, que inova e transforma. Por esses valores, o tecido cultural de cada sociedade pode ganhar - como já ganhou e ganha - nova qualidade e força de congregação. Mudanças que permitem reconhecer e respeitar a dignidade de toda pessoa. O cristianismo é incontestavelmente uma via qualificada por balizar-se no diálogo, na força de transformação das diferenças em riquezas e pela sagrada consideração da sacralidade de cada indivíduo. Exige, por isso mesmo, uma ambientação sociopolítica que jamais sacrifique ou funcione na contramão dessa dignidade maior. A fé cristã tem força que aponta permanentemente para um compromisso político e cidadão: privilegiar dinâmicas que façam da convivência social uma modelagem baseada nos parâmetros da paz e da justiça. Não há espaço para feições autoritárias, absolutistas, mecanicistas e de fácil manipulação, que ameaçam o bem comum.

A morte de Cristo é redentora e não, obviamente, um fracasso. É mergulho que resgata o ser humano para reabilitá-lo com força sustentadora e de plenitude. Neste dia, Sexta-feira Santa, os cristãos celebram a morte que fecunda a esperança, reestrutura compreensões e possibilita um entendimento que rompe as jaulas dos partidarismos, das miopias políticas e das estreitezas mesquinhas. A morte de Jesus é um horizonte novo, abertura para o desabrochar da vida. Uma conquista vitoriosa, que faz da morte uma porta de passagem para a plenitude. Oferece sentido ao viver em meio às circunstâncias desafiadoras da existência humana, inclusive as que se relacionam ao contexto social e político.

O poder político que provocou a morte de Cristo, redentora pela vontade de Deus, projetou os acontecimentos que rasgaram, com força simbólica, o véu do templo, “de alto a baixo”. E de alto a baixo está rasgado também o véu da cidadania no Brasil. A política, particularmente a partidária, na sociedade brasileira, fez precipitar um terrível rasgão. Urgente é recompor essa ferida terrível que alentou esquemas de corrupção e obscureceu a nobreza do exercício da política partidária e representativa.  Há um longo caminho a ser percorrido para recompor esse véu rasgado. O percurso exige competência política para alcançar a unidade cidadã capaz de dignificar os governantes, que devem ser representantes e servidores do povo.

Na escuridão que paira, está escondida a oportunidade para que se possa viver um recomeço.  Assim, é preciso procurar a solução capaz de garantir à política brasileira uma qualidade própria. Para além de radicalizações e desordens, a cidadania brasileira está desafiada a pautar seu caminho à luz de valores que proporcionem o exercício permanente do diálogo, evitando ódios e execrações vingativas. É preciso cultivar a abertura para encontrar saídas e novas respostas. Isso é tarefa de todos. Acima de tudo, pela representatividade e alto grau de responsabilidade, dos que integram os três poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário.  Cada pessoa está desafiada a contribuir, a partir da lucidez de diálogos, para vencer as artimanhas interesseiras e o caos político. Somente assim, a sociedade não se precipitará nos horrores e nos fundamentalismos. Que se consiga, com a participação cidadã, reconquistar a inteireza do véu que se rasgou de alto a baixo; seja preservada a democracia e, acima de tudo, o bem do povo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Trevas cobriam o abismo

 “A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam o abismo...”. Assim começa a narração do Livro do Gênesis, permitindo uma analogia com o atual momento político do Brasil. A política partidária instalou incontestavelmente o caos na sociedade. Está perdida a capacidade para o diálogo que gera consensos e entendimentos. Não paira, absolutamente, o Espírito de Deus no mundo da política. É uma escuridão que fomenta o caos - um “salve-se quem puder” que passa por cima do bem comum como um trator. Não há esperança de que a política partidária consiga, rapidamente, oferecer contribuições para os rumos da nação. A lista de desmandos, escolhas absurdas, interesseiras e manipulações é interminável. Comenta-se, em muitas esferas da sociedade, sobre a expectativa do surgimento de um líder político capaz de gerar agregação e apontar novas direções.  Isso parece ser difícil de ocorrer, justamente pelo atual cenário vivido pela política partidária. Quem seria capaz, agora, de reverter essa difícil situação? O mundo da política partidária no Brasil configura-se como um devastador desastre humano à semelhança das incidências horrendas que ferem o meio ambiente.

A deterioração da esfera política e o tratamento inadequado das questões ambientais se desenvolvem a partir da mesma raiz. Aqui vale relembrar as palavras do Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, quando se refere à nova idolatria do dinheiro. O caos vem dessa idolatria. É inexistente a nobreza de fazer política pelo bem comum, com o objetivo de ajudar a nação a alcançar patamares de civilidade e de funcionamentos que promovam, sem populismos, os seus cidadãos. A falta dessa nobreza é resultado de carência na formação humanística que ilumina intuições, capacita para o bem, muito acima do interesse de enriquecimentos ilícitos. O Papa Francisco afirma que “uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e nossas sociedades”. Essa verdade explica os desajustes no tecido da cultura, que delineia a identidade da sociedade e influencia suas direções.

O Papa Francisco oferece a chave de interpretação desse caos instalado que produz, por exemplo, a crise financeira que pesa sobre os ombros de todos. A base da desordem é a negação da primazia do ser humano. Esse colapso antropológico tem muitas feições. Descompassa relações, articulações de grupos e segmentos na sustentação de uma sociedade que deve se mover no horizonte da justiça e da solidariedade. É triste constatar o que ocorre na política partidária. O desejo de ocupar cargos públicos não vem acompanhado do sentido cidadão mais profundo de ajudar decisivamente na construção de uma sociedade solidária e justa. Trata-se de interesse doentio pelo dinheiro, para alimentar ilusórias sensações de poder e segurança. Uma ambição que produz essa economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano.

Ora, a idolatria do dinheiro é perigosa, gera ilusões e desgasta o mais nobre sentido da política, que é promover o bem comum. Essa idolatria é tão terrível que faz crescer, de modo generalizado, a sensação de que não há mais tempo para fazer o que é necessário. Isto fica explícito nas muitas lamentações e ladainhas exaustivamente propaladas.   O interesse mesmo é ganhar sempre mais, produzir menos. Nada de sacrifícios e esforços para alcançar o bem de todos. Uma luz precisa brilhar para iluminar essas trevas. E de onde ela pode vir? Em primeiro lugar, da corresponsabilidade e seriedade cidadã de cada indivíduo. Sistemicamente, essa luz pode e precisa brilhar com o fortalecimento, em seriedade e audácia, dos diferentes segmentos da sociedade - empresarial, religioso, judiciário, acadêmico e intelectual, artístico e outros mais. Cada setor, pela seriedade e honestidade, tem o dever de dissipar as trevas que preenchem o abismo onde está inserida a sociedade brasileira. Que venha de todas as pessoas e grupos, pelo compromisso com o bem, a justiça e a verdade, essa a luz que tem a força para resgatar o país do caos.

 Dom Walmor Oliveira de Azevedo

 Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Fermento leveda a massa

 “Um pouco de fermento leveda a massa toda!” Esta é uma lembrança pertinente do apóstolo Paulo diante de uma confusão estabelecida por divisões acirradas na comunidade dos Gálatas. Os conflitos naquele cenário encontravam justificativa e sustento até mesmo na Lei e nas práticas tradicionais. A comunidade não conseguia encontrar saídas, arquitetar consensos. Diante desse contexto, São Paulo adverte “se vos mordeis e vos devorais uns aos outros” não haverá soluções e reconstruções. No momento atual, não estaria, de alguma maneira, desencadeada essa dinâmica das agressões nos segmentos da sociedade brasileira, particularmente no mundo da política? A imprescindível necessidade de reconfigurar essa esfera no país parece ter caído na dinâmica das “mordidas e voracidades”.

Não se pode simplesmente pensar em construir nova sociedade com a destruição do outro. Essencial e eficaz é exercer a cidadania com o necessário reconhecimento da dignidade humana para, assim, corrigir os erros, reestabelecer a verdade e realinhar processos. Nesse sentido, é oportuno refletir sobre a orientação do apóstolo Paulo aos Gálatas, em busca da superação de descompassos que causam abalos na dinâmica da vida da comunidade. O apóstolo recorre a um dito simples que ajuda a compreender a responsabilidade de cada pessoa no zelo da própria consciência, exercício fundamental para que toda a sociedade trilhe novos caminhos. Ele recorda que “um pouco de fermento leveda a massa toda”. Pensando a respeito da sociedade, isto significa que cada cidadão precisa compreender que a sua própria conduta em diferentes âmbitos, particularmente no exercício profissional, religioso e representativo, tem amplo alcance na esfera coletiva.

“Jogar pedras e esconder a mão” não ajuda a sociedade a se reconstruir.  Os segmentos diversos precisam de orientação para alcançar horizontes mais amplos, palavras com força de agregação que efetivem as mudanças urgentes. Obviamente que há segmentos com responsabilidade maior nessa tarefa de construir a necessária proximidade. Não é pequena, por exemplo, a tarefa do setor religioso e confessional, por suas instituições com força para orientar e agregar, motivar articulações e, assim, estabelecer processos que podem gerar, com maior velocidade, respostas adequadas às crises instauradas.  Certamente, o Brasil carece mais dessa palavra incidente e agregadora, que não está no domínio de “um salvador da pátria”. As regionalidades desse país com dimensões continentais podem muito contribuir a partir de seu tecido cultural e de suas tradições, pois são capazes de inspirar articulações entre a representação política, líderes religiosos, culturais e artísticos, empreendedores e, obviamente, todo o povo.  Essa união é capaz de formatar novos hábitos, agendas e pautas com mais pertinência no enfrentamento de problemas.

Na contramão desse caminho estão as formas de participação política que se reduzem a partidarismos. Ora, as soluções para os muitos problemas não estão apenas nos âmbitos governamentais. Há saídas simples que acabam perdidas por falta de competência, esforço individual, excesso de comodismo e preguiça, estreitamento de horizonte. Situações que encastelam os indivíduos, os grupos e as instituições na mediocridade. Cada cidadão não pode apenas criticar, como se estivesse fora da “massa”. É preciso e determinante se compreender como “fermento” capaz de “levedar toda a massa”. Eis, pois, um extenso e exigente processo de reeducação na cultura brasileira, que exige análises e, sobretudo, a coragem de se fazer algo não simplesmente para si, mas para toda a comunidade.

Sem dispensar segmento algum, é preciso que, especialmente a classe política, em razão de sua representatividade, consiga dialogar e, verdadeiramente, buscar o bem do povo. Para isso, o parlamento, entre outras mudanças necessárias, deve deixar de ser palco de “gladiadores” que lutam por interesses particulares, cartoriais e partidários. De maneira simples, à luz da própria consciência, presidida por princípios éticos e morais, em todas as circunstâncias, os cidadãos todos são convocados a se compreender, nas suas atitudes, nos seus exercícios, como “fermento que leveda a massa”.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


O preço da cultura

As crises que pesam sobre os ombros da sociedade, sacrificando os cidadãos, precisam ser enfrentadas, mas não de modo qualquer. Sua superação exige a permanente consideração do tecido da cultura, substrato que alicerça a determinação na busca de soluções, na elaboração de respostas e na configuração de um modo cidadão de ser que empurre o conjunto da sociedade na direção da justiça almejada, da paz sonhada e dos equilíbrios políticos sociais.

Quando comprometida a qualidade do tecido da cultura, o caminho é percorrido em areia movediça, com surpresas desinteressantes e com pouquíssima resiliência para se alcançar metas com força de efetivar novos cenários. Não basta, por isso mesmo, que o esforço de dar nova dinâmica à economia, com a superação dos seus descompassos em desempregos, desigualdades, corrupção e indiferenças, se faça pela via dos números. Por critérios frios na definição das taxas de juros, da lucratividade ou fortalecimento egoísta de setores. 

O Papa Francisco, nesse horizonte, reforça a importância dessa compreensão com uma advertência pertinente. Na Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, no capítulo segundo, sobre a crise do compromisso comunitário, sublinha a responsabilidade de cada cidadão. É preciso que cada pessoa, particularmente os formadores de opinião, construtores da sociedade, intelectuais e religiosos, assuma o compromisso de indicar soluções eficazes para as crises e os problemas. E mais, adverte a todos pelo desencadeamento dos processos de desumanização que podem se tornar irreversíveis, dentre eles, o da violência que permeia todos os âmbitos de nossa vida em sociedade.

Nesse contexto, vale refletir com profundidade sobre as várias faces dessa violência, desde a doméstica, com estatísticas absurdas de agressões a mulheres, crianças e idosos, silenciada na privacidade dos lares, às sofridas pelos cidadãos e que atentam contra a inteireza da dignidade humana, até aquelas perpetradas com inteligência doentia nos atos de terrorismo, na corrupção e pelas grandes organizações criminosas.

Os progressos atuais da humanidade são incontestáveis em vários campos do saber tecnológico e da cultura, mas ainda não são capazes de fazer frente a essa triste realidade. São igualmente desafiadoras a exclusão social e a pequenez na estatura cidadã, que precisa urgentemente alavancar processos de mudanças e operacionalizar ações que tenham força para transformar a realidade que hospeda a cidadania no conjunto da sociedade contemporânea.

Vale-nos reportar ainda ao Papa Francisco, na citada exortação apostólica, quando constata o desvanecimento da alegria de viver, em consequência do recrudescimento da violência e da falta de respeito, patentes especialmente na imensa desigualdade social. Prova da incompetência de governantes e de segmentos variados da sociedade, na efetivação das mudanças capazes de reconfigurar os humilhantes cenários que atingem frontalmente a cidadania.

Os saltos velozes, qualitativos e quantitativos, verificados no progresso científico e nas inovações tecnológicas, nos diferentes âmbitos da natureza e da vida precisam contar com a qualidade do tecido da cultura, do qual cada cidadão é portador. Esse tecido cultural, como substrato no caráter e na compreensão do mundo, é determinante para que tenha impacto em cada cidadão de modo a formar os sentidos comunitário e social que deem rumos novos e soluções às crises.

A exemplaridade da cultura mineira, que se desdobra em muitas, convence e explicita o quanto a qualidade do tecido cultural alavanca possibilidades enormes de progresso, pelos valores em tradição, patrimônio, religiosidade, e até na culinária e nas dinâmicas familiares. Patrimônio que exige tratamento adequado por parte de todos, particularmente de seus líderes. Não se pode pensar que o conjunto de uma sociedade regional ou local se desenvolva e aposte em outros crescimentos, esperando que os recursos “caiam do céu”. Ou ainda, que os investimentos venham de fora, criando relação de submissão a novas formas de poder, muitas vezes anônimo.

A cultura é um capital da mais alta relevância no desenvolvimento e nas transformações urgidas pela realidade.  Uma sociedade, como a mineira, precisa debruçar-se mais sobre os seus segmentos, da história às expressões variadas, da geografia aos seus monumentos e ao jeito de ser do povo, para contabilizar os preços dessa rica cultura. Em razão, especialmente, das necessidades de desenvolvimento, de soluções dos problemas urgentes e do desenho de novos cenários é indispensável que nosso tecido cultural tenha mais investimento em educação, consciência social e político cultural. É preciso ir além das lamentações, das constatações e da falta de força nas ações.

O tecido da cultura existente pode ser o “pé de apoio” para se dar um salto adiante e não enjaular-se na mediocridade de alguns governantes, líderes religiosos, intelectuais. Mergulhados e afogados na burocracia, não apostam em processos e projetos, não valorizam a oportunidade de estar e de ser parte dessa cultura chamada sociedade mineira. Assim, paga-se o preço de não avançar e de habituar-se a estilos acanhados demais, vivendo na pobreza, apesar de fazermos parte de uma história de grandes riquezas e sermos detentores de um patrimônio singular em sua relevância.

A cultura expressa nos hábitos, na consciência histórica e política, na valorização “quase bairrista” do nosso patrimônio com sua inteligente utilização e cuidado, é a alavanca para mudar e fazer crescer, com força maior do que os royalties e certos “dinheiros”, redimindo, assim, dirigentes, lideranças - cidadãos todos - da mediocridade. É hora de buscar novos rumos e respostas.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


 

Olhares sobre o Brasil

Os olhares sobre a realidade brasileira, que é complexa e plural, devem ser muitos e com grande acuidade. Uma visão estreita é incapaz de perceber as muitas necessidades, de enxergar os caminhos que devem ser seguidos para sair das crises deste tempo. Os olhares têm que avançar para além do território das opiniões ou das listas de lamentações. Também não podem focalizar apenas as atribuições e responsabilidades dos outros, como tática para eximir-se das próprias tarefas. A visão míope de um segmento pode significar atrasos em processos e graves prejuízos, com consequências irreversíveis.

Analisar a realidade é exercício que requer conhecimento e adequada interpretação para configurar a indispensável corresponsabilidade de todos os cidadãos na construção de uma sociedade solidária, alicerçada na cultura da justiça, da paz e do respeito incondicional à dignidade de toda pessoa.

Assim, todos estão desafiados a reavaliar seus conceitos e colaborar com as transformações urgentes e com ações mais eficazes. Sem essa premissa, há o risco de se supervalorizar a própria atuação, achar que já se faz muito, que os trabalhos atendem às expectativas. Afinal, não seria pela prevalência dessa ilusão que a política na realidade brasileira, particularmente a partidária, convive com a incapacidade para apontar novos rumos e promover o diálogo entre cidadãos?

Há uma miopia crônica generalizada, salvaguardadas as exceções. Isso se comprova na incompetência de grupos diversos para debelar processos que alimentam a corrupção, a indiferença em relação aos mais pobres. Também é sinal da falta de visão, nos setores público e privado, a timidez para investir em projetos capazes de promover novas dinâmicas que contribuam para se alcançar uma sociedade mais igualitária.

Não basta apenas planejar bem o próprio negócio. Há um modo necessário de se olhar a realidade, por meio de valores inegociáveis, de princípios, de sensibilidade política e cultural, que audaciosamente remete cada cidadão à direção do bem comum. A partir dessa visão, as ações fundamentam-se no amor, e não se reduzem às estratégias de pequenos grupos que reforçam a segregação econômica, social, política, cultural e até mesmo religiosa.

Assim, os dias da Quaresma oferecem oportunidade importante: a vivência da Campanha da Fraternidade deste ano. Trata-se de exercício ecumênico que nasce da fé cristã, nas diferentes confissões religiosas, para articular experiências e, dessa forma, contribuir com o contexto socioeconômico, político e cultural. Quem crê em Cristo não pode apenas usufruir das consolações espirituais, ou se restringir a arrumar os próprios ambientes, projetos e templos. É compromisso que nasce da fé contribuir mais decisivamente na transformação da realidade.

Por isso, os cristãos no Brasil devem, a partir da Campanha da Fraternidade 2016, configurar uma experiência ecumênica capaz de transformar a realidade.  O que se objetiva não é a organização de bancadas no parlamento, nas assembleias, na simples defesa de interesses corporativos, pessoais, com fechamentos e dogmatismos que desconsideram o diálogo indispensável em uma sociedade plural. Busca-se agir a partir da misericórdia, que não negocia jamais a ética e a moralidade, e também não passa o trator em cima de ninguém em nome de Deus.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, na promoção da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016, com o tema “Casa Comum, nossa responsabilidade”, empenham-se na tarefa de fazer ecoar o apelo que pede união entre os cristãos, para além de suas diferenças, em torno da defesa e promoção da vida.  O saneamento básico, no horizonte de uma alicerçada ecologia integral, é a bandeira que se quer erguer, inspirando outros segmentos da sociedade. Com os cristãos de mãos unidas, a realidade brasileira pode mudar.  Nessa direção, as confissões religiosas estão desafiadas a contribuir para que a fé ilumine e inspire os olhares sobre o Brasil.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Cultura da solidariedade

Considerar a importância da cultura na formação de processos sociais, políticos, religiosos e cidadãos é determinante, pois o conjunto de valores, princípios e hábitos constituem vetor que pode impulsionar projetos, avanços e possibilidades de conquista. Isso significa que o enfretamento de crises depende dos elementos culturais que caracterizam grupos diversos – sociais, religiosos, entre outros. Assim, é fundamental investir na cultura, desenvolver análises, avaliações e promover correções. Não basta, por exemplo, alcançar o objetivo desafiador de melhorar índices da economia. Para avançar, inclusive no campo econômico, é preciso considerar a força dos valores culturais de um povo, com incidência forte e profunda nos diversos processos.

Nesse sentido, o Brasil e suas regiões precisam de investimentos no tecido cultural. Não se pensa obviamente numa radical mudança, como se diz popularmente, “da água para o vinho”. Porém, pela força da cultura, grandes conquistas podem ser alcançadas. E entre as reformulações culturais necessárias, é preciso investir na renovação dos valores que regem o exercício da política na sociedade brasileira. Os parâmetros que muitas vezes norteiam esse âmbito da vida social são considerados equivocados, pois distorcem o correto exercício da política, que é determinante para o bem comum, para o desenvolvimento da sociedade.

Semelhante reflexão, quando aplicada a certas práticas religiosas, também permite enxergar grandes fragilidades, que causam o distanciamento do propósito nobre e edificador na confissão da fé. São lamentáveis e preocupantes as permissividades irracionais na configuração normativa que possibilita a abertura de algumas “igrejas”. Muitas se dizem comprometidas com a prática religiosa, mas, na verdade, priorizam o atendimento de interesses econômicos. Isso revela que o tecido cultural brasileiro produz facilidades ou dificuldades que ferem frontalmente metas importantes e comprometem a seriedade necessária para o desenvolvimento da sociedade.

Se, por um lado, qualificado tecido cultural produz práticas, costumes e posturas cidadãs determinantes no progresso e equilíbrio social, sustenta a nobreza no agir de grupos; por outro lado, um tecido cultural corrompido é base para o nefasto costume de satisfazer-se e aquietar-se com o que está situado nos parâmetros da mediocridade. Para corrigir descompassos, oportuno é ouvir uma indicação preciosa do Papa Francisco sobre a importância de se investir na cultura da solidariedade. Nesse sentido, a solidariedade há de ser entendida como virtude moral e comportamento social.

Para se alcançar ou promover a cultura da solidariedade, é necessário o empenho pessoal de conversão. Consequentemente, cada cidadão, instituição e segmento social precisa assumir, a partir de conduta condizente com os valores dessa cultura, um papel formativo com força de transformação. De modo especial, é importante que as condutas orientadas pelos valores da solidariedade estejam presentes na família, onde primeiramente são experimentados, ensinados e aprendidos os valores do amor e da fraternidade. Eis, pois, um ambiente que deve reunir experiências e dinâmica vivencial que eduquem e configurem um tecido qualificado.  A instituição familiar é imprescindível para promover e sustentar novos processos capazes de definir os rumos da sociedade.

Uma nova dinâmica cultural requer a promoção da solidariedade. O enfrentamento das crises pede que cidadãos comuns, agentes culturais, meios de comunicação, famílias e outros segmentos se unam e partilhem a consciência de que a direção fundamental a ser seguida é investir na cultura da solidariedade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Cristãos de mãos dadas

A Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016, durante o percurso quaresmal, busca unir os cristãos a partir de um assunto urgente, que diz respeito a todos os cidadãos, independentemente de condição social, opção político-ideológica e razões pessoais. Congrega o esforço missionário, quase cinquentenário, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o compromisso cristão do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs. O olhar comum dessas instituições, fixado em Cristo Jesus - todos tocados pelo valor inestimável do sangue derramado na cruz para a redenção da humanidade -, desenha um horizonte que faz ultrapassar as diferenças e até mesmo as discordâncias para configurar gesto significativo, de grande repercussão social e política: cristãos de mãos dadas. 

Essa experiência de cooperação e intercâmbio rege-se por indicação preciosa dada pelo Papa Francisco na sua Carta Encíclica Louvado Sejas, que inspira o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016: toda a humanidade deve voltar o olhar para a “Casa comum, nossa responsabilidade”. E os cristãos, que exercem a cidadania nos alicerces da fé em Jesus, têm evidentes responsabilidades quando se trata desse tema. A compreensão cristã de mundo requer uma postura singular no tratamento dos dons e bens da “casa comum”. É assim desde os primórdios do cristianismo, quando, conforme narração do capítulo dois, nos Atos dos Apóstolos, logo após as primeiras conversões, “todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum, vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um”.  Um tempo novo que nasce pela força da fé.

Cristãos que caminham de mãos dadas na vivência da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016 é ato que ultrapassa o alcance de um evento com seus desdobramentos possíveis. Trata-se de possibilidade singular para um novo exercício com poder de qualificar o tecido antropológico que sustenta o funcionamento da sociedade. Esse tecido é de qualidade comprometida, o que se comprova no âmbito das crises que se abatem sobre a sociedade brasileira, particularmente na esfera política, que mais evidentemente expõe a carência de certos valores e princípios e, por isso, não consegue oferecer respostas adequadas. Na contramão disso, essa esfera alimenta encaminhamentos que abrem brechas para o crescimento das diferentes formas de violência e reforça posturas egoístas – a busca de soluções apenas para problemas particulares. 

Não é simples promover uma Campanha da Fraternidade Ecumênica como a deste ano. É preciso grande esforço para vencer preconceitos, resistências e autodefesas que encastelam grupos, segmentos e confissões religiosas na mediocridade, doença contagiosa que se alastra nas instituições diversas.  Posturas medíocres inviabilizam a clarividência necessária para, a partir do diálogo, superar atrasos. Agravam os problemas que, para serem solucionados, demandam de cada cidadão, de diferentes setores e, particularmente, de governantes, de formadores de opinião, de acadêmicos e de intelectuais, adequada compreensão a respeito do ser humano e da criação. No horizonte desafiador da responsabilidade com a “casa comum”, a meta da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016 é a união de esforços com o objetivo de assegurar o direito ao saneamento básico para todas as pessoas. Busca também, à luz da fé, a promoção de políticas públicas pautadas pela responsabilidade cidadã com a “casa comum”. É a fé cristã a impulsionar segmentos diversos para promoverem a efetivação do direito ao saneamento básico, o que reúne questões fundamentais, como a ampliação do acesso à água tratada e a garantia de que comunidades diversas sejam contempladas com eficazes sistemas de esgoto. Essas prioridades constituem forma efetiva para combater a pobreza, reduzir a mortalidade infantil e garantir a sustentabilidade ambiental. 

Com a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016, a fé cristã ilumina a realidade, cria a oportunidade para contribuições que vão além dos templos e dos seus cultos. Impulsiona o contexto social e político rumo a novas direções. Sonha-se, pois, com o testemunho ecumênico - na contramão de todo tipo de competição e proselitismo - como investimento no diálogo, à luz da fé em Cristo. Um compromisso que promove a congregação dos cristãos para o intercâmbio de experiências, a partilha de convicções e a efetivação de novas práticas, em âmbitos pessoal, familiar, institucional e governamental. Tudo para que se construa o sonho de Deus: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24). Isso é possível quando caminham os cristãos de mãos dadas.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Badalem os sinos

Os sinos badalaram para anunciar o início da 21ª Conferência do Clima (COP21), que ocorre em Paris, como um possível broto de esperança que nasce do tronco seco, cenário preocupante do aquecimento global. Essa imagem, que se inspira nas palavras do profeta Isaías, é oportuna neste tempo do Advento, pois faz ecoar a convocação para inadiáveis transformações. Mudanças que dependem da conduta individual de cada pessoa e também da lucidez dos líderes mundiais. A meta de todos deve ser a efetiva busca para frear a deterioração do meio ambiente.

O aumento da temperatura do planeta é o desenho gradativo de prejuízos ainda mais dramáticos para a humanidade. Os chefes de estado reunidos têm uma tarefa crucial: assumir e cumprir metas, de modo efetivo. Até agora, os esforços foram sempre pequenos, diante das demandas que pedem ações mais radicais. Essa fragilidade da governança mundial alimenta interesses arbitrários e pouco humanistas, dinâmicas que desrespeitam o meio ambiente. As muitas devastações, que passam por cima de tantos como um trator, são o resultado.
A consideração das estatísticas indicadas por peritos e cientistas alarma. É uma pena que essa grande preocupação ainda fique restrita ao ambiente acadêmico, auditórios, reuniões e conferências. Se o conhecimento não se transformar em ação, a tendência é tudo continuar do mesmo jeito. Novos hábitos e posturas, capazes de substituir um estilo de vida fundamentado no consumismo, por exemplo, são urgentes. Badalem os sinos da consciência para provocar efetivas mudanças.

Apesar de decisivo, não bastará o controle da emissão de gases poluentes. Isso já é uma batalha gigante porque, irresponsavelmente, os que têm a obrigação de reduzir a poluição na atmosfera não cumprem as metas assumidas. O desafio maior é que todos - chefes de estado, líderes religiosos, políticos e culturais e os cidadãos – cultivem uma espiritualidade com força de convencimento interior capaz de incidir na consciência. No recôndito só acessado pelo indivíduo e por Ele, Deus, é preciso fazer germinar a compreensão de que o consumismo pode seduzir, convencer e arrastar, cegar e dominar os corações. Quando consumir sem reflexão torna-se parâmetro de vida, são desencadeados processos de abominável submissão. O ser humano passa a enxergar-se, a ver aspectos importantes da vida - como o lugar onde mora, o trabalho, o lazer, enfim, tudo - de maneira equivocada.  Em detrimento da interioridade, ganha valor o que está no lado de fora. Com isso, o ser humano é empurrado em direções equivocadas, rumo a verdadeiros abismos.

As estatísticas e pesquisas científicas têm importância determinante, assim como as definições de parâmetros e índices de funcionamentos estabelecidos nos âmbitos governamentais. Há, no entanto, uma urgente necessidade de transformar hábitos diários, todos eles, de cada cidadão, para configurar um tempo novo, na contramão do perigoso caminho que se está trilhando. Já se paga alto preço pela degradação ambiental e os prejuízos podem ser ainda mais graves nas décadas vindouras.

Badalem os sinos da consciência para que se passe dos discursos acadêmicos, científicos, políticos e até religiosos para práticas simples e incidentes, efetivamente sustentáveis, no conjunto da vida de cada um, do amanhecer ao pôr do sol. Assim será possível debelar as irracionalidades que produzem prazeres efêmeros e amarguras duradouras. Sem uma fecunda espiritualidade, as discussões e os propósitos governamentais não surtirão os efeitos esperados.

O investimento nessa espiritualidade requer a consideração da família, da escola, das igrejas na sua capilaridade comunitária, dos ambientes de trabalho, das instâncias todas dos diferentes segmentos da sociedade.  Todos esses espaços devem estimular dinâmicas de funcionamento sustentável, promover a reeducação ecológica. Enquanto isso, cada pessoa deve rever a lista de prioridades, avaliar o que de fato conta e é indispensável. Esse exercício deve ter força de incidência nas práticas relacionadas ao consumo, nas programações diversas - mesmo as tradicionais - e no cultivo do gosto pela simplicidade.

Importante retomar o que diz o Papa Francisco na sua carta encíclica sobre o cuidado da casa comum, em vista de uma espiritualidade que transforma: “Admirável é a criatividade de pessoas e grupos que são capazes de dar a volta às limitações do ambiente, modificando os efeitos adversos do condicionalismo e aprendendo a orientar a sua existência no meio da desordem e precariedade”. Como apelo para a espiritualidade, a consciência, badalem os sinos. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Misericórdia e compaixão

A Igreja Católica prepara um percurso de grande importância: a celebração do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco. Trata-se de um momento especial, celebrado no âmbito das comunidades de fé, que deve ecoar em todo o mundo, para vencer as muitas violências - física e moral, a corrupção e também a permissividade que contracena com a rigidez de grupos, alimentando fundamentalismos religiosos, políticos e culturais. A vivência desse tempo é oportunidade para tratar feridas que atingem a sociedade como um todo, inclusive a própria Igreja. O remédio para essas enfermidades é a prática da misericórdia.

A audaciosa convocação do Ano Santo da Misericórdia comprova a intuição singular do Papa Francisco no exercício de sua missão. É pelo caminho da misericórdia que a humanidade alcançará as mudanças e respostas que a contemporaneidade espera, com urgência.  É remédio incidente. Pode ocorrer de se pensar, equivocadamente, que agir de modo misericordioso se trata de fraqueza e conivência. Mas, assinala o Papa Francisco, reportando-se a palavras de Santo Tomás de Aquino, que a misericórdia não é sinal de fraqueza, é qualidade da onipotência divina. 

O início do Ano Santo da Misericórdia será marcado pela abertura da Porta Santa em Roma, pelo Papa, no dia 8 de dezembro. Nas dioceses do mundo inteiro, no domingo seguinte, dia 13. Essa Porta será aberta para que qualquer pessoa possa entrar e experimentar o amor de Deus que perdoa, consola e dá esperança. Isso significa que a vivência da misericórdia permite regeneração e nova compreensão da vida, um olhar compassivo sobre a humanidade, na direção de cada pessoa. Torna efetiva a possibilidade de se alcançar novos sentimentos e um jeito de viver capazes de desenhar cenários na contramão da violência, da corrupção, da luta insana pelo poder e pelo lucro.

A experiência da misericórdia alimenta a esperança. Permite a compreensão lúcida da fraternidade e da solidariedade como pilares indispensáveis da sociedade. Bases que devem substituir a lógica perversa da economia que gera ganância, raiz de um “desenvolvimento” que recai como peso sobre os ombros de todos, particularmente dos pobres e indefesos.  Para encontrar um rumo novo, todos são convocados a compreender que Deus é misericordioso, fonte da misericórdia. E Jesus Cristo é o rosto dessa misericórdia do Pai porque n’Ele, Jesus, a misericórdia se tornou viva, visível e chegou ao seu ápice.  Esse é o mistério da fé cristã.

Ser cristão é, portanto, contemplar o mistério da misericórdia, revelado por Jesus Cristo, fonte da alegria, da serenidade e da paz. Uma interpelação incidente, pois permite reconhecer que a misericórdia é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao encontro de todos. Pertinente é a indicação do Papa Francisco, quando sublinha que “a misericórdia é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação de nosso pecado”. 

Coluna mestra de sustentação da Igreja, a experiência da misericórdia é indispensável para conseguir respostas novas e transformadoras, diante dos desafios da atualidade.  Sem o remédio da misericórdia, crescerão os fundamentalismos, não se controlará a intolerância, haverá sempre mais polarização de grupos políticos e religiosos, um contínuo desgaste da cultura da vida e da paz.  Investir na misericórdia começa pela competência indispensável de perdoar, como Jesus indicou a Pedro, ao responder a sua pergunta a respeito de quantas vezes deve-se perdoar. O perdão é núcleo central do Evangelho e da autenticidade da fé cristã. Por isso, Jesus mostra que a misericórdia não é apenas o agir de Deus Pai, mas é o verdadeiro critério para reconhecer quem são os verdadeiros filhos de Deus.

O Ano da Misericórdia, experiência de fé na Igreja, com incidência na vida das famílias e comunidades, marcado por testemunhos, significativos gestos de reconciliação e perdão, é necessário para se alcançar nova etapa no cuidado das fraquezas e dificuldades dos irmãos.  Um convite para que se busque a sabedoria da misericórdia.  Em lugar de violência e disputas, que surja um tempo novo, pela força da misericórdia e da compaixão. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Convite para a Missa de 34º ano de falecimento da Serva de Deus Benigna Victima de Jesus>

Ética e sustentabilidade

A capital mineira tem a singular oportunidade de receber, entre os dias 30 de setembro e 2 de outubro,  o Congresso Mundial Uniapac e o  Seminário Internacional de Sustentabilidade. Esses eventos têm marcas e balizamentos que sublinham diferenciais muito evidentes. Reúnem empresários que pautam suas atividades e empreendimentos por valores cristãos.  São gestores que integram a União Internacional de Dirigentes Cristãos de Empresa (Uniapac) e, em âmbito regional, a Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas (ADCE). Investem no desenvolvimento humano integral, na verdade e na caridade. Trata-se de grande diferencial, pois o crescimento econômico sem parâmetros como a ética e a sustentabilidade leva a situações que comprometem seriamente a humanidade.

Esses grandes encontros são, pois, um facho de luz sobre sombras que pairam nos horizontes empresariais. Há um enorme desafio a ser enfrentado: eliminar a união entre os descompassos da política e as razões ilegítimas de empreendedores, fonte de corrupção. Essas sombras trazem prejuízos incontáveis, conhecidos e lastimáveis para a vida do povo. O Congresso e o Seminário são valiosas oportunidades para renovar o compromisso de se trilhar o caminho do bem comum. A simples presença dos empresários constitui o esforço desses participantes de se trabalhar para construir uma nova dinâmica para o empreendedorismo na sociedade contemporânea. Também é antídoto contra o risco, sempre existente, de deixar-se mover por outras lógicas distantes da ética e da sustentabilidade. Renova-se, assim, o empenho para construir um mundo melhor, que não se edifica simplesmente a partir da lógica do lucro.

A rentabilidade buscada não pode se desvincular da responsabilidade social, sob pena de se eleger lógicas perversas do mercado como guia das escolhas, vitimando o planeta, a “casa comum”, com inúmeros descompassos: os focos de guerra e o desrespeito aos refugiados, o descaso com os excluídos que vivem nas ruas das cidades e com os pobres que estão no cinturão das protegidas áreas ocupadas pelos mais ricos e por quem deveria ser protagonista na construção do bem comum.  O Congresso Mundial Uniapac e o Seminário Internacional de Sustentabilidade podem oferecer respostas indispensáveis diante da urgência na elaboração de novas pautas e na adoção de critérios para juízos adequados, escolhas inteligentes e éticas. O horizonte cristão desses eventos será possibilidade de iluminação: o inspirador propósito de buscar novos caminhos para maior cooperação entre governo, terceiro setor e empresários, visando à melhoria das relações sociais, à construção de uma economia sustentável e inclusiva e a uma sociedade ética com foco no ser humano e no bem comum.

Esses objetivos não se alcançam apenas passeando pelos números. Deve-se priorizar cada pessoa. A inspiração cristã, comprometimento da Uniapac e ADCE, com o importante suporte da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, atrai empresas e empresários para um singular momento de reflexões. É genuína contribuição que pode e já faz a diferença em tantos ambientes, na reconfiguração de lógicas de governar e empreender. 

A dinâmica dos números, os arranjos indispensáveis para as organizações, a clarividência necessária aos gestores e o olhar com sensibilidade social têm duas valiosas referências de ensinamentos cristãos: a Carta Encíclica do Papa Emérito Bento XVI, Caritas in Veritate - sobre o desenvolvimento humano integral, e a Carta Encíclica do Papa Francisco, Laudato Si’ - sobre o cuidado da casa comum.

A leitura dessas publicações é recomendada aos participantes dos encontros como preparação prévia, pois pode fecundar o terreno onde sementes qualificadas serão lançadas a partir das palavras de competentes e relevantes conferencistas. Os textos também trazem ricos ensinamentos para todos os cidadãos.  A bem arquitetada organização do Congresso da Uniapac e do Seminário de Sustentabilidade é um investimento esperançoso e consistente. São redes novas lançadas em tentativas mais audaciosas de avançar rumo aos luminosos ensinamentos do Evangelho de Jesus Cristo. Uma solução inteligente para graves problemas sociais capaz de superar distâncias que existem em razão do desconhecimento do Evangelho e de sua força criativa e humanitária. A construção de um mundo melhor, incontestavelmente, é uma meta alcançável quando se trilha o caminho da ética e da sustentabilidade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Da rua à casa de clemência

O Santuário Nossa Senhora da Piedade recebeu uma visita especial nesta semana preparatória para a festa da Padroeira de Minas Gerais, celebrada neste segundo domingo de setembro, dia 13. Muitos que vivem na rua acolheram o convite e, acompanhados pela Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte, peregrinaram ao Santuário. A expressão de um dos peregrinos, ao dizer que por si só seria impossível chegar ao alto daquela montanha, toca o conjunto dos desafios da vida de todos os enfraquecidos e vítimas de exclusão social. 

São muitas as causas da situação excludente que marca a realidade dessas pessoas - que são cidadãs. Cada um tem sua história, mas no coração de todos há um sonho: a conquista de uma vida minimamente digna, a começar pela superação dos sofrimentos que são consequência da discriminação. A peregrinação desses excluídos da sociedade coloca em evidência a necessidade de posturas mais comprometidas, a exigência da participação de todos os cidadãos, para transformar essa realidade. Comprometimentos que possam estar para além de políticas públicas compensatórias e pouco emancipatórias. Iniciativas que, lamentavelmente, surgem mais como argumento eleitoreiro, ou justificativa de opção partidária, ajudando a compor cenários de uma sociedade que não sabe cuidar de seus pobres. 

Os moradores de rua, consideradas as suas condições, são a comprovação de que a alegria falsamente vivida em outros setores da sociedade está ruindo. E, no “salve-se quem puder”, acredita-se que o amparo e o bem-estar podem ser alcançados a partir da idolatria ao dinheiro. Porém, como bem sublinha o Papa Francisco, na base da crise econômica está uma séria crise antropológica, a desconsideração da primazia do ser humano. A situação dos moradores de rua, entre tantas outras, é o retrato do desrespeito a essa primazia. Trata-se de fruto da tirania do lucro, lógica que conduz o cidadão à insensatez de, desenfreadamente, procurar ganhar e ajuntar mais, riscando de sua agenda o compromisso da partilha. Trilha-se caminho na contramão da solidariedade, que é remédio para corrigir os descompassos nos funcionamentos da sociedade. 

No centro da situação vergonhosa de exclusão, torna-se oportuno lembrar o que disse São Vicente de Paulo. Cada pessoa deveria sentir vergonha de si ao encontrar um pobre e miserável. Assim, todos se empenhariam mais no apoio a projetos sociais, trabalhariam para mudanças mais rápidas nos cenários de exclusão que exigem atitudes efetivas de instâncias governamentais, instituições religiosas, academias e das famílias que estão na outra ponta, distantes dos pobres, no esbanjamento. O Papa Francisco, com gestos concretos, diante do tratamento inadequado recebido pelos imigrantes no contexto europeu, pede a atitude cidadã de se estender a própria mão. Apresentar ofertas que efetivamente produzam diferenças nesses quadros que compõem a crise humanitária, mais grave do que a econômica. 

A peregrinação dos moradores de rua ao Santuário Nossa Senhora da Piedade e a acolhida a eles oferecida  constituem profética e interpelativa cena, formada pela magnífica arquitetura divina e a presença dos esquecidos, os mais pobres. Um cenário que mostra a urgência de se promover a inclusão, com inventividade e coragem. Pode-se começar, justamente, pela escuta dos corações de quem é excluído. Eles guardam sabedorias que, retomadas e assimiladas, podem apontar o caminho de saída dessa grave crise humanitária e antropológica. 

Oportuno é deixar-se envolver pela presença abandonada dos moradores de rua. Convidá-los para estarem nas salas das escolas e universidades, dos escritórios, nas cortes, nas igrejas, nas mesas das famílias e nos recintos de festa. Assim, se investe na criação de uma nova sensibilidade que fortalecerá a cultura humanística. Chovia e fazia frio no dia da peregrinação dos moradores de rua ao Santuário da Padroeira de Minas Gerais. Um disse que não se importava, pois ali era o céu. O céu pelo acolhimento dado, por ter experimentado o gosto gostoso de saber-se igual e digno na casa da Mãe da Piedade, a casa de clemência. A sociedade precisa viver um novo tempo: de acolher, ouvir, partilhar, renunciar e oferecer, a partir de gestos corajosos e proféticos, simples, singulares ou sistêmicos.  É hora de clemências! 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Ousadia da Catedral

A construção da Catedral Cristo Rei é realmente uma ousadia que tem força para contribuir com transformações culturais necessárias à sociedade. A ousadia diz respeito ao fato de se construir a Catedral sem “verbas carimbadas” ou dinheiro de sobra. É uma obra da Igreja, que no conjunto do complexo arquitetônico tem o templo como seu coração e agrega em torno dele diferentes ambientes, dedicados a diversos campos: arte, cultura, serviços, comunicação, cuidado social e educação. O coração da construção, o templo, para cerca de cinco mil pessoas, ficará no centro de uma praça multiuso - a Praça das Famílias -, capaz de acolher aproximadamente 20 mil pessoas, possibilitando a congregação do povo em momentos celebrativos, circuitos sociais e culturais.

O templo - enriquecido por museus, escolas de música, mosaico, pintura e restauro - tem um especial lugar de testemunho e comprometimento: a Acolhida Solidária Dom Luciano Mendes de Almeida. Espaço para acolher, de maneira ampliada, durante vinte quatro horas, o serviço hoje já prestado pela Igreja, no Vicariato Episcopal para a Ação Social e Política, de amparo e proximidade com os mais pobres. Esse serviço é o olhar comprometido e permanente da Igreja para a realidade de sofrimentos e abandono de tantos que não têm uma porta para bater, um lugar para o acolhimento. Foi o saudoso Dom Luciano quem pediu e inspirou a criação da Acolhida Solidária, que já caminha para uma década de trabalhos e vai se tornar ainda mais forte na Catedral Cristo Rei.

Como obra de Igreja, o recurso para a construção da Catedral vem de doações, aplicadas com a maior lisura e controle, tornando-se, no cenário conturbado da corrupção que endemicamente se abate sobre a sociedade brasileira, um caso com força de exemplaridade. Torna-se oportuno fazer o exercício de investir, do “tiquinho” à quantia mais significativa, num projeto que é de todos. Ultrapassa o comum de outros investimentos que se restringem, no seu alcance, ao atendimento de interesses de grupos específicos. A Catedral Cristo Rei é uma obra que na sua identidade é casa do povo de Deus, com seus futuros serviços à disposição de todos. Certamente, a única obra que simultaneamente, no seu funcionamento, congregará sem discriminação ou distinções as diferentes camadas da sociedade, visibilizando um exemplo com força para alimentar o nascimento de uma cultura nova, antidoto para discriminações e exclusões. É desafiador edificar uma obra com esse porte, alcance e vocação que se tornará referência em arquitetura, engenharia, arte, cultura, educação, comunicação e, sobretudo, espiritualidade e cuidado social.

Construir a Catedral Cristo Rei é uma ousadia em obediência à história da Igreja, herança que impõe a necessidade de uma coragem, embora sem eliminar o temor e o tremor, de responder às exigências do presente e avaliar o futuro desafiador desse terceiro milênio. É preciso considerar, dentre outros aspectos, o enraizamento que a fé ganhou no território mineiro, como força de sustentação e fonte de sentido. O barroco, outros monumentos e patrimônios da religiosidade tecem a cultura de Minas Gerais, tão significativa nos cenários da nação brasileira. No presente, somos desafiados a preparar, a partir dessa cultura, um futuro marcado por valores e referências que possam garantir uma sociedade mais pacífica, permanentemente inspirada pela justiça.

Minas Gerais, as muitas Minas, particularmente sua região metropolitana, com força simbólica, tem na ousadia da construção da Catedral Cristo Rei singular oportunidade de marcar a história tricentenária do povo mineiro, com a beleza de uma edificação, a inteligência da engenharia, a comunicação da arquitetura e, no seu conjunto, as forças transformadoras da arte, comunicação, educação, ação social e cultura. Ousadia muito oportuna, particularmente neste momento sociopolítico e cultural, numa obra que merece o apoio de todos.

Uma ousadia que pede a contribuição de cada pessoa, como exercício e testemunho de se investir em um projeto sério, que não pertence exclusivamente a ninguém, sendo de todos. Audácia que busca edificar um instrumento para que a Igreja torne-se ainda mais servidora, no presente e no futuro. Obra que contribui para que a sociedade mineira continue a marcar sua história com os valores cristãos, o grande patrimônio que a sustenta com qualidade e diferencial. Vale participar, você é convidado a engajar-se na ousadia da Catedral Cristo Rei. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Novo tecido político

A pluralidade ideológico-partidária é um vetor de grande importância para alimentar as dinâmicas que provocam reflexões, discernimentos e escolhas na construção da sociedade. A política partidária, assim, é constitutiva do tecido democrático, porém, neste momento, se desenvolve sem o respaldo de uma cultura político-cidadã consistente, com capacidade para sustentar os embates pautados pelo inegociável compromisso com o bem comum. A responsabilidade com o país não pode ser jamais negociada por interesses mesquinhos e por esquemas de corrupção.  Para além de sua competência específica, os políticos são cidadãos como todos os outros, alimentados no horizonte de uma mesma sociedade, portanto filhos iguais da mesma cultura.  Se essa cultura cidadã, que é básica, está comprometida, será sofrível o nível da política partidária.

A falta de envergadura nos exercícios políticos, ao se constatar equívocos em administrações, mediocridades em representações e obscuridades, evidencia desajustes nessa cultura cidadã. Assim, é indispensável investir num novo tecido político para subsidiar uma cidadania que consiga produzir líderes mais nobres, capazes de abrir frentes e encontrar novas respostas, ajudando no avanço inadiável de instituições e instâncias todas da sociedade. É necessário cultivar uma consistência nova que sustente a cidadania na sociedade brasileira. Esgotou-se a tentativa muito comum, ante os desarranjos da política, de alguém se apresentar no cenário político partidário como “salvador da pátria”, com soluções quase mágicas para os muitos problemas.

A política partidária, ao cair nas mazelas dos interesses mesquinhos pela sedução terrível do dinheiro e do poder, perde a moral e compõe um cenário rejeitado pela população. Candidatos, quando eleitos, com pouco tempo expõem suas fragilidades e inércias. Exercem responsabilidades, quando o fazem, a “passo de tartaruga”. E, no período eleitoral, começa a mesma cantilena partidária. Falta uma dinâmica mais adequada para o exercício da política, o que agrava crises por carência de líderes lúcidos e competentes. Tudo se resume num falatório e em discussões sem força para mudar cenários ou para alcançar respostas assertivas.  Há de se considerar o investimento diuturno em busca de um tecido político mais qualificado na sociedade brasileira.  Agora é hora oportuna, no enfrentamento das crises, para se abrir um novo horizonte, superar vícios e procedimentos que, mantidos, impedirão transformações importantes e na velocidade esperada. Sem essas mudanças, a sociedade continuará a amargar atrasos e a perda de oportunidades para seu esperado crescimento.

O investimento em educação, sem dúvida, é um ponto de grande relevância, mas não basta somente investir no ensino formal. A intervenção precisa ser mais abrangente, no âmbito da cultura. Nessa dimensão, muitos aspectos merecem análises para serem modificados. Sabe-se que não basta apenas ser detentor de conhecimento. É preciso ser capaz de valer-se da riqueza das informações para articulações de alta complexidade e, assim, alargar horizontes, acionar a lucidez da inteligência que aponta soluções e a disposição cidadã de tudo fazer para dar ao conjunto da sociedade o desenvolvimento almejado.

Exercícios precisam ser praticados para que se avance no processo de melhorias do tecido político.  Um rosário de tarefas pode ser apontado. Quando se considera os cenários de pobreza e miséria que desenham a sociedade brasileira, é indispensável priorizar os clamores dos pobres, como princípio e lei acima de normas vigentes, de direitos do Estado ou de defesa de interesses particulares. Também é hora do empresariado investir em projetos sérios, de credibilidade. É o momento dos agentes na política partidária abrirem mão de benesses que estão na contramão das expectativas de seus representados. Devem-se qualificar melhor, humanisticamente, para o exercício da liderança. De um modo geral, são necessárias novas práticas cidadãs, o que inclui respeitar tudo o que se relaciona ao bem comum. Não se avançará muito e não se conseguirá superar os graves problemas deste momento se não se encontrar o caminho, as dinâmicas, os modos e a boa vontade de todos para se constituir um novo tecido político. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


 

Reconstrução política

A reconstrução política é meta basilar neste momento crítico vivido pela sociedade brasileira. Trata-se de prioridade, que deve anteceder qualquer questão meramente partidária. É incontestável a necessidade de se promover uma qualificação específica no âmbito dos partidos, que precisam superar os interesses cartoriais e o fisiologismo.  Quando se prioriza interesses mesquinhos de grupos, são comprometidas instâncias democráticas e cidadãs, produzindo crises. É lamentável quando o âmbito partidário torna-se um “quartel” na defesa de interesses de poucos, na contramão da cidadania, para alimentar esquemas de corrupção e a depredação do erário.

Os desvirtuamentos da política em razão das mediocridades partidárias são evidentes, urgindo reconfigurações mais radicais. O problema é que há resistências de todo o tipo. Basta analisar sobre o tanto que se discutiu a respeito da reforma política. A casa maior do Legislativo não conseguiu assimilar contribuições sérias e com força para conduzir a política partidária no rumo de uma qualificação melhor. É terrível a postura de certos políticos que deveriam exercer a nobre missão de representar o povo e de se colocar a seu serviço com lucidez legislativa capaz de reorientar caminhos. Hoje, por exemplo, no “olho do furacão” da crise econômica, agravada pela crise política, alguns representantes da população, em causa própria, votam aumento de seus próprios salários. Exemplar, cidadã e destemida foi a atitude de uma comunidade que impediu a vereança do seu município de aumentar os próprios vencimentos.

Há, na verdade, uma “ladainha” de vícios no âmbito da política partidária que precisa de correções, retardadas pela falta de estatura dos que se oferecem à tarefa-missão de representar o povo, suas comunidades e seus interesses. Condenáveis são as disputas partidárias, o tirar proveito de situações, a atitude de se apresentar como tendo “a carta na manga” para solucionar problemas complexos. Percebe-se que é preciso uma reconstrução política que atinja as raízes da cidadania. Para isso, é necessário, agora, aprender as lições que toda crise ensina, numa cultura cidadã nova e diferente. Ao lado do empenho nos urgentes entendimentos políticos, para a formação de consenso em torno de agendas que viabilizem a superação da crise econômica, é hora de um pacto de reeducação cidadã.

Não basta apenas corrigir as instâncias governamentais e as instituições políticas. É preciso convocar cada cidadão, da criança ao mais velho, a acolher e a refletir sobre o peso próprio da crise. Não se pode correr o risco de deixar essa discussão simplesmente nas mesas dos representantes do povo, dos governos. As pancadas nas panelas - como legítima manifestação de protesto cidadão - precisam ser martelos na consciência de todos. Assim, será possível alcançar uma sensibilidade que sustente atitudes na contramão do consumismo, do desperdício, da indiferença para com os pobres e do desrespeito ao bem comum.  Também poderá ser superada a produção que busca somente o lucro, dando lugar a razões nobres e próprias de uma cidadania que consegue ir além de interesses particulares. 

É importante e indispensável que as lições das crises “martelem” as consciências na mesa das casas de cada família, nas salas das escolas, nos templos religiosos, no auge dos shows artísticos, nas festas e eventos de todo tipo, nas manifestações públicas e em cada coração. Trata-se de caminho para obter o entendimento e a lucidez que são necessários diante das muitas adversidades. Existem saídas para as crises. Porém, elas não são encontradas porque, de modo geral, não se quer abrir mão de privilégios, reconfigurar gastos, orçamentos e projetos.

Pode-se chegar ao absurdo de não se mover, esperando que alguém ou alguma instância “faça milagre”, na ilusão de depois continuar a usufruir de benesses até então garantidas. Isto é prática que revela mesquinhez.  Das crises, podem nascer consequências positivas. Basta lembrar que certos países, em período pós-guerra, reconfiguraram o tecido de sua cultura para se reerguerem e avançarem no que é interesse de todos. Que o momento atual da sociedade brasileira torne-se oportunidade para as mudanças necessárias, particularmente em uma reconstrução política que ampare o exercício da cidadania. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Crises e nova cultura

O momento atual se caracteriza pelas crises, cada vez mais evidentes, com consequências reais, para além do mero alarmismo. É real a situação difícil vivenciada por pessoas e setores afetados. As análises comprovam que a gênese dessas crises enfrentadas pela sociedade brasileira tem um histórico que é fruto das escolhas políticas, da eleição equivocada de prioridades sociais e também do tipo de tecido cultural sobre o qual está assentada.

O fato é que há crises e essas trazem consequências de diferentes naturezas. Momento oportuno para se refletir sobre o ensinamento que se aloja no reverso dessa realidade desafiadora. O ponto de partida para essa reflexão é admitir que nenhuma crise é acontecimento súbito. Sua geração é um longo desdobramento que pode revelar preciosas lições no que diz respeito a reações e novas respostas. Um processo capaz de proporcionar aprendizagens relevantes e transformadoras. Seria um grande risco deixar passar em “brancas nuvens” a singular oportunidade de se aprender novas dinâmicas nas relações sociais. São imprescindíveis as atitudes fundamentadas nos princípios dessas lições.

Vista desse modo, a crise torna-se possibilidade de se ingressar em um processo de correção de rumos. Desvencilha a sociedade do perigo de um tratamento cultural da situação com o conhecido “jeitinho” próprio de dissimular os pontos críticos e justificar a manutenção de um sistema que neutraliza ações eficazes para a superação dos desafios.

A hora é oportuna para vencer a desconfiança, o desespero e a desorientação provocados pelas dificuldades. É o momento certo para se exercer a cidadania ao mesmo tempo em que se espera, com justeza, novas configurações na postura dos órgãos governamentais, instâncias públicas de representação e daquelas que, diretamente, prestam serviços ao povo. Não menos exigente é a expectativa quanto às atitudes dos construtores da sociedade, para que ajam norteados por princípios que garantam o bem comum, prezando o crescimento e o desenvolvimento das instâncias responsáveis pela produção e sustentação do equilíbrio social e econômico.

Além dos aspectos que atingem altas esferas e intervenções de caráter sistêmico, vale considerar a crise como oportunidade para uma nova cultura modulada em hábitos e atitudes - reações e respostas a favor daquilo que a própria crise aponta como solução. Mas, assumir outro modo de pensar e agir, no entanto, não é tão fácil assim. Existe uma forte tendência do ser humano ao comodismo, o que o predispõe a manter os mesmos costumes, diferentemente, das pessoas que enfrentam rupturas drásticas da ordem social e econômica provocadas pelas guerras ou catástrofes naturais. Nesse contexto, o estado de penúria impõe a aprendizagem das lições sobre economizar, evitar desperdícios e a adoção de novos hábitos. Essas rupturas e as consequências com força de testemunho funcionam sempre como forte apelo para novas atitudes. Nesses momentos, por exemplo, é comum presenciarmos gestos de pessoas que doam parte de suas fortunas ou de seus altos salários em prol do bem comum. São iniciativas que contribuem para a construção de uma cultura solidária e sustentável.

Condutas como essa, ainda não fazem parte de nossa realidade. Sequer ousamos esperar que, diante das necessidades do governo de atender as demandas do setor educacional, políticos e funcionários do alto escalão aceitem ter os vencimentos reduzidos. O que se vê são atitudes em causa própria, tomadas em todas as instâncias do poder.

A própria superação da crise econômica exige novos parâmetros. É urgente encontrarmos um modelo que não dependa do consumismo. No momento atual, torna-se indispensável um processo de reeducação no consumo que pode começar no momento das refeições diárias diante da discrepância entre a quantidade servida e a necessidade das pessoas. O equilíbrio ao consumir é, sem dúvida, um desafio cultural que precisa entrar agora como legado advindo do tratamento e do enfrentamento da crise.

Não se pode restringir o olhar sobre os expressivos números do contexto econômico nacional ou global - é curioso como são predominantes nos noticiários quantias astronômicas. Torna-se necessário, primeiro, aprender a poupar, a valorizar o próprio dinheiro, a partir de cada centavo, para saber respeitar e exigir respeito ao erário. O propósito não é o de fazer apologia à usura, mas sim de sugerir o princípio da otimização do consumo cultural daquilo que é realmente necessário.  Certamente, se a sociedade aprendesse a superar o desperdício com as crises em curso já haveria uma radical transformação de hábitos com os ganhos incidindo sobre o atendimento às necessidades de outros que hoje estão à margens do mercado. É possível vislumbrar que essa reeducação aponte até mesmo para a correção de critérios morais, pois a cultura da ganância também patrocina a tolerância à corrupção. Que as crises se tornem escolas de aprendizagem e de construção de uma nova cultura.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Mudanças nas crises

As crises que se apresentam no horizonte da sociedade brasileira configuram-se em enormes desafios, um peso que incomoda. No entanto, é oportuno considerar a crise momento para se substituir dinâmicas e qualificar processos. É uma fase desafiadora e arriscada e os resultados podem ser benéficos ou prejudiciais, determinados pelos acertos ou equívocos nas decisões.  As crises econômica, hídrica, moral, existencial e outras tantas que se apresentam recaem sobre o conjunto da sociedade e permeiam toda sua estrutura.  Uma situação cheia de perigos, mas também com sementes fecundas de renovação. 

Essa fase crítica gera desorientação, desconfiança e até desespero. Fragiliza as instituições e exige mais das instâncias governamentais no exercício da insubstituível tarefa de garantir o bem comum e o equilíbrio político. Mas, também, aciona o instinto de sobrevivência e a vontade de encontrar saídas. E mesmo quando se sabe que a solução de uma crise suscita outros problemas, que pode projetar novos quadros desafiadores, é imperativa a busca de soluções, conduta profundamente vinculada ao tecido da cultura de uma sociedade em crise. E a qualidade desse tecido é que permitirá uma reação compatível com os desafios postos. Nesse horizonte, a crise só pode ser enfrentada na medida que se entra num processo profundo de transformação. Ela se instaura exatamente quando funcionamentos se tornam obsoletos e há falta de respostas novas; porque cresce a lista de necessidades e se configura uma fragilização de processos variados em razão dos procedimentos comprometidos, como é o caso endêmico da corrupção. 

Faz-se urgente priorizar dentre as respostas à crise, a aposta em uma profunda e radical mudança cultural. Sabemos que não é simples. Processos dessa natureza são demorados. Mesmo assim, é preciso investir em fórmulas eficazes na superação dos desafios. A resposta pode estar em novas soluções e em uma cultura mais solidificada pronta para enfrentar as novas crises, mas, também, aquelas que são permanentes. Como exemplo, é válido considerar a crise hídrica na sua exigência de providências técnicas e logísticas, como também a atitude simples e determinante de cada consumidor. Dentre as indicações práticas no enfrentamento dessa situação, aparecem necessidades como não se tomar banho demorado ou economizar água quando se escova os dentes. Tudo isso parece banal e muito doméstico para constar na pauta pública.  Mas aqui é que se toca mais profundamente o tecido cultural de uma sociedade que ainda precisa aprender a discernir o limite entre economizar e esbanjar. Essa referência que até parece comum revela o quanto gestos, atitudes e escolhas que constituem a base do tecido cultural e o cotidiano da sociedade têm consistência ou operam em estado de emergência, de alarme, no seu papel de civilidade e autêntico sentido de cidadania. Em questão, portanto, está o comprometimento a compreensão de que é preciso investir, sobretudo, numa perspectiva de radicais mudanças culturais. Caso contrário, o conjunto da sociedade se constitui em condição de parasita, esperando que apenas instâncias governamentais e empresariais solucionem as crises. Às lideranças, cabe agir com a consciência do serviço, do dever de visar ao bem comum.

O enfrentamento da crise é frágil e não consegue incidir na realidade se não imprime a velocidade esperada aos processos. É alto o preço a se pagar pelos prejuízos causados pela morosidade e escolhas pouco inteligentes ou que desconsideram as razões humanísticas e humanitárias. E não menos graves são os danos provocados pela mesquinhez de indivíduos, grupos ou classes que viram as costas aos clamores da realidade e se recusam a gestos de desprendimento ou sacrifícios pelo bem comum. Esperam a superação da crise como resposta a interesses de confortos particulares e não como atendimento de demandas cidadãs. 

Bem adverte o Papa Francisco na sua Exortação Apostólica, A Alegria do Evangelho, sublinhando o prejuízo que traz essa cultura em que cada um pretende ser portador de uma verdade subjetiva própria, que dificulta a indispensável inserção de cada cidadão em um projeto comum que vá além dos benefícios e desejos pessoais. A grande crise, portanto, é cultural e seu enfrentamento só pode se dar com grandes mudanças culturais.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte


Paz e força interior

O dom da paz é um bem a ser conquistado e cultivado permanentemente. Dizer “somos da paz”, não apenas como simples “slogan”, mas a partir da força própria da linguagem, produz efeitos sobre a consciência coletiva e no interior de cada pessoa. Para cultivar a prática de dizer e viver a expressão “somos da paz”, é preciso mobilizar esforços de toda ordem. Torna-se imprescindível investir na educação para a paz. Esse exercício urge e requer o envolvimento permanente de famílias, igrejas, escolas, governos e os mais variados segmentos da sociedade. Um grande mutirão sem o qual o avanço em direção à conquista desse dom estará comprometido. A meta e a dinâmica para o cultivo do dom da paz têm uma inteligente indicação do apóstolo Paulo que, escrevendo aos Romanos, diz: “Não te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem” (Rm 12,21). Trata-se de um exercício existencial que produz resultados imediatos. Afasta os riscos e prejuízos que fatalmente surgem quando a fúria, a intolerância, o revide e a vingança tomam conta do coração humano. 

Perder a paz interior tem se tornado cada vez mais comum porque não se respeita o compromisso com a verdade e com a justiça. Multiplicam-se fatos e ocorrências que revelam os absurdos praticados nas ruas, com confrontos que ferem não só a dignidade humana, mas também têm provocado outras modalidades vergonhosas de lesões - morais e corporais. As estatísticas da violência, de variados tipos, os confrontos entre pessoas, grupos e diferentes segmentos da sociedade brasileira comprovam o tamanho do problema. Talvez por ser uma nação continente, com regiões separadas por grandes distâncias, aqui tudo se dilui sem produzir impactos proporcionais aos acontecimentos. As reações concentram-se nos territórios em que determinada ocorrência grave se desenvolveu e tornam-se mais pontuais nas regiões mais distantes. 

Porém, basta olhar para o conjunto da sociedade e perceber os prejuízos generalizados que surgem a partir da ausência de diálogo, das imposições e da indiferença em relação à dor dos mais sofridos e pobres. A sociedade está, cada vez mais, envolvida em um campo de batalha homicida e algoz.     É preciso um esforço social dos grupos e segmentos, com a indispensável parcela da contribuição de cada pessoa a partir de elaborada e educada consciência social e política, para que se possa sair desse círculo vicioso da violência. Deve-se buscar a justiça que, infelizmente, muitas vezes, não é meta de instâncias governamentais, religiosas, organizações e líderes diversos. 

Distorcida a verdade e desfigurado o compromisso com a justiça instala-se a tirania dos conchavos, acirra-se a busca sem limites pelo poder, a presença de medíocres, que não são capazes de fazer a sociedade alcançar respostas novas, em postos estratégicos. Urgente e prioritário é o investimento na recomposição da gramática da lei moral na consciência de todos. As manifestações sociais e políticas do mal, nos cenários da sociedade, indicam estado de emergência. Afrontar essa realidade complexa e abrangente que vem comprometendo a paz depende de políticas públicas, de ações governamentais, de protagonismos dos segmentos da sociedade e de contribuições religiosas mais significativas.

Vale, no entanto, tomar em consideração o princípio fundamental, com efeito imediato sobre a realidade, qualificador das relações: cada pessoa compreender-se como coração da paz. Ser coração da paz é um projeto pessoal que prioriza o cultivo da força interior. Fala-se hoje de todo tipo de força. Entre outras, comenta-se sobre a força política para se ganhar eleições, fazer “passar” projetos, inclusive os que não respeitam os interesses sociais. Há também a força econômica - relacionada ao poder sustentado pelo dinheiro, muitas vezes alicerçada no sofrimento de quem vive na miséria e na fome. 

Pouco se comenta, no entanto, sobre a força interior, verdadeira espiritualidade, que é a indispensável competência para uma leitura humanística da realidade, com desdobramentos incidentes de escolhas e decisões que favoreçam mudanças mais rápidas em resposta aos problemas e clamores do povo. A força interior, cultivada na espiritualidade, meditação, silêncio, é que salvará pessoas e segmentos da mediocridade. Sustentará a audácia que leva à construção da paz. Sem força interior impera a mediocridade. A mediocridade compromete a paz. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte


Solicitude Social

A celebração do Dia do Trabalho é oportunidade para que a sociedade se manifeste e exponha as situações graves que pesam nos ombros de todos, particularmente dos mais pobres. Em meio a tantas bandeiras a serem desfraldadas, é indispensável nesta hora erguer a da solicitude social. Uma bandeira que remete a conceitos e a princípios fundamentais insubstituíveis, para que se consiga superar a avalanche de problemas. A Igreja Católica empunha essa bandeira desenhada na solidez de sua Doutrina Social, a partir de referências, valores e entendimentos que podem impulsionar na direção de soluções que são urgentes.

A Doutrina Social da Igreja não é simples receituário para situações pontuais. Trata-se de uma fonte com força para mover consciências e condutas em direção a uma nova cultura. Desse modo, contribui para que o tecido social seja enriquecido por urbanidades e sensibilidades, fazendo frente a indiferenças, a condutas que comprometem instituições e funcionamentos governamentais. No horizonte, simples e determinante é reconhecer a importância e a dignidade do trabalho, a participação diversificada e diferenciada de cada cidadão na construção da sociedade.

Elementar, portanto, é comprometer-se com o princípio da honradez de cada trabalho, que deve nortear a ação cidadã de todas as pessoas. A honradez do trabalho ficará gravemente comprometida se a exigência do lucro preceder o temor do Senhor e a exigência da justiça. Quando a exigência do lucro é o princípio que norteia todas as ações, abrem-se as portas para todo o tipo de corrupção. O Livro dos Provérbios traz máximas importantes que firmam essa compreensão e inspiram a conduta justa de cada pessoa: “Vale mais o pouco com o temor do Senhor que um grande tesouro com a inquietação” (Pr 15,16). “Mais vale o pouco com justiça do que grandes lucros com iniquidade” (Pr 16,8).

Jesus ensina, na sua pregação, a apreciar o trabalho e, ao mesmo tempo, a não se deixar escravizar pelo trabalho. O Mestre empenha-se incansavelmente, no exercício do seu ministério, para devolver a inteireza à dignidade humana. Assim, constitui o modelo para que se compreenda cada trabalho realizado. Uma compreensão que situa as obras de cada pessoa no horizonte mais amplo da criação. Ilumina o sentido cativante da participação na obra criadora de Deus. Particularmente, inspira gestos que promovem a recomposição permanente da dignidade humana, uma luta incansável por condições sociais, políticas e de infraestrutura à altura desta dignidade maior, de ser filho e filha de Deus.

Por isso, o trabalho representa uma dimensão fundamental da existência, participação nas obras da criação e da redenção humana. O trabalho é também expressão plena da humanidade de cada pessoa. Reside aqui a exigência de solicitude social no tratamento de cenários discriminatórios e excludentes, com sagrada indignação frente a situações de escravidão e de exploração. Também é fundamental que todos possam exercer o direito ao trabalho. Por isso, a sociedade inteira, especialmente os segmentos governamentais e os líderes diversos, tem o dever inadiável de criar as condições, com racionalidade e humanismo, para que todos possam cumprir o dever de trabalhar.

O trabalho não é obra de servidão e sim intervenção genuinamente humana. Por meio do trabalho, o homem governa o mundo com Deus, exercendo um domínio que é justo na medida que produz para si e para os outros os bens necessários. Lúcida e inspiradora é a indicação de Santo Ambrósio, no século quarto, ao afirmar que cada trabalhador é a mão de Cristo que continua a criar e a fazer o bem. O trabalho é uma atividade exigente, mas é também uma espiritualidade, gesto de colaboração com o Criador. Deve ser inspirado sempre pelo sonho e pela meta de dar feições novas - de justiça, respeito e paz - aos cenários diversos da sociedade.

Por ser direito fundamental e bem para cada pessoa, o trabalho tem que ser iluminado e inspirado pela bandeira da solicitude social. A luta pelo trabalho, a exigência para que as leis se cumpram e sejam sempre mais humanizadas devem ter o parâmetro dessa solicitude. Trata-se de condição para que se construa um tecido social mais consistente, menos excludente, a partir de cultura firmada nos princípios do respeito e promoção da dignidade humana. Para que se alcance uma realidade mais digna, há um longo caminho a percorrer. À frente, deve sempre estar a bandeira da solicitude social. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte


CNBB e a vida do povo

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) conclui nesta sexta-feira, 24 de abril, sua 53ª Assembleia Geral, que reuniu temas de grande relevância para a vida da Igreja Católica na tarefa missionária de anunciar, a todos, o Evangelho de Jesus Cristo. Durante a Assembleia, a CNBB - força da Igreja Católica de reconhecida credibilidade a serviço do povo brasileiro - elegeu a sua nova presidência para o quadriênio 2015-2018.  Um competente corpo de presidentes de comissões episcopais levará adiante projetos e programas de evangelização. Os trabalhos serão desenvolvidos com o apoio de assessorias eficientes, em diálogo permanente com os segmentos diversos da sociedade. Em cooperação, busca-se construir uma sociedade mais justa e solidária. 

Especialmente nesse tempo de Assembleia, compartilhamos ricas experiências e reforçamos o compromisso de sempre buscar o diálogo, a inovação interna e, permanentemente, caminhar com o povo, particularmente ao lado dos mais pobres. Deste modo, investimos para ser sempre uma “Igreja em saída”, conforme orienta o Papa Francisco. Essas importantes metas estão desenhadas pelo horizonte das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, aprovadas durante a Assembleia. As Diretrizes orientam o caminhar da Igreja na realidade sociocultural diversificada da sociedade brasileira. As definições de projetos, programas e planos de pastoral, em cada lugar do país com a presença da Igreja, têm nestas Diretrizes ricos parâmetros e efetivas linhas de ação. 

Ao definir seus planejamentos, a Igreja está consciente de que para além de aspectos técnicos, são fundamentais o testemunho e a disponibilidade para o encontro. Como diz o Papa Francisco, é imprescindível a coragem de ser uma Igreja “acidentada” e, até, “enlameada”, jamais autocentrada. No horizonte desse desafio, a Assembleia Geral da CNBB analisou a complexidade da realidade social e política que interpela a fé cristã a dar a sua indispensável contribuição. Por isso, foi incluído um segundo passo no Projeto Pensando o Brasil, criado em 2014 no contexto das eleições. A Igreja Católica olha, com preocupação e apreensão, a realidade da desigualdade social no país. Os avanços e conquistas alcançados até hoje não são suficientes para apaziguar o coração de cada cidadão brasileiro. É uma situação grave e a sociedade brasileira será julgada pelo modo como trata os mais pobres. 

O tratamento equivocado imposto aos mais pobres traz consequências lamentáveis como a perda da indispensável humanização. Certo é que não se pode acostumar e acomodar-se com as situações de desigualdades e injustiças sociais. A Igreja sabe que a fé vivida e testemunhada tem força para remover esses espectros desoladores do contexto social. A paz verdadeira só se efetivará quando a cidadania e a fé impulsionarem novas posturas, sensíveis ao clamor dos pobres, que respeitem o direito dos povos. Daí nascerá a paz verdadeira. A condição humana e o exercício da cidadania precisam ser reconfigurados por meio de densa espiritualidade e mística fecunda. Por isso, os bispos do Brasil aprofundaram o estudo e o planejamento de ações determinantes no âmbito da fé vivida e testemunhada.  

O grande dom da fé é o tesouro da Igreja, com as riquezas inesgotáveis de conceitos e conteúdos, particularmente presentes na Palavra de Deus e na Tradição. Esse tesouro desafia permanentemente a Igreja a revitalizar suas instituições, dinâmicas e funcionamentos, para se alcançar novas respostas. Nesta perspectiva, a Liturgia é o sustentáculo da ação evangelizadora. A Igreja, quando transmite a fé, ajuda a humanidade a abrir-se ao amor inesgotável de Deus, fonte da sabedoria necessária para reequilibrar a vida e encontrar as saídas urgentes para as crises em curso na sociedade. 

A vivência dessa tarefa tem como horizonte inspirador e esperançoso a convocação feita pelo Papa Francisco ao anunciar a celebração do Ano da Misericórdia. Um momento especial, promovido pela Igreja, que interpela a sociedade a compreender e a viver mais intensamente o amor de Deus. Será um jubileu, tempo de graça, de 8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016. A sociedade, pelo testemunho e anúncio da Igreja, precisa conhecer mais Jesus Cristo, o rosto misericordioso de Deus, a misericórdia encarnada. Vivenciar, de modo profundo, a espiritualidade do perdão, da justiça e da misericórdia pode ser contraponto à vigente cultura hedonista e materialista que retarda avanços. A sociedade precisa de qualificação que não é meramente técnica. A misericórdia é um saber vivencial e experiencial imprescindível.  

De modo coerente com essa perspectiva, a CNBB renovou em sua Assembleia Geral o compromisso de trabalhar para construir uma sociedade mais justa e solidária, sem medo dos desafios e pronta a dialogar com o pluralismo de ideias. Assim, está decidida a inovar-se para anunciar com autenticidade o Evangelho, sempre a serviço da vida do povo. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte


Diálogo entre poderes

A gravíssima crise que a sociedade brasileira enfrenta, neste momento, gera perplexidades e suscita muitas interrogações. Em especial, sobre quem vai ajudar na saída desse complexo impasse. Obviamente, a razão está desafiada a encontrar o itinerário para deflagrar o processo inadiável e urgente de reconstrução. Essa urgência é evidente, sob pena de precipitar a nação num caos de grandes e incontroláveis proporções. Corre-se o risco de convulsões sociais, miséria, esgarçamento da cultura, com a configuração de desumanização em proporções irreversíveis, além de uma lista de consequências nefastas já experimentadas. Não se pode deixar que se chegue a patamares de inviabilização da economia, do emprego, da produção e dos investimentos, gerando grave desiquilíbrio social.

O cidadão, mesmo sem entender as complexidades da organização econômica e política, sabe e espera que os responsáveis maiores, particularmente do mundo da política e do corpo técnico das esferas governamentais, coloquem acima de seus interesses a centralidade dessa reconstrução. É hora de buscar entendimentos que viabilizem a sociedade brasileira para além do nó que ela está experimentando e que, consequentemente, produz mais descompassos. É o momento de se construir harmonia nova e contemporânea.

A busca de quem poderá ajudar a desenhar um horizonte altruísta e cidadão para o enfrentamento da crise, fazendo dela um passo novo na direção de conquistas significativas, não pode restringir-se a alguns nomes. Seria uma aposta equivocada. A crise é também humanística e revela, lamentavelmente, que não se tem líderes tão carismáticos e bem postados para uma tarefa desta envergadura.

Quando a tendência de escolha de um salvador da pátria entra em cena, o surgimento de nomes forjados por interesses políticos partidários revelam imediatamente fragilidades humanísticas, sinalizando que não são dignos de confiança. Mas passam a ocupar o imaginário popular e a deter um poder criado para atender interesses pequenos, sem a amplitude do que agora se faz necessário.  Esse é o perfil da conhecida crise de lideranças gerada pelo vício cultural de deixar na mão de um parlamentar, um membro do judiciário ou do executivo a “varinha de condão” para operar o milagre esperado e que não vai chegar por esse caminho, como a história já nos demonstrou inúmeras vezes.

Do ponto de vista do cidadão, não há dúvidas de que o que inviabiliza a economia e cria o caos em tantos setores, é uma gravíssima crise política.  Assim, a classe política está desafiada a entender a sua responsabilidade e a dar nova resposta, urgente, urgentíssima, sob pena de continuar se afundando no lamaçal da corrupção e alimentando-o: “Vivendo do fedor”- como disse, dias atrás, o Papa Francisco, ao tratar o assunto em visita pastoral em Nápoles, na Itália.

É hora da nação brasileira, por meio de todas as instituições, culturais, educacionais, empresariais e religiosas exigirem que os três poderes dialoguem. Mas precisa ser um diálogo filosoficamente entendido, não conchavo político partidário, a exemplo do que impõe o inchaço da máquina pública e administrativa, para satisfazer o desejo e o prazer do poder a partidos políticos e a grupos interesseiros. Um diálogo capaz de arejar as mentes e corações dos representantes do povo.  É necessário um diálogo que sensibilize políticos e governos a se importarem com os verdadeiros interesses da nação e não com as vantagens acumuladas e com o poder que exercem.

O rigor conceitual do diálogo árduo e exigente, de disciplina, não de soluções medíocres para o momento critico vivido pela sociedade, precisa ter primazia nas esferas dos três poderes que estão na condução desse povo que merece agora, já, um caminho digno para a solução dos problemas.

É direito do povo brasileiro levantar a bandeira e exigir que os poderes dialoguem e se reestruturem internamente. Que ofereçam à nação uma resposta para que as consequências da crise política comecem a ser resolvidas a partir de quem a provocou e de quem tem a obrigação de superá-la, primeiro, pelo diálogo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte


Ouvido de discípulo

Distante do que significa ter “ouvido de mercador”, desejar e ter ouvido de discípulo é um programa de vida. Exige compromisso com ações que possam gerar respostas e atingir metas importantes que transformem a realidade do povo. Incontestavelmente, trata-se da qualificação do papel que se exerce, nas diferentes circunstâncias, pensando particularmente as consequências e incidências sobre a vida dos outros e nos rumos da sociedade. O silêncio desta Sexta-feira Santa ecoa como insistente convite para que se conheça e se assuma a postura interior de se ter ouvido de discípulo. A carência dessa postura favorece a multiplicação de arbitrariedades e promove o esvaziamento de diálogos decisivos na construção da sociedade.

Ouvido de discípulo é referência, na profecia de Isaías, ao Servo de Javé, que testemunha o dom recebido da escuta. Recebe-o, preza-o e agradece a Deus por este dom. Dádiva que o faz portador de uma sabedoria, capacitando-o para suportar e enfrentar adversidades, sem perder o rumo. Uma escuta que, continuamente, abre os ouvidos do discípulo para estar em condições de dar respostas que fazem a diferença. Graça de Deus que está na contramão da soberba do saber e da tirania de definir rumos, ou enjaulá-los, na rigidez provocada pela inexistência do exercício da escuta.

O horizonte do caminho da paixão e morte de Jesus projeta para a humanidade, pela celebração desta Sexta-feira Santa, os ganhos qualificadores de se ter ouvido de discípulo. A profecia que leva a dizer a verdade e ao compromisso com a justiça e o bem nasce na mente e no coração de quem tem esse ouvido.  Discípulo é aquele que vai à escola. Não como professor. Menos ainda como os que acreditam saber de tudo, pois se valem dos lugares que ocupam para definir, sem a escuta necessária, os rumos da sociedade, o atendimento de suas demandas e, com essa conduta, permanecem distantes da competência para gerar o novo que possibilita sair da crise, devolver esperanças aos corações.

Quem escolhe a escuta como dinâmica para a configuração de sua maestria se abre ao que é dito por quem está acima de tudo e de todos - Deus - e consequentemente à escuta dos pobres. Capacita-se para o diálogo amplo e plural que a sociedade exige no complexo processo de definição de suas dinâmicas e busca de novas saídas.  Quem escuta se torna servidor. Uma obrigação de fé e também uma nota inteligente no desempenho de papéis cidadãos. Quem não escuta manda a partir do pedestal ocupado. Quem escuta dialoga e se deixa interpelar por clamores e necessidades que formatam posturas adequadas e, assim, permitem a superação de equívocos. Essa postura é antidoto para teimosias e tudo que obscurece os caminhos para as resoluções criativas e solidárias.

Os cristãos nesta Sexta-feira Santa, celebrando a paixão e morte de Cristo, ao acompanhar os passos de sua amorosa escuta de Deus, na sua corajosa entrega de si pela salvação do mundo, são interpelados a contemplar o Mestre, Senhor e Salvador. Ele é Servo por escutar amorosamente o seu Pai. Obediente ao desígnio n’Ele realizado de salvar a humanidade. De construir para os homens um novo tempo na força do amor que o leva a morrer na cruz e a ressuscitar. A atitude exemplar de Jesus é certamente o caminho inspirador que a sociedade brasileira precisa para reencontrar rumos e redefinir saídas.

O silêncio é condição para a escuta que permite identificar os clamores dos pobres, alcançar equilíbrio nas relações, cultivar o bem no coração da humanidade e promover a beleza que recupera a sensibilidade perdida. É urgente aceitar o convite que esta Sexta-feira Santa brada em seu silêncio.  Trata-se de convocação para que todos adotem o ouvido de discípulo e, assim, avanços possam se tornar realidade. Ouvir como discípulo é tarefa que ilumina a cidadania e, entre outras fundamentais conquistas, possibilitará entendimentos para a efetivação da reforma política, sem enrolações interesseiras. O ouvido de discípulo permite também escutar as muitas razões para que não se efetive a diminuição da maioridade penal. Evita irracionalidades, favorece o gosto pelo diálogo entre poderes e segmentos, criando condições para o aparecimento de líderes, que estão em falta, com capacidade humanística para priorizar as urgências dos mais pobres.

Desenvolver o ouvido de discípulo é uma prática com força de remédio para curar as rudezas dos corações e das mentes que perderam o sentido nobre de pertencimento a um povo, de fidelidade à sua identidade. É a cura para corações e mentes que ao ferir o tecido cultural e humanístico fazem da vida um inferno verdadeiro, com desfigurações, violências e barbáries. Queiramos todos cultivar o ouvido de discípulo. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte


Crise de consciência

Na raiz das muitas crises que a sociedade brasileira enfrenta - hídrica, energética, política, econômica, moral, com a exigência de pronta reação - está a falta de consciência. Uma carência que produz absurdos em série. São incontáveis os prejuízos para a coletividade que resultam da falta de princípios éticos e morais. Uma deficiência que é fonte de arbitrariedades, desmandos, incompetência para reações e respostas. Promove a perda dos sentidos de beleza, justiça e equilíbrio, que devem ser construídos cotidianamente, para se evitar situações ainda mais caóticas.

Há crise de consciência? Esta interrogação ganha pertinência quando se constata extremismos e desequilíbrios na sociedade, em atitudes individuais e coletivas, fundamentadas na irracionalidade e abominável mesquinhez. Um exemplo? A recente notícia de que parlamentares votaram um auxílio moradia em benefício de quem não precisa. Trata-se do princípio de “usufruir das vantagens”, que tudo corrói, de maneira demolidora, inclusive o tecido da consciência social, política. Esse princípio é impulsionado por uma perigosa permissividade, que justifica atos individuais e coletivos, merecedores da indignação de homens e mulheres de bem, no exercício do direito de exigir o tratamento adequado do que é público.

Não conseguir debelar o crescente processo de falta de consciência cidadã é um caminho para a ruína da sociedade. Essa constatação é reforçada ao observar fenômenos recentes que devem ser motivo de preocupação: a violência que não para de crescer, a miséria que faz tantos sofrerem, a presença de grupos interesseiros, especializados em corrupção, que tornam pantanoso o caminho da sociedade, comprometendo avanços e a construção da cultura da vida.

A falta de consciência revela-se de alta gravidade. Muitos agem como devastadores do erário e, pior, tratam de modo predatório os bens da criação. Ora, o mínimo que se pode esperar de cada cidadão é uma conduta balizada pela moralidade. E essa deve ser a postura e o compromisso de quem representa o povo e dirige instâncias governamentais mantidas com dinheiro público. Na contramão do compromisso ético-moral, certamente por perda e esgarçamento da própria consciência, indivíduos e grupos agem cegamente, inspirados só pelos interesses próprios. Perdem a credibilidade, o que aumenta a crise e deflagra uma verdadeira situação de “pé de guerra”. Esses cenários de descompassos colocam em pauta uma urgente necessidade: o tratamento da falta de consciência, problema grave e central na sociedade brasileira.

Há um comprometimento sério da consciência moral, comprovado em atitudes inadequadas, em nível individual e institucional. Infelizmente, para impor o próprio interesse, garantir a benesse, consolidar o usufruto de vantagem, vale tudo. Isso gera sérias consequências que efetivam a perda do gosto pela honestidade, do respeito aos limites que possibilitam contentar-se eticamente com o que é justo. A falta da consciência moral, que compromete a conduta honesta, para ser vencida, requer verificações em âmbitos muito complexos da sociedade. Paga-se alto preço pela relativização de normas objetivas e absolutas. O atual contexto cultural tem grande influência nesse processo, pois favorece o enfraquecimento de princípios inegociáveis e fundamentais ao exercício da cidadania.

Autonomia e liberdade não são justificativas para se fazer tudo o que se quer, leiloando princípios ético-morais básicos que alimentam o bom senso. Princípios capazes de fazer crescer o apreço não pelo que se lucra e se ajunta, mas pela honestidade e respeitável conduta cidadã.  É hora de reagir à perda da consciência moral.

Uma possibilidade de reação a esse problema, com incidência em todas as dinâmicas sociais, é conhecer profundamente e vivenciar os valores do Evangelho, guiados pelo Mestre mais completo de todos os tempos, na sua condição de Deus e Homem. Enquanto se reage para debelar a crise pela perda da consciência moral, raiz e vetor de outras graves crises, espera-se que as instituições respeitem as leis, que os representantes estejam, verdadeiramente, a serviço do povo, que cada pessoa se reconheça e participe como cidadão. A recuperação da moralidade deve fazer crescer uma incômoda crise de consciência, capaz de reconduzir a sociedade para o caminho do bem, da verdade e da justiça.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Promotores da paz

O ano de 2015 chegou e como disse Carlos Drumond de Andrade “quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial”.  Todos têm a oportunidade singular de rever o caminho percorrido nos últimos 365 dias e planejar um recomeço urgente e necessário. Não se convencer da necessidade de reiniciar, em parâmetros novos e com dinâmicas não tão equivocadas, é escolha que compromete a paz almejada. É não assumir a maravilhosa responsabilidade, confiada por Deus a cada pessoa de se promover a paz, celebrada mundialmente no dia 1º de janeiro. Com o início do ano novo, um pacto precisa ser assumido para além de superstições, remanescendo mais do que o gosto do champanhe , reluzindo mais que os fogos de artifícios que já se apagaram:  pela perpetuação do abraço fraterno, que ajusta as diferenças e as transforma em riquezas, é preciso promover a paz.

O Papa Francisco, na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano novo, sublinha que é urgente recuperar a consciência de que “nossa vocação comum é colaborar com Deus e com todas as pessoas de boa vontade para a promoção da concórdia e da paz no mundo”. É hora de reconhecer e assumir comportamentos que sejam dignos de nossa condição humana e cidadã. O ano de 2014, já passado, registrado nas páginas da história, pode ser, embora com as lamentações inevitáveis do que nele aconteceu, uma oportunidade de ouro para que a sociedade brasileira renasça das cinzas, como uma fênix. Muitas cinzas foram produzidas e deixaram desolações abomináveis. Cenários de corrupção se multiplicaram, em razão da perda do sentido autêntico do dom da vida e do segredo da simplicidade como remédio para a ganância.

Como consequência, cresceu a globalização da indiferença e aumentou o medo que empurra, na sua força paralisante, para o cuidado egoísta de si, dos seus e das suas coisas.  Permanecem esquecidos os pobres, uma vergonha nacional, que nem um tratamento compensatório pode encobrir e deixar de incomodar governantes, religiosos, cidadãos e construtores da sociedade pluralista. A busca pela paz requer, no Brasil e no mundo, a sensibilidade e o empenho de cada cidadão para que prevaleçam novas posturas. Sem essa novidade, entre outras ameaças, corre-se o risco de uma irreversível deterioração do nosso tecido cultural, que tem tudo para ser construtivo e igualitário. Uma cultura edificada com a colaboração de personagens históricos, tempos e etapas, privilegiada em sua natureza, que sempre oferece indicações sobre o caminho certo a ser seguido e a conduta cidadã a ser adotada.

É urgente o despertar de uma consciência nacional que faz cada pessoa assumir a tarefa e a missão de ser promotor da paz. Não basta um grupo, um segmento, uma confissão religiosa, alguns projetos. Trata-se de um dever de todos. Esse despertar não é um simples hino, nem uma manifestação passageira. Não basta um protesto, nem mesmo as investigações indispensáveis e as inadiáveis punições. É preciso reconhecer com simplicidade de aprendiz os muitos sinais de morte que transformam, aceleradamente, o tecido de nossa cultura em violência, dependência química e em outros males. Gradativamente, são perdidos os sentidos da fraternidade e da concórdia.

Lançar o olhar sobre a realidade e tratá-la adequadamente deve ser prioridade para evitar o comprometimento dos projetos que impulsionam na direção do bem. O Papa Francisco, na sua mensagem pela paz, adverte que “há alguns de nós que, por indiferença, porque distraídos com as preocupações diárias, ou por razões econômicas, fecham os olhos”.  Pois é hora de abri-los bem. Caso contrário, a mediocridade vai empurrar a sociedade para um estado gravíssimo de escravidão, amenizado pelos luxos sem sentido, pelas esnobações de todo tipo e pelo atraso que faz crescer o abismo entre ricos e pobres. A alegria, o bem e a beleza podem ajudar na reconstrução da sociedade.

O ano começou com a posse de governantes e parlamentares.  Se esta virada pela promoção da paz começar com eles - devedores da confiança da representatividade que os obriga a servir o povo - e incluir os mais diversos segmentos, todos ancorados na convicção de que bom é ser honesto, será dado o salto esperado na sociedade brasileira.  Todos têm o dever de se reconhecerem e de agirem como promotores da paz.  

 Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Ano da paz, novo advento 

A Igreja Católica decidiu, durante a Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), promover um Ano da Paz. Essa decisão importante fundamenta-se na urgência de unir esforços para transformar a realidade e lutar, incansavelmente, na promoção da paz, que é um dom de Deus, entregue aos homens e mulheres de boa vontade pelo Príncipe da Paz, Jesus Cristo, Salvador e Redentor.

Ao investir na promoção do Ano da Paz, a Igreja, a partir de sua tarefa missionária de anunciar Jesus Cristo e seu Reino, empenha-se e busca sensibilizar outros segmentos da sociedade para enfrentar a violência, que atinge de modo arrasador a vida, a dignidade humana e as culturas. Uma fonte de sofrimento que ameaça o futuro da humanidade, com graves consequências para diferentes povos e sociedades. Ao promover o Ano da Paz, a CNBB aciona a grande rede de comunidades de fé que forma a Igreja no Brasil para que, em parceria com outras instituições, seja cultivada uma consciência cidadã indispensável na construção de uma sociedade sem violência. Para isso, conforme ensina Jesus no Sermão da Montanha, é necessária a vivência de uma espiritualidade que capacite melhor os filhos de Deus, tornando-os construtores e promotores da paz.

Trata-se de um percurso longo a ser trilhado, uma dinâmica complexa a ser vivida, para que o coração humano torne-se coração da paz. O Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, sublinha que, enquanto não se eliminarem a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos, será impossível erradicar a violência que, venenosamente, consome vidas, mata sonhos e atrasa avanços.

A vivência do Ano da Paz é uma tarefa que deve ser assumida pelos homens e mulheres de boa vontade, empenhados no trabalho de contribuir para que cada pessoa se reconheça como um coração da paz. Esse serviço deve ser vivido de modo criativo, sem enrijecimentos ou complicações, valendo-se de estruturas, instituições, especialmente as educativas e os meios de comunicação. No exercício dessa tarefa, é preciso cultivar uma espiritualidade que determina rumos. Ao mesmo tempo, torna-se imprescindível exercitar a intrínseca dimensão política de nossa cidadania, lutar pelo estabelecimento de dinâmicas e processos que ajudem a avançar na erradicação dessa assombrosa e crescente onda de violência que se abate sobre nossa sociedade, provocada, de certo modo, pela mesquinhez que caracteriza o mundo atual.

A vivência do Ano da Paz, ainda que sem impactantes eventos, é a esperança de que as ações simples e cotidianas, de cada pessoa, podem provocar grandes mudanças, especialmente as culturais, que contribuem para a manutenção da violência. No Brasil, por exemplo, as estatísticas mostram que, anualmente, o número de homicídios é equivalente ao de guerras pelo mundo afora.  Não se pode abrir mão de análises profundas com força sensibilizadora, capaz de despertar certa indignação sagrada e cidadã. Também são importantes os debates em congressos, seminários e outras modalidades, aproveitando oportunidades variadas para se falar do tema da violência e suas consequências, que acabam com tudo – inclusive com a possibilidade de se partilhar ocasiões festivas.

A ausência da paz inviabiliza, por exemplo, que os diferentes partilhem momentos de festa nos estádios de futebol, de modo saudável, alegre e fraterno.  Infelizmente, prevalecem situações de selvageria nos estádios e nas ruas. A violência se faz presente também no ambiente das empresas, escritórios e, abominavelmente, no sacrossanto território da família, pela agressividade contra as mulheres.  A ausência da paz nos lares, o desrespeito às mulheres, impede que crianças e jovens desfrutem do direito insubstituível de ter uma família, escola do amor e humanização.

Que o Ano da Paz comece sempre pelo exercício eficaz de se silenciar, em comunhão com os membros da própria família, nos escritórios, salas de aulas, nas igrejas, nas reuniões e em outros grupos. Um minuto de silêncio pode fazer diferença no cultivo da paz no próprio coração, tornando-o um coração da paz. Nesse caminho, cada pessoa se qualifica para atuações mais comprometidas na mudança de cenários, valorizando os pequenos gestos e as pequenas mudanças na construção da grande e urgente transformação cultural, um “passo a passo” para vencer a violência. Do tempo do Advento - preparação para o Natal deste ano - até a celebração do Natal em 2015, vamos vivenciar o Ano da Paz, oportunidade para cultivar uma densidade interior. Essa experiência permitirá a todos, no dia a dia, em diferentes oportunidades, com gestos e ações, contribuir para o novo advento, a paz entre nós.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Eleitos e candidatos

Na antiga tradição, candidato era aquele que se vestia de branco, candidus, para se apresentar ao sufrágio de escolhas no contexto da comunidade. Portanto, candidatar-se significava, antes de tudo, ter condição moral e ousadia para assumir exercícios de representatividade. Ser cândido é zelar pela conduta honesta e ilibada. A partir dessa compreensão, é possível concluir que os eleitos precisam continuar candidatos, isto é, devem se empenhar, dia a dia, com incidência em cada um dos seus atos, escolhas e deliberações, no compromisso de alicerçar-se numa conduta merecedora de confiança.

O primeiro compromisso dos representantes públicos deve ser assumir a condição de servidor do povo. Assim também deve ser nos diferentes âmbitos e instâncias da sociedade, incluindo religiosas, corporativas, educacionais e todas as outras que articulam a identidade pluralista da contemporaneidade. Leves descuidos, seja na esfera pessoal ou social, provocam sérios prejuízos, alimentam vícios que comprometem o desenvolvimento e impedem a inadiável construção de um mundo mais justo e solidário. Se alguém se candidata, sua moralidade há de ser a base primeira, antes mesmo da indispensável competência administrativa e técnica. Pode se imaginar o desastre quando faltam parâmetros morais a um gestor. Obviamente, paga-se um preço muito alto.

O candidato eleito não pode agir de modo superficial, pois sua autoridade política deve ser instrumento de coordenação das relações, procedimentos, funcionamentos e instituições para que estejam a serviço do desenvolvimento humano integral. Nesta perspectiva, pois, não bastaria ao representante do povo apenas lutar por algumas causas, nem mesmo somente trabalhar para garantir o desenvolvimento econômico, em vista de uma organização social equilibrada. É imprescindível compreender e, consequentemente, agir à luz e no horizonte do desenvolvimento integral. Aponta-se aqui que não será exitosa uma representação, gerência ou condução na sociedade se prevalecerem as lacunas humanísticas e o estreitamento de interesses cartoriais.  Certamente, dessas lacunas derivam as mediocridades que fragilizam a necessária ideologia político partidária, que deveria contribuir para o debate e exercício da cidadania. Em vez disso, servem de “trampolim” para ações egoístas, que beneficiam poucos e enfraquecem o gosto pelo bem comum, especialmente pelos mais pobres.

Os avanços sociais vividos no Brasil das últimas décadas ainda não são suficientes para a equidade própria de uma cultura civilizada. É bom lembrar que sem o espírito de candidato, comprometido com o desenvolvimento integral, o prejuízo é previsível e torna-se permanente a carência de respostas. Continuam os loteamentos e aparelhamento de máquinas públicas, uma sedução para quem, por falta de lastro humanístico, se corrompe no poder e no dinheiro. Obviamente, não se alcança a necessária conduta moral de “uma hora para a outra”. Só quem, ao longo da vida, trilha esse caminho consegue reconhecer a centralidade que é o bem do outro e, sobretudo, dos que são os pobres. Portanto, manter-se na condição de “candidato puro”  é zelar pela própria autoridade moral. Para isso, não basta apenas o respeito a normas e valores de caráter puramente históricos e sociológicos. Torna-se imprescindível reconhecer a dimensão de transcendência da ordem moral, universal e absoluta, de igual valor para todos. Sem esse reconhecimento, a luta pelo poder levará à insanidade.  A manipulação interesseira é berço perene da corrupção. A incompetência humanística e relacional alimenta uma sociedade incivilizada, que sofre com as arbitrariedades e usurpações.

A ordem moral não pode existir sem Deus. Separada dele, desintegra-se. E cada candidato eleito, atuando no Estado laico, de modo a respeitar sua incontestável laicidade, o enriquece com essa força. A ordem moral é base que permite buscar o bem de todos. Por isso, não basta ao eleito dominar estratégias e compreender mecanismos de funcionamento das instituições. Agora, terminadas as eleições, está dada aos eleitos a oportunidade de evitar exercícios medíocres do compromisso assumido e da confiança conquistada. Espera-se que cada representante tenha como ponto de partida uma visão articulada do desenvolvimento em nosso tempo.  Assumam sempre, como prioridade, o trabalho para que os mais sacrificados da sociedade superem a fome, a miséria, as doenças endêmicas, o analfabetismo de todo tipo, promovendo audaciosas reformas. Faço votos para que os escolhidos continuem comprometidos com suas propostas e não esqueçam que devem ser sempre candidatos, candidus.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Não basta vencer as eleições

Não basta vencer as eleições do domingo, pois a verdadeira conquista é muito mais difícil de alcançar. Trata-se da vitória que é o bem do povo, particularmente dos mais pobres e sofredores, enjaulados em condições indignas de vida, privados de direitos fundamentais.  Os analistas, com diferentes pontos de vista, indicam a complexidade do momento. Diante de todos está o desafio do crescimento econômico, de se atender demandas de infraestrutura e de libertação da máquina pública das garras ferozes dos que dela se apossam, nos diversos níveis, instâncias e lugares, pelo Brasil afora, incapacitando-a no atendimento de sua finalidade - o zelo e a garantia do bem comum.

Ao considerar esse horizonte de exigências e desafios, compreende-se ainda mais que a ida às urnas exige responsabilidade de cada cidadão eleitor. Uma constatação evidente, mas que merece sempre reflexões. Quando se observa a atual tendência do eleitorado na sua escolha, percebe-se o peso da interrogação no ar. Este momento eleitoral tem revelado a indecisão de muitos, a divisão equiparada das opiniões, ora para um lado, ora para outro. Talvez isso seja sinal de certo amadurecimento da democracia. Um gesto aparentemente simples, apertar teclas da urna eletrônica, revela um processo da mais alta complexidade.

A candidatura escolhida vai nortear rumos, ou desconsertá-los, no quadriênio subsequente. Discernir e fazer a escolha, algo que precede o gesto simples e rápido de teclar, é agora o grande desafio cidadão. Há uma avalanche de elementos a serem avaliados, um caminho a ser bem trilhado rumo à definição mais apropriada possível, que colabore com o desenvolvimento da sociedade brasileira. A velocidade das mudanças e o aumento das necessidades reais do povo não admitem senão inovações, busca de novas respostas e a garantia de avanços. Conquistas são possíveis, embora difíceis. Particularmente, o eleitor deve buscar quem é capaz de superar a famigerada desigualdade social que ainda rege violentamente a sociedade brasileira.

Buscar o caminho novo inclui a verificação de um check list com incontáveis tópicos. Cada cidadão tem o direito, e até o dever, de tomar conhecimento destes itens todos para viver seu discernimento e alcançar uma amadurecida escolha. Também é importante conhecê-los para exercer o direito de acompanhar a efetivação dos compromissos assumidos por quem se elegeu e, portanto, tornou-se servidor do povo.  Dois aspectos, entre tantos, merecem alguma consideração neste momento decisivo. Um deles se refere à qualidade do processo de escolha. Eleitores não podem deixar-se influenciar apenas pelos resultados de pesquisas de intenção de voto, até porque elas têm revelado muitas fragilidades e limitações. Também é inadmissível aceitar que, a esta altura do terceiro milênio, ainda exista o antigo “voto de cabresto”, com os “currais eleitorais”, onde se define uma escolha pelos esquemas de dependência e se estimula a apatia em detrimento da participação popular.

Outro aspecto que agrava o cenário eleitoral é a carência de lideranças com perfis mais enriquecidos. Infelizmente, a poluição partidária, formada pelo excessivo número de legendas e, sobretudo, pela parcialidade e interesse cartorial, tem refletido na falta de pessoas qualificadas para o exercício do cargo público. Consequentemente, torna-se cada vez mais comum encontrar nas instituições públicas pessoas que não se comprometem com o bem da sociedade e com a superação do sofrimento dos mais pobres. O interesse cada vez mais hegemônico é a busca de ganhos para classes e grupos. No segundo plano, fica o gosto cidadão de representar o povo, servindo-o acima de tudo, trabalhando por suas necessidades.

A corrupção e os escândalos do uso inapropriado dos recursos do erário público emolduram a política brasileira. Essa grave crise na representatividade favorece mediocridades e, até mesmo, a escolha de quem não consegue inovar, ousar, de quem prefere a conservação que, por sua vez, alimenta o atual cenário. Diante de tantas necessidades de mudança, é certo que ao cidadão não basta apenas votar, e aos escolhidos nas urnas, não basta vencer as eleições. Há um íngreme caminho a ser percorrido.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Encruzilhada eleitoral

Na medida em que se entra na reta final para as eleições 2014, a propaganda avança e as pesquisas impactam. O cidadão se vê numa encruzilhada eleitoral. Um enorme desafio à cidadania. Não basta apenas escolher um nome. O alcance da responsabilidade e das consequências do voto não permitem atitude simplória, sob pena do alto custo de decisões inadequadas sobre o executivo e a representatividade. Uma gama enorme de fatores interfere na consolidação dessa esperada postura cidadã, obviamente na contramão da inadmissível proposta do voto nulo ou do não comparecimento às urnas. Eleições garantem o exercício nobre da cidadania. Por isso mesmo, supõem e exigem preparação individual muito mais elaborada. Um espinhoso processo de discernimento pela articulação e confronto desta gama de fatores que perpassam o emocional, as razões ideológicas - necessariamente presentes no embate eleitoral - e os interesses econômicos, atingindo um horizonte político de maior elaboração e clarividência. Fácil não é.

Escolher apenas por simpatia, sob impulso, é um tremendo risco. É indispensável analisar programas e propostas das coligações partidárias e ponderar elementos, especialmente aqueles de inegociável sensibilidade social, num momento em que o pobre e o excluído precisam ter prioridade de tratamento e destinações. Também não se pode dispensar o compromisso dos que têm competência para gerar e garantir dinâmicas de crescimento econômico e a consequente inclusão social. Trata-se de um exercício político que inclui atividade de conhecimento e disposição para debates e confrontos, nas rodas familiares, de amizade e profissionais, em exigente processo de discernimento. Agora é hora de buscar indispensável avanço na sociedade. 

Os vícios da política brasileira e suas mediocridades não justificam a falta de envolvimento e empenho por parte dos cidadãos. Aliás, a construção do novo, em política e em cenários de igualdade social, é processo complexo que supõe um "passo a passo" até que se possa alcançar a meta, responsabilidade de todos, de uma sociedade mais civilizada e amadurecida no exercício e no tratamento de sua cidadania. Basta pensar a amplitude de reformas que precisam ocorrer para que um cenário novo se desenhe, superando o modo obsoleto de se fazer política no Brasil.

Sabe-se que sem reformas política, tributária, fiscal e outras não se avançará para além de discursos repetitivos, estéreis, e de promessas que caem no descrédito. Neste “passo a passo” para que as reformas aconteçam, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e outras 400 entidades continuam, nesta Semana da Pátria, a investir no Projeto de Lei de Iniciativa Popular pela Reforma Política. Ao oferecer critérios adequados para avaliar a qualidade dos candidatos ao Executivo e, sobretudo, ao Legislativo, esta proposta impactará a realidade política do Brasil. Não custa nada contribuir com sua assinatura e buscar outras, entre amigos e familiares. Só assim, será possível se chegar ao número exigido de adesões para que o projeto da Reforma Política passe a tramitar no Congresso Nacional. Um desafio à hombridade dos eleitos e à coragem de olharem para além dos interesses cartoriais e particulares. 

Este Projeto de Lei, nos seus quatro importantes itens, terá força para modificar o atual quadro político do Brasil. Por meio dele, será possível afastar o poder econômico das eleições, com a proibição do financiamento de campanhas eleitorais por empresas; cobrar coerência de candidatos e partidos com a eleição em dois turnos - o primeiro para a escolha de um programa e o segundo para a escolha das pessoas que ocuparão os cargos políticos. Não se pode simplesmente, como acontece na realidade brasileira, depositar tudo nas mãos de algumas pessoas para que governem e legislem a partir de interesses próprios, de trocas e de pagamento de favores. A Reforma Política cobrará, ainda, a urgência inteligente de aumentar a participação das mulheres. Embora constituam 58% do eleitorado, apenas 8% delas desempenham funções políticas. É enorme a perda da contribuição feminina neste setor, em vista de sua qualificação comprovada em outras áreas.

É precioso ainda, como quarto ponto da proposta de Reforma Política, ampliar a participação do povo nas principais decisões, por meio da regulamentação de Plebiscito, Referendo Popular e Projeto de Lei de Iniciativa Popular, mesclando a democracia representativa com a democracia participativa. O não atendimento a esta urgência resultará em continuar a manter o povo - verdadeiro dono do poder - submisso a essa representatividade que não o representa. Refém de dirigentes que não atendem suas necessidades básicas e de direito, gerando quadros na contramão da justiça social.

Neste mesmo ato de coleta de assinaturas pela Reforma Política, como celebração digna da Semana da Pátria, se faz o recolhimento de votos por uma Assembleia Nacional Constituinte para mudar o sistema político no Brasil. O caráter popular deste plebiscito é um exercício importante de cidadania e com impacto nas instâncias governamentais para que convoquem um plebiscito oficial. O discernimento neste momento eleitoral e o gesto cidadão de participar desta coleta de assinaturas ajudarão a desenhar um novo cenário para que não seja tão nebulosa, como está agora, desafiando a todos, com riscos muito sérios, a atual encruzilhada eleitoral. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Entre diálogo e emoção

A dinâmica entre diálogo e emoção configura ou enfraquece a cultura de um povo e o sentido de sua identidade. Cada pessoa sofre os efeitos deste complexo processo, com incidências sobre o modo de se viver. O resultado final é um tipo de cidadania, ou aquilo que se reconhece por “brasilidade". Vale a análise da seriedade com que um povo realiza e respeita seus compromissos cidadãos. A corrupção é uma referência bem concreta do resultado deste processo entre diálogo e emoção. Trata-se de um binômio que entrelaça e influencia fortemente o jeito de ser de cada cidadão e o torna peça da engrenagem que faz a sociedade funcionar de um determinado modo. Pode produzir descompassos, alimentando as brechas vergonhosas entre ricos e pobres; fazer da política um mecanismo de interesses exclusivamente partidários, com a consequente perda do seu nobre sentido de priorizar o equilíbrio social. Esse processo que envolve diálogo e emoção também incide na ambiência religiosa, produzindo todo tipo de prática. É possível que resulte em manipulação, enriquecimento e outros absurdos, em detrimento da dimensão intrínseca à fé verdadeira, ao menos no que diz respeito ao Evangelho de Jesus Cristo - o compromisso com a justiça e uma incansável luta por ela.  

A discussão filosófica sobre a emoção é extensa.  Aristóteles a compreende como uma das três classes de coisas que se encontram na alma. Ela desempenha, neste sentido, um determinante papel na vida humana. O consenso é que as emoções sejam harmonizadas, para que não se pendule entre a hegemonia dos sentimentos e a tendência de eliminá-los. Existem emoções más. Algumas, inclusive, são produzidas para se alcançar metas questionáveis. Há também aquelas que temperam a existência, sem deixar prevalecer a perturbação que leva à perda da serenidade e o consequente comprometimento da racionalidade. A prevalência dos sentimentos ruins prejudica a articulação entre o diálogo e a emoção. Produz nefastos resultados para a cultura.  Também promove atrasos em respostas, aumento irracional da burocratização, disputas injustificáveis entre grupos e pessoas. Consequentemente, convive-se com grandes perdas de oportunidade e não se alcança a seriedade cidadã que alavanca o desenvolvimento integral da sociedade.  Esta fragilidade pode ser corrigida com a força, a abertura e a exercitação do diálogo.  

Dialogar não é apenas uma disputa. Trata-se de uma arte, método rigoroso de conceitualização que promove um processo cognitivo, temperado pelo que é bom das emoções. A dinâmica dialogal, no entanto, não pode ser confundida com os elementos que compõem um tratado geral sobre a fofoca, nem a produção de peças para desmoralização dos outros, muito menos enrijecimentos conceituais que irracionalmente levam muitos a construírem, para si mesmos e para seus pares, um lugar para julgar os outros. Isso está longe da dinâmica dialogal. O ensino formal e as práticas educativas na vida comum de uma sociedade podem ou não emoldurar a cidadania no equilíbrio entre diálogo e emoção. As polarizações emocionais produzem irracionalidades que cegam e comprometem processos políticos, a autenticidade da religiosidade. Formam os guetos institucionais e alimentam a rigidez cultural. Inviabilizam, assim, a inovação, porque prejudicam a racionalidade e, consequentemente, a inspiração necessária para as mudanças importantes. 

Esta reflexão pode servir para analisar e gerar novos entendimentos a respeito do que se passa na sociedade brasileira, no atual contexto eleitoral, como também contribuir para o tratamento adequado a ser dado aos gravíssimos problemas sociais que pesam sobre os ombros dos pobres, em relação à habitação, educação, saúde, trabalho. São necessários entendimentos criativos e cidadãos, indispensáveis para que a sociedade brasileira avance, não apenas nos resultados econômicos, mas também nos aspectos políticos e sociais. 

A sociedade precisa de cidadãos articulados entre diálogo e emoção, pilares de uma moralidade sadia e remédio para os absurdos que estão sendo gerados pela falta de proximidade, pelo descompasso emocional de muita gente. Pessoas que, muitas vezes, são amparadas por certa militância digital que aparentemente constitui lugar de aproximação, mas apenas acentua distâncias. Atitude sábia diante das irracionalidades é seguir a indicação poética de Fernando Pessoa: “Segue teu caminho, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias”. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo 
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Espetáculo e aberração

O dom da vida não pode pendular entre espetáculo e aberração no cotidiano da sociedade, da vida familiar e no dia a dia de cada um. Este movimento mata a cultura da simplicidade que revela, de maneira completa e autêntica, a glória do amor, razão única para empenhar-se na aventura de viver. Merece atenção o predomínio da perversa dinâmica pendular entre espetáculo e aberração, que infelizmente confere tônica à comunicação, ao funcionamento das relações interpessoais, ao jeito de fazer política e, até mesmo, ao modo de se usufruir da liberdade religiosa. Essa preocupação é pertinente porque tal dinâmica compromete a cidadania e é determinante na desestruturação da cultura. Não raramente, contribui para a deterioração de tradições, tão necessárias para o avanço da sociedade. A tendência de se rifar tudo o que se pode neste tempo, em razão de conquistas tecnológicas e conceitos reduzidos sobre liberdade, a partir da lógica perversa entre o espetáculo e a aberração, produz uma subcultura.  A grave consequência é a despersonalização das relações sociais que marcam a sociedade contemporânea.

É assustador o grande interesse do cidadão, seu fascínio pelas situações aberrantes que ganham ares de espetacular e alimentam o lado sombrio da condição humana. Avançar, progredir, fazer, conquistar, inovar e outros verbos podem e precisam compor o vocabulário da cidadania contemporânea. No entanto, a simplicidade há de ser a tônica para que não se percam balizamentos importantes no direcionamento do que se escolhe fazer, projetar e construir. O que se deseja fazer não pode estar desconectado com o sentido inegociável de serviço dedicado à sociedade e à cultura, em fidelidade a valores e princípios. Caso contrário, a dinâmica do espetacular e da aberração alimentará o ego de pessoas e grupos. Seremos vítimas de síndromes muito perigosas. Estaremos sempre distantes do mais nobre sentido de cidadania, da autêntica vivência confessional, segundo a própria liberdade de escolha, com consequentes manipulações em vista de interesses que ferem a vida dos cidadãos, particularmente dos mais pobres, frágeis e indefesos. A síndrome da disputa, que acomete diversos segmentos da sociedade, é exemplo de prejuízo que resulta da falta da simplicidade como parâmetro. Essa síndrome é alimentada pelo desejo egoísta de ser considerado o mais, o primeiro, o melhor, uma necessidade que faz negar o outro pela desclassificação, muitas vezes forjada e mentirosa.

Infelizmente, muito do que se faz não é para atender necessidades históricas, o que a vida apresenta como demanda, como a busca pela superação das desigualdades sociais. Com frequência, os projetos são elaborados, nas diferentes áreas e campos do saber, simplesmente como busca de engrandecimento pessoal, no máximo grupal ou partidário. Ignora-se uma cultura consistente nos seus valores e princípios, capaz de alicerçar a cidadania. Assim, torna-se consolidado um contexto em que o espetacular e a aberração valem sempre mais, prejudicando a simplicidade que garante igualdade, profundidade e resultados cidadãos.

Funcionar segundo o pêndulo da dinâmica do espetáculo e da aberração impõe à sociedade uma necessidade de viver da criação de figuras idolatradas. Isto impede o alcance de conquistas que só são possíveis a partir de uma cidadania vivida na simplicidade, na qual as diferenças, no que se refere à importância social ou à excelência no que se faz, não têm o restrito sentido de superar os outros. Ao contrário, estas características constituem responsabilidade ainda maior de colaborar para construção cidadã do tecido social, cultural e religioso que sustenta substantivamente um povo.  É alto o preço a ser pago quando se segue no caminho contrário desta compreensão. Convive-se, por exemplo, com os atrasos na mudança de cenários abomináveis e com a espetacularização de feitos e fatos, que nada contribuem para superar a distância entre diferentes camadas da sociedade.

Só a simplicidade alimenta a coragem de uma postura cidadã, fazendo com que todos sintam vergonha das desigualdades sociais, do modo medíocre como se faz política no país e, a partir disso, sejam capazes de gestos mais efetivos.  Ela capacita cada um a ser o que é não por vaidade, mas em razão da urgente mobilização para se reconstruir a sociedade.  Refletir este tema - a dinâmica pendular que coloca o dom da vida entre espetáculo e aberração - é oportunidade para se cuidar, em tempo, do acelerado processo de desumanização em curso, um risco para todos, que provoca prejuízos irreversíveis.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Novo jogo cultural

Jogadas as partidas da Copa do Mundo, concluído o evento, com seus saldos positivos, a sociedade brasileira, incontestavelmente, está emoldurada pela exigência de investir em um novo jogo cultural. É pobre o discurso que considera apenas a avaliação exitosa do Mundial, como vitorioso contraponto às vozes dos que “torciam contra”, apostando no caos  em aeroportos, trânsito e outros serviços. Não foi assim, felizmente. Contudo, poderia ter sido bem melhor se governantes agissem com mais lucidez, as burocracias não atrasassem processos e os interesses espúrios não fossem tão determinantes. Avanços mais expressivos seriam alcançados se prevalecesse um sentido cidadão por parte daqueles que têm tarefas determinantes na condução da sociedade plural.

Não menos ingênuo, depois de sinalizações e posturas populares, nos estádios e nas ruas, é apontar aspectos negativos do evento para construir o discurso político da corrida eleitoral em processo. É inteligente saber que o sentimento popular resiste a essas estratégias utilizadas na confecção de linguagens políticas que buscam captar a benevolência de eleitores. O Mundial, junto com as manifestações populares que ocorreram em meados de 2013, desenhou no horizonte da sociedade brasileira que é indispensável investir num novo jogo cultural, sob pena de atrasos e de vergonhosas goleadas em muitos campos, não só no futebol.

Esta intuição não é de um político iluminado, de uma estrela do futebol e nem mesmo de reverenciados intelectuais de diferentes campos das ciências. O povo fez esta indicação, não por um programa formal escrito, divulgado em redes sociais ou outros meios de comunicação. A postura popular, desde a presença nos estádios, suas manifestações de apoio ou descontentamento, a interação com diferentes culturas representadas por turistas e delegações esportivas, com as marcas da proximidade, do respeito e da alegria, sacramentou a grande necessidade de um novo jogo cultural na sociedade brasileira. Discursos repetitivos, consequentemente estéreis, a dificuldade de ouvir e dialogar, especialmente com os pobres e excluídos, tenderão a processual desmoronamento. Sem a necessária alma de caráter antropológico, capaz de compreender o conjunto da existência humana com suas demandas sociais, culturais, religiosas e políticas, perpetuarão os políticos com campanhas eleitorais de tempos passados, com discursos de recíprocos ataques. Predominará a superficial busca da construção de uma imagem de candidato perfeito e salvador da pátria, uma entediante comunicação que ninguém mais consegue ver e, sem alternativa, desliga a TV, o rádio. Prevalece a desilusão.

A reivindicação desse novo jogo cultural torna-se mais intensa, particularmente, quando se avalia o percurso do grupo campeão da Copa - sua cultura, suas escolhas de planejamento, sua aptidão de cultivar uma autoestima que sustenta a capacidade de lutar, conjuntamente, por metas e ideais.  Olhar para essa realidade mostra que a sociedade brasileira precisa analisar e desmontar os esquemas de elitização, que pouco ajudam nos avanços possíveis na atualidade. Incontestavelmente, é hora de aproveitar melhor a oportunidade para a instauração de processos, em níveis diferentes da sociedade e nos seus funcionamentos, investindo numa grande obra educativa e cultural. Não se pode perder a chance de aprofundar análises para amadurecer intuições e alcançar indicadores novos, diante da necessidade de novas respostas. Torna-se inoportuno, simplesmente, contentar-se com as conquistas obtidas, pois ficaram abaixo do que era possível, por entraves ideológicos, incompetências de gestão e aprisionamento da cidadania em defesa de interesses grupais.

A condição continental do Brasil não pode dispensar a peculiaridade das diferentes regiões nos Estados da Federação, com seus valores, tradições e patrimônios próprios. Será sempre inoperante tratar uma realidade grande e complexa sem considerar aquilo que a constitui: suas tradições e valores regionais. Esse raciocínio vale também para os campos da política, economia e religião. Não existe pessoa, ou instância, que, de modo solitário, possa reger um processo de dimensões continentais. Buscar uma nova realidade a partir do diálogo - com a competência de programas governamentais menos genéricos e teóricos, cultivo da autoestima e o investimento de base, iluminado por um horizonte marcado por valores humanísticos - poderá conduzir a sociedade brasileira no caminho indicado pelo povo.  É hora de investir num novo jogo cultural.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Nomeação do Relator da Positio

A Associação dos Amigos de Irmã Benigna - AMAIBEN, com grande alegria, comunica aos amigos e devotos da Serva de Deus a nomeação do Revmo. Maurizio Tagliaferri, na data de 27 de junho de 2014, como Relator da Positio.

De acordo com o Postulador da Causa, Dott. Paolo Vilotta, a Positio é uma espécie de dossiê que resume todas as provas reunidas na Fase Diocesana, para o Processo de Beatificação. Entregue oficialmente a Positio, deve-se aguardar até que seja examinada por nove teólogos, que opinarão sobre a vida, as virtudes e a fama de santidade da Serva de Deus. 

Sendo consideradas positivas as avaliações dos teólogos, uma comissão de cardeais e bispos fará sua avaliação, em seguida. A virtude heróica da Serva de Deus somente será decretada por Sua Santidade, o Papa. Neste momento, a Serva de Deus poderá ser declarada Venerável.


Do povo, para o povo

O poder que configura e articula o estado democrático de direito é do povo e para o povo, conforme reza o Artigo 1º, parágrafo único da Constituição do Brasil. Lembrar-se disso ajuda a compreender que o poder do povo não se esgota, obviamente, no exercício cidadão do direito de votar. Aos representantes eleitos não é permitido usurpar o sentido e as propriedades do poder a ser exercido, que é confiado pelo povo. Além da honra de exercer o poder, os eleitos, quase sempre, são remunerados pelo povo por meio de impostos, que são sempre muito pesados.  Portanto, qualquer tipo de usurpação merece protesto e imediata correção. Nesse sentido, a movimentação ideológica partidária não pode ser um trampolim para que pessoas e grupos usufruam dos benefícios do poder e, ao considerarem somente essa ambição, sejam responsáveis por uma administração inadequada, burocrática, pouco lúcida na escolha de prioridades.  

As eleições deste ano estão ganhando moldura nova, com expectativa de novas dinâmicas e posturas populares, favorecidas com a celebração da Copa do Mundo, sem dúvida um megaevento. O povo, no exercício de seu poder, silenciou a classe política. Inviabilizou uma possibilidade, que era bem real, do uso do Mundial e de seus estádios cheios como palco de comícios. Um sinal de esperança e também demonstração da soberania popular. Torna-se evidente que os desejos de certos grupos não vão contracenar com os anseios do povo, que articula, magistralmente, as euforias e tensões próprias da paixão pelo futebol com demonstrações de amor à pátria e belo sentido de solidariedade universal.  

Essas cenas reacendem a essência do poder que emana do povo. Pelo viés do esporte, em um contexto político e social novo, onde a população exerce sua liberdade de escolha, seu direito de expressão e participação, renova-se a certeza de que a política não pode continuar a ser tratada e vivenciada com as mediocridades que a têm caracterizado. A superação desse quadro supõe os passos corajosos e cidadãos de uma adequada reforma política, para corrigir dinâmicas culturais viciadas e comprometidas. Trata-se de um passo decisivo para transformar o contexto atual de muitos atrasos, que fazem a sociedade brasileira perder oportunidades para o crescimento, não avançar na infraestrutura e na superação dessa vergonhosa e crescente brecha entre ricos e pobres. Falta educação de qualidade, assistência sanitária adequada, moradia digna, transporte público e tantas outras necessidades.   Essas e outras carências constituem uma clara acusação a governos e outros segmentos da sociedade pelo próprio crescimento da criminalidade. 

 Uma realidade visível, por exemplo, em dados do Ministério da Saúde (Mapa da Violência 2014), que mostram nossos recordes em homicídios. A cada dia, em média, morrem 154 pessoas assassinadas no Brasil. Diante deste triste quadro, é possível afirmar que estamos numa verdadeira guerra civil, camuflada por várias situações. Há, indiscutivelmente, perda geral do mais relevante sentido humanístico, o que coloca em risco os dias que virão. Engana-se quem pensa estar distante dessa guerra camuflada. Ela não poupa ninguém e se aproxima de todos. A esperança é que o povo, mais consciente de seu poder a partir das lições que deu durante a Copa do Mundo, trate de modo mais qualificado a sua realidade social e política.  Desse modo, é possível construir um futuro diferente.  

Diante de posturas novas de quem é soberano na posse do poder, segmentos específicos serão obrigados a adotar novas condutas. Particularmente, os políticos que submetem seus nomes ao sufrágio do voto, precisarão criar coragem, como ato de inteligência, para, permanentemente, estarem em diálogo, sobretudo com os pobres, a base popular. O Papa Francisco indica aos pastores que é preciso “ter cheiro de ovelhas”, estando sempre no meio delas. Uma rica lição, que deve ser aprendida também pela classe política. Governar sem ouvir diariamente a voz que vem das ruas e das periferias compromete a confiança recebida do verdadeiro dono do poder, o povo. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Povo brasileiro, campeão?

O futebol do Brasil é o único que se fez representar em todas as Copas do Mundo e, nesta história, pela primeira vez, o povo brasileiro tem a oportunidade para dar um tratamento diferente ao megaevento esportivo, justamente quando é realizado aqui. Em outras ocasiões, comentava-se o risco de manipulação governamental em proveito próprio e de interesses partidários. Mas, neste Mundial de 2014, cresce a esperança de que a sociedade avançará em suas análises políticas e avaliações de impactos sociais. Nesse exercício, devem ser incluídas as reflexões sobre gastos bilionários em detrimento de necessidades básicas urgentes na infraestrutura. Também é importante saber separar a euforia do torcedor  das avaliações sobre os políticos e a política partidária. Afinal, a conquista do hexa não será, obviamente, a garantia de que o povo brasileiro se tornará campeão.

A competitividade esportiva, além do divertimento e do entusiasmo da festa, por sua força educativa própria, é metáfora rica com indicações para o comportamento cidadão que almeja uma condição campeã. Há, pois, sinalização concreta de amadurecimento popular nessa etapa nova dos desdobramentos políticos e sociais no Brasil. A Copa do Mundo tem data fixada para acabar e, evidentemente, a vitória brasileira será motivo de alegria para o povo. Contudo, não garante os mais significativos avanços na busca das vitórias necessárias e urgentes, quando se considera os enormes desafios a serem vencidos para mudar cenários desoladores que mancham a pátria amada.

Terminada a Copa, o povo brasileiro tem ainda um longo caminho a percorrer em busca de sua indispensável condição campeã no tratamento dos pobres, na superação da exclusão social vergonhosa, na grande concentração das riquezas e do dinheiro nas mãos de uma minoria, entre outros desafios. Encontrar um novo modo de se fazer política no Brasil, de maneira mais civilizada, lúcida, propositiva, sem demagogias, em diálogo com a população, também é meta a ser alcançada. E esse caminho não será percorrido sem que a sociedade brasileira paute suas ações a partir de inequívoca reciprocidade, baseada em  princípios e valores que reconhecem o bem moral como condição indispensável para a estruturação da vida social e política.

Percebe-se que a batalha é grande. A corrupção endêmica que tempera funcionamentos institucionais, governamentais, condutas individuais, precisa de um tratamento extremamente incidente. As eleições de 2014 precisam ser marcadas pelo exercício cidadão de buscar corrigir os rumos do país. Na contramão desse caminho, a oportunidade de mudanças mais profundas será entregue de “mão beijada” aos produtores de uma política inócua. É fundamental uma reeducação a partir do gosto pela verdade, capaz de promover uma grande mudança cultural. Deste modo, será possível até mesmo o enfrentamento da postura irônica de considerar serem politicamente corretas as falsas posturas, que objetivam captar a simpatia do cidadão para se alcançar certos objetivos e, em seguida, após conquistá-los, ignorar completamente os anseios do povo.

Gostar da verdade ainda é um enorme desafio na configuração da sociedade.  Trata-se de imprescindível condição para se formar um tecido cultural mais consistente e, consequentemente, uma capacidade para lidar de modo mais nobre com a liberdade e com a justiça. Só a plena verdade sobre o homem, vivida no tratamento da vida cotidiana, permite a superação de uma visão distorcida do que é justo, abrindo o horizonte daqueles que estão nas cortes, instâncias governamentais, nos diversos campos profissionais, nas relações familiares e interpessoais, para a solidariedade e o amor.

Os elogios à receptividade brasileira aos visitantes estrangeiros é o sinal de que as praças esportivas, embora chamadas de “arenas”, as ruas e todos os lugares devem ser espaços de acolhida, ambientes para o intercâmbio civilizado e construtivo. Permanecerá o desafio de, terminado o Mundial, conservar no coração do povo brasileiro essa abertura para o encontro, impulsionando um caminho novo de solidariedades e revisões profundas das desigualdades. Enquanto não se conseguir eliminar a exclusão social, vergonhosa entre nós, não se vencerá a violência crescente. O sistema social em que vivemos é injusto na sua raiz. É indispensável continuar a luta contra a idolatria do dinheiro e outros males para que a cultura da vida com seus valores e tradições seja salva. Com ou sem o hexa, conta é que seja o povo brasileiro campeão.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Copa, povo e política

A Copa do Mundo no Brasil está desenhando importantes lições apontadas pelo povo, responsável pela progressiva construção de um quadro que, passo a passo, consegue distinguir os muitos aspectos que envolvem o torneio. De um lado, o interesse meramente econômico de dirigentes e mandatários, os altos salários inadmissíveis de jogadores e as indevidas apropriações políticas do esporte. Do outro, o gosto pelo futebol, sua arte e elemento de diversão, e o exercício de fraternidade universal, alegria e confraternização que reúne diferentes línguas, culturas e nações.

Sem perder essa luz própria, mesmo com as sombras de algum cenário de violência e vandalismo, o povo mostra uma força que deve servir de alerta a governantes, especialmente neste ano eleitoral, e a todos os construtores da sociedade pluralista. Trata-se de uma mobilização que não apenas pode, mas deve se manifestar nas urnas. O voto consciente tem a propriedade para reconstruir a sociedade. Para alcançá-lo, é preciso reconhecer-se como cidadão, parte de uma grande comunidade que deve caminhar unida em busca da superação dos desafios que atrapalham o desenvolvimento do país.   O ambiente que vem sendo construído pelo povo, ao longo desta Copa do Mundo, pode contribuir para que se alcance esse objetivo.

A vibração pelo esporte e a inteligência de não se perder a oportunidade da confraternização entre as pessoas estão sendo vividas de uma maneira muito singular. Essa particularidade está na postura político-cidadã de gestos como a acolhida aos visitantes e a realização de manifestações pacíficas, altamente significativas.  Nos próprios estádios, o povo quebra o protocolo dos organizadores e canta mais forte, de modo completo, o hino nacional, fazendo ecoar um recado de cidadania e o entendimento de que o governo de uma sociedade é feito pelo povo. Deste modo, seus delegados e representantes devem estar a serviço do bem comum.

A Copa do Mundo gera uma oportunidade para o próprio povo mostrar que não é multidão amorfa, inerte, a ser manipulada e instrumentalizada. É, na verdade, a união de pessoas, cada uma no seu lugar e a seu modo, como ensina a Doutrina Social da Igreja Católica, com autonomia para formar opinião própria a respeito da coisa pública e de exprimir sua sensibilidade política em vista do bem comum. Quando os representantes do povo aprendem a ouvir a voz que vem das ruas, em vez de obedecerem aos interesses partidários e de segmentos poderosos, tornam-se políticos dignos de autêntica estatura cidadã, capazes de trabalhar em busca de uma sociedade justa, solidária e civilizada.

O povo está sinalizando aos “profissionais da política”, nos âmbitos legislativo e executivo, que é urgente a comprovação desse pacto com o bem comum antes de se submeter às urnas. A autoridade política não pode ser fruto meramente de conchavos, articulações partidárias interesseiras garantidas pelos leilões de cargos e de vantagens, mas de um incondicional respeito e vivência de inegociável moralidade. Compreende-se, portanto, que a autoridade política não se esgota simplesmente em alguns feitos quase sempre distantes das mais urgentes demandas sociais. Trata-se, justamente, de reconhecer que essa autoridade é o povo, detentor da sua soberania, conforme bem ensina a Doutrina Social da Igreja.

A Copa está confirmando a etapa nova inaugurada em junho do ano passado, quando a sociedade brasileira, em muitas manifestações, fez ouvir a sua voz. Há um senso comum no mais recôndito da consciência popular que está se aflorando pela alegria proporcionada pelo futebol. Um clima de confraternização que não inclui governos e deixa recados para os políticos, mantendo distância daqueles que usufruem absurdamente do que pertence ao bem comum.  O Mundial, no conjunto de suas circunstâncias e desdobramentos, participação e debates, manifestações e indiferenças, está fazendo crescer - e que não seja perdida a oportunidade - uma sociedade brasileira politicamente diferente.

Vive-se um momento que precisa de desdobramentos e não pode ser perdido, com o término da Copa e a partir da profusão de discursos políticos obsoletos, particularmente aqueles que se constroem com os ataques mútuos e com as promessas sempre não cumpridas. O Mundial pode mesmo ser um exercício de vitalidade do povo, por suas escolhas de alegrar-se, manifestar-se, manter distâncias, debater e formar opinião de modo que a participação política ultrapasse os atos formais de votar e mesmo de se reunir em associações, partidos e sindicatos. É hora de um passo qualificado na política, diante da insatisfação com governos e representantes, em busca de uma sociedade politicamente mais cidadã e igualitária. Quem sabe, por isso mesmo, esta será para os brasileiros a “Copa das Copas”, porque sem esgotar-se em euforias que permitem manipulações, aponta um amadurecimento político do povo.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


A cultura do encontro 

A sociedade contemporânea, mesmo diante dos muitos recursos existentes e oportunidades disponíveis, particularmente pelos avanços tecnológicos, continua marcada por grandes desencontros. É verdade que se testemunha, com frequência, a partir dos atuais instrumentos, experiências bem-sucedidas de encontros, desdobrando-se em cooperação, concretização de projetos sociais, políticos e humanitários. No entanto, causa perplexidade, outros tantos exemplos de descompassos da sociedade moderna, que a colocam na contramão de grandes oportunidades. Há de se perguntar, permanentemente, a razão desses desencontros, para impulsionar a busca por soluções diante de cenários desanimadores.

Esse quadro desolador é facilmente verificado quando são submetidos a avaliações a atuação de governos, a grave realidade do descrédito aos políticos e o êxodo prejudicial das esferas de participação cidadã responsável. Uma triste realidade que enjaula a cidadania numa esfera de privatização individualista, instaurando um “pé de guerra” entre grupos, povo e governos, dirigentes e operários. É estabelecido, assim, um caos que desassossega homens e mulheres de boa vontade. De fato, quando se analisa o desânimo dos cidadãos na avaliação de governos, ou quando emitem juízos a respeito do esperado legado da Copa, compreende-se que falam mais forte os desencontros e os descompassos. Assim não pode ser e permanecer.

Urge uma reação cidadã, com incidências transformadoras em vários níveis, sem mesmo poder eximir desse processo de mudança a vida pessoal e familiar. Na contramão desse caminho, será fortalecida uma cultura de tecido duvidoso e prejudicial para o sentido autêntico de liberdade e autonomia. Crescerá a violência e o desrespeito à dignidade. A civilização estará ainda mais distante do indispensável sentido de altruísmo, de patriotismo e de pertença cidadã à nação. A “pátria de chuteiras”, pensando o Brasil apaixonado pelo futebol, às vésperas do início da Copa do Mundo, está decidida a pisar forte sobre tudo o que está comprometendo essa possibilidade, tão esperada, de um legado maior, global e capaz de colocar o Brasil, de fato, numa nova etapa política e social.

Sofre-se pela falta de lideranças com estatura, em diferentes níveis. Encontra-se, com mais facilidade, quem engrossa a voz dos coros de lamentação ou das ações vandálicas. Há uma carência de pessoas que se dedicam a uma atuação mais criativa, corajosamente inovadora e cidadã, especialmente no âmbito governamental, primeiro responsável pelo bem comum. Os descompassos produzidos por tantos desencontros, explicados por erros de estratégia na atuação, por equívocos nas escolhas das prioridades sociais, por falta de competência humanística e ajustada visão antropológica de muitos profissionais da política; por falta de sensibilidade humanitária e visão mesquinha do dinheiro, resultam na incapacidade para gerar redes de solidariedade.

Torna-se urgente investir, permanentemente, na cultura do encontro, indicação prioritária no ensinamento e no testemunho do Papa Francisco. A propósito da celebração anual do Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Papa trata o tema central da comunicação a serviço de uma autêntica cultura do encontro. Não há outro caminho em busca da superação das divisões muito acentuadas na humanidade, responsáveis por abominações que pesam sobre as sociedades, sacrificando mais os pobres, inocentes e indefesos. O diagnóstico do cenário mundial comprova o quanto o mundo sofre com os conflitos advindos de exclusão, marginalização e pobreza, como também pelas razões econômicas, políticas, ideológicas e até religiosas.

É hora, pois, de uma ação transformadora, aproveitando os meios de comunicação, os megaeventos mundiais como a Copa do Mundo, e tantos outros de maior ou menor alcance e relevância, para recuperar o sentido perdido do outro, particularmente dos pobres, excluídos e vítimas dessas dinâmicas perversas alimentadas pela corrupção, pelas opções governamentais equivocadas, pela burocracia repugnante que retarda urgências, pela mesquinhez do individualismo exacerbado, sempre seguindo o princípio do “salve-se quem puder”. A comunicação produzida pela mídia no decorrer da Copa do Mundo não pode ser apenas estimuladora da euforia. É prioritário alimentar a sensibilidade social e política, em ano eleitoral, para fomentar discussões e posicionamentos em torno das questões mais urgentes que estão afligindo a vida do povo brasileiro.

Essa oportunidade não pode ser perdida, nem mal usada, sob pena de serem retardadas as respostas urgentes, de se impulsionar a violência nascida de revoltas desajuizadas, de se conviver com o inadequado desempenho de políticos. A sociedade brasileira está sinalizando que o esperado legado da Copa, razão de descontentamento geral, não pode ficar diluído nos estádios bilionários construídos.  Um evento da magnitude de uma Copa do Mundo não pode ser apenas mais um carnaval que passou. Por princípios cidadãos e irrefutável força da fé, pelos debates e gestos concretos, agora é hora de recomposição do tecido social e político, no caminho da cooperação e proximidade, transformando o país a partir da cultura do encontro.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Olhar a bola e o social

A Copa do Mundo está se aproximando e a sociedade brasileira confirma sinais de que não tratará o futebol simplesmente com a habitual euforia. O “país do futebol”, cansado com o modo obsoleto de se fazer política, está emoldurando o mundial com a exigência de se promover mudanças. Não bastará, como de costume, fixar o olhar na bola. É imprescindível debater as questões sociais, investindo em transformações profundas. A euforia própria do futebol, com sua alegria que bem vivida congraça e inspira união de corações, precisa receber marcas incidentes.  Trata-se de adicionar um componente cidadão que contribua para as reformas que o Brasil, especialmente o pobre, espera e precisa. Desta vez, a tática usada desde o Império Romano de distrair o povo das questões sociais e políticas com o entretenimento não pode funcionar.

Com frequência acompanhamos as notícias na imprensa sobre os jogos da Copa que, por exigência de seu órgão superior, poderiam ser realizados em oito estádios. Por isso mesmo, ninguém consegue entender a razão dos investimentos na construção extremamente onerosa aos cofres públicos  dos estádios que são considerados desnecessários para o evento. Se confirmada a notícia, trata-se de outro indício da incompetência governamental no planejamento da destinação dos recursos que precisam ser suficientes para atender não apenas o futebol, mas, sobretudo, as necessidades inegociáveis e inadiáveis da saúde pública, educação, transporte, habitação, numa lista interminável de demandas e urgências.

O país do futebol tem nas mãos a oportunidade de não permitir que se manipule a euforia bonita e contagiante deste esporte. Uma tática obsoleta de “pão e circo” para desviar o olhar cidadão das questões que merecem críticas, respostas urgentes, encaminhamentos mais participativos e solidários. O discurso das ruas do ano passado, emoldurando a Copa das Confederações, efetivamente inaugurou esse novo tempo. São muitas as opiniões que apontam que os legados da Copa não serão como mostram as propagandas. De fato, o não cumprimento, ao longo de sete anos, a partir  da escolha do Brasil  para sediar o mundial, das promessas de investimento na infraestrutura, estradas, aeroportos, transporte urbano, com especial atenção para as conturbações das grandes regiões metropolitanas, um caos na vida do povo, é um legado negativo, que mostra a incompetência e a morosidade dos que estão gerindo a máquina pública.

É verdade que não é fácil corresponder às necessidades de hoje, “tapando os buracos” que se formam pelo arrastar-se de coisas do passado, e projetar ao mesmo tempo o futuro. Mas, a incompetência na escolha de prioridades, junto com o partidarismo patológico e atrasado da política brasileira, interesseira, cartorial e coronelista, deveriam incomodar mais governantes e políticos, impedindo-os de se sentirem à vontade na festa do povo. Uma festa que deve acontecer na paz e no respeito mútuo, cultivando o espírito de congraçamento pela euforia e pelo acolhimento de visitantes, especialmente os que vêm do exterior, num exercício cidadão de receptividade e solidariedade. Esse clima alegre e especial pode favorecer a inteligência  para que se escolha bem as prioridades da vida privada e, sobretudo, aquelas da vida pública, quando se tem a oportunidade de servir e de fazer o bem, promovendo a justiça para todos.

O grande legado da Copa do Mundo não será a construção onerosa dos estádios, mesmo considerando suas outras possíveis destinações; nem se fala dos investimentos prometidos e não realizados na infraestrutura, sem deixar de reconhecer o que avançou; nem mesmo uma esperada campanha vitoriosa da seleção brasileira. O grande legado poderá ser uma consciência social e política mais aguçada dos cidadãos brasileiros para empurrar com sua força, não apenas nas urnas, mas diariamente e nos diferentes segmentos, as mudanças cotidianas e as respostas urgentes que precisam ser dadas para não se continuar a sacrificar indiferentemente os pobres, não perpetuar gestos e estilos de vida na contramão da cidadania. Precisamos fazer crescer uma condição de brasilidade que guarda marcas de profundos sentimentos fraternos e a abertura para solidariedades.

A Arquidiocese de Belo Horizonte, em sintonia com a Igreja Católica no Brasil, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em cooperação com outros segmentos sociais e religiosos da sociedade brasileira, tem programação própria, já em curso, especialmente para o mês da Copa do Mundo. Uma série de atividades que contemplam a acolhida religiosa e fraterna de visitantes nas igrejas e santuários, ocasiões para a vivência de momentos culturais, de espiritualidade e também de encantamentos, diante de belezas como o conjunto arquitetônico, religioso, cultural e paisagístico do Santuário Nossa Senhora da Piedade, na Serra da Piedade, ou da Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha.  No contexto destas atividades, a Arquidiocese conclama sua grande rede de comunidades de fé para ações que objetivem o fortalecimento da consciência política e a busca de um refinado sentido social. Neste período de festividades, vamos intensificar a coleta de assinaturas para que a iniciativa popular faça avançar a Reforma Política, uma grande urgência de nosso país. Cada um, com seu título de eleitor, é convidado a aderir e também a avaliar, neste ano eleitoral, quais políticos lutam por esta mudança necessária. Em paz e de maneira cidadã, vamos celebrar a Copa do Mundo de olho na bola e no social. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Jogar pela vida

A Copa do Mundo deste ano pode se tornar um dos mais significativos momentos da história sociopolítica do Brasil. O discurso que se ouviu nas ruas, em junho do ano passado, foi um sinal, obviamente com a recusa radical dos lamentáveis episódios de vandalismo, violência e atentados contra o patrimônio público. Historicamente, a sociedade brasileira sempre viveu o tempo da Copa do Mundo simplesmente como momento de euforia e divertimento. Essa paixão esportiva nacional, com sua força educativa e o gosto gostoso que o futebol dá à vida dos torcedores, indica que é preciso conciliar euforia e divertimento com o viés político e social.

Os fantasmas e ameaças do vandalismo não podem atropelar a oportunidade cidadã de jogarmos pela vida. O coração apaixonado do torcedor, seu sentimento de pertença à pátria, tem agora a oportunidade de agregar entendimentos, discussões, análises e posturas que nos levem não só a vencer no esporte, mas, sobretudo, contribuam para o crescimento da consciência cidadã. O cenário político, com a singularidade deste ano eleitoral, precisa ser iluminado pela atenção especial que uma Copa do Mundo mobiliza. Não permitir qualquer tipo de violência é de suma importância para que manifestações, debates, discussões e outras condutas cidadãs promovam mudanças nos abomináveis cenários de corrupção, exclusão social e desrespeitos à dignidade da pessoa.

Pessimismo, vandalismos e até mesmo torcida para que a Copa não dê certo enfraquecerão essa oportunidade de crescimento qualificado da consciência política dos cidadãos brasileiros. É importante tratar adequadamente esse evento para que as eleições não representem apenas um voto dado, mas uma postura com força de transformações em vista de novos cenários. É hora de qualificar a participação política, que não pode se restringir aos atos formais de votar ou de se reunir em associações comunitárias, sindicatos e partidos políticos, mas também inclui a participação e presença nos espaços definidos pela democracia representativa. Esta é a oportunidade para o fortalecimento da competência na defesa dos valores éticos, da inviolabilidade da vida humana, da promoção e resgate da unidade e estabilidade da família, do direito dos pais a educar seus filhos, da justiça e da paz, da democracia e do bem comum.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se posiciona neste momento político por meio de importante manifesto intitulado “Pensando o Brasil: desafios diante das eleições 2014”.  Nessa mensagem, aprovada durante sua 52ª Assembleia Geral, afirma que é indispensável combater a corrupção sistêmica e endêmica, invisível e refinada, presente em práticas políticas e no mundo daqueles que exercem o poder econômico, causando desigualdades, aumentando custos e sobrecarregando os destinos da nação. Cada dia se torna mais urgente a reforma política, lamentavelmente não desejada pelos que podem levá-la adiante. Este ano eleitoral, portanto, é oportunidade de checar quem tem condições e vontade política de promover essa indispensável reforma, viabilizando uma série de outras mudanças em vista da edificação de uma sociedade mais justa.

Na mensagem, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil sublinha que “pesquisas têm indicado uma baixa confiança da população nos poderes instituídos da República. Duvida-se da honestidade de todos os políticos. Desconfia-se da existência dos programas partidários. Mesmo havendo tais programas, não se acredita que os políticos sejam fiéis a eles. Com frequência, esse clima tem levado o cidadão à sensação de que votar não adianta nada e de que a participação política é inútil. Tal atitude, porém, gera um círculo vicioso: o cidadão não participa porque as estruturas do País não correspondem aos interesses do povo; no entanto, tais estruturas não vão mudar sem sua participação. É necessário evitar, a todo custo, o desalento e encontrar oportunidades de agir em favor de mudanças consideradas como necessárias”. Assim, é importante usufruir bem desta oportunidade da Copa do Mundo para que sejam promovidas transformações, alcançadas respostas adequadas e se possa engrossar as fileiras dos que, em todos os campos, efetivamente jogam pela vida. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Mudar pela alegria 

Alegrai-vos! Este é o impactante convite de Jesus Ressuscitado a cada discípulo. Mais que isso, é uma intimação que o Mestre faz ao coração dos homens, que foi feito para hospedar a alegria. A humanidade procura a felicidade e sem ela não dá conta de viver. Mas, tantas vezes, busca ser feliz de modo desarvorado, comprometendo situações sociais e humanas. É importante compreender que a verdadeira felicidade é o bem supremo. Por isso, o Mestre Ressuscitado, vencedor da morte, faz o convite para que todos se alegrem diante dos dons e bênçãos, tesouro inesgotável do amor de Deus.

O tempo pascal é, pois, na força pedagógica da liturgia da Igreja Católica, a oportunidade rica de exercitar o coração na procura do bem supremo, a verdadeira felicidade. Essa tarefa deve ser vivida fixando o olhar no Ressuscitado, a vitória perfeita e completa na história da humanidade, vida que venceu a morte, amor que venceu o ódio. Há de se ter presente o que Aristóteles sublinhava quanto às diferentes concepções de felicidade, identificada com a conquista de bens diversos, desde virtudes, sabedoria prática, sabedoria filosófica, acompanhada ou não por prazer, ou como posse de bens matérias. Nem mesmo ele, admirável nas raízes da sabedoria filosófica, conseguiu articular uma conclusão que pudesse fazer entender o significado da felicidade. 

Santo Agostinho a definia como a posse do verdadeiro absoluto, isto é, a posse de Deus, fonte de todas as outras felicidades. Nesta mesma direção, São Boaventura a compreende como ponto final do itinerário que leva a alma ao Criador. Essas reflexões concluem que a felicidade não é, então, a conquista de patrimônios nem de poder, mas conhecimento, amor e posse de Deus. Assim, ela não é um simples estado de alma, mas algo recebido de fora, que se relaciona a um bem maior e verdadeiro.

Essas ponderações apontam para o enorme desafio existencial vivido atualmente, quando a experiência da felicidade é confundida com a conquista de bens materiais e prazeres efêmeros. Um entendimento inadequado que sustenta a dinâmica perversa de se buscar conquistas a qualquer preço. Deste modo, cresce o egoísmo, a mesquinhez, e a humanidade se distancia da vivência da solidariedade, o que acaba com qualquer perspectiva de alegria verdadeira. A solidariedade é o que pode curar os males da convivência humana, tão deteriorada em um tempo de tantas possibilidades. A razão crucial dessa crise, indiscutivelmente, está na identificação da felicidade como acúmulo, sem limites, de bens materiais e poder, o que resulta na efemeridade dos bens da criação e no distanciamento do Criador.

São vários os entendimentos a respeito da felicidade no pensamento filosófico. Em comum, a anuência de que ela não é um bem em si mesmo, já que para ser felicidade é indispensável o conhecimento dos bens que são a sua fonte. Assim, pode-se afirmar que sua conquista, com simplicidade, é a experiência do encontro com Deus, o bem supremo, tão próximo de nós. Sua experiência existencial tornou-se possível pela encarnação do Verbo, Jesus Cristo, o Filho de Deus que morre e ressuscita para resgate e salvação da humanidade. Ele é o Salvador do mundo, o bem supremo, próximo de cada pessoa.

A conquista da felicidade é o encontro pessoal com Deus, que produz a efusão da alegria. Trata-se de uma felicidade que não é passageira ou periódica e tem a força que possibilita grandes transformações. É exemplar para a história da humanidade a força da alegria produzindo a radical mudança dos discípulos de Jesus. A presença amorosa de Cristo Ressuscitado faz dos discípulos ignorantes homens sábios. O medo cede lugar à audácia amorosa. Essa alegria experimentada é fruto da ação do Espírito de Deus, que tira Jesus da morte, vencida definitivamente pela vida. Uma felicidade autêntica e duradoura, fonte da força dos discípulos de Jesus, origem da sabedoria necessária para transformar tudo o que precisa ser mudado, pela alegria. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Cultura marcada pela fé

O Papa Francisco na sua Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual sublinha o quanto é indispensável e importante a cultura marcada pela fé e a sua dimensão determinante nos rumos e tradições de grupos humanos pelo mundo afora.

É incontestável o legado recebido por culturas seculares, em valores humanísticos e espirituais, em razão do anúncio, aprendizagem e vivência da fé cristã. Um legado que tem como referência uma fonte inesgotável que é o Evangelho de Jesus Cristo, e ele próprio, Redentor e Salvador.

A contemporaneidade continua necessitada da oferta preciosa que vem desta fonte. Independentemente de todo tipo de crítica, até mesmo merecida, às configurações morais com excessivos rigores ou anuências tácitas frente às posturas discriminatórias e prejudiciais, a dinâmica da fé cristã continua indispensável. É fundamental, especialmente, quando se trata da busca do equilíbrio humanitário na importante tarefa de afastar o mundo do caos moral e espiritual para o qual caminha, em razão de hegemonias dadas ao dinheiro e às relativizações ético e morais.

Sem aprofundar aqui sobre a importância da fé na cultura, do ponto de vista histórico-social, ou mesmo na explicitação de sua rica dinâmica interna, faz-se importante redobrar a atenção quanto ao que lhe é próprio, conferindo às culturas consistência adequada e equilíbrio das relações sociais e políticas no interno das sociedades.

A dinâmica da Igreja no anúncio do Evangelho para a vida do mundo precisa avaliar permanentemente vários aspectos importantes para que sua mensagem não seja equivocada. Neste sentido, por exemplo, o Papa Francisco adverte quanto ao risco de um perigoso mundanismo espiritual que pode tomar conta das igrejas e permear a definição de seus projetos e eventos. Entendendo-se por mundanismo espiritual - como diz o Papa Francisco -  a dinâmica que esconde atrás das aparências de religiosidade, até mesmo de amor à Igreja, a busca da glória humana e do bem estar pessoal, em vez da glória do Senhor.

Nas mais ricas e autênticas tradições espirituais do Cristianismo, a glória do Senhor, não é, senão, a vida plena do homem, fazendo do outro destinatário de um amor comprometido. Daí nasce o rico corolário que implica a autenticidade da fé mais do que a prioridade do bem estar pessoal, e o compromisso com uma ordem social justa, resultante da vivência autêntica desta mesma fé cristã. Este mundanismo espiritual, portanto, pode produzir misturas nefastas e enganosas entre o que, de fato, é fé cristã marcando a cultura, e o que está na contramão da mais genuína espiritualidade cristã.

A autenticidade da dinâmica da fé cristã não pode ser comparada, nem mesmo visitar as linguagens tão conhecidas das produções típicas de autoajuda, com passagens por outros tipos de crenças como os traços remanescentes da filosofia da “nova era”- presentes no urbano contemporâneo e envolvidos em um processo de elaboração de uma nova cultura.

Assim, a proposta da dinâmica cristã, nesse mesmo contexto, não permite e não se ajusta ao que sincreticamente é criado para atender aos anseios humanos e com adaptações cômodas em vista do mero bem-estar pessoal. Um exemplo disto é a ideia, imposta pela permissividade, que parte do princípio de que toda norma compromete a autonomia e a liberdade.

Não menos atenção merece o secularismo que vai reduzindo a fé e a até a missão da Igreja ao âmbito privado e íntimo, fazendo com que sejam vistos com naturalidade os horrorosos processos de desumanização, resultado das relações sociais e políticas que deterioram, por vezes, provocando situações irreversíveis.

Sendo assim, o anúncio do Evangelho não pode ser desvirtuado a ponto de causar sombras na transcendência enquanto compreensão e dinâmica vivencial que abre o ser humano à solidariedade, ao sentido de sua oferta. Que qualifica sua cidadania civil com os princípios de quem vive o Reino de Deus em seu cotidiano, movido pela certeza de estar a caminho de uma vida que está para além do tempo e da história.

É hora de cuidar para que certas influências da cultura globalizada, aquela da primazia do bem-estar pessoal, da idolatria ao dinheiro e da criação de guetos para usufruto descomprometido de forças institucionais, não desfigurem o que é próprio da fé cristã em sua força libertária e transformadora.

O Papa Francisco aponta que a fé cristã, vivida e respeitada, proporciona a descoberta e a transmissão da mística de vivermos juntos, de nos misturarmos, nos encontrarmos, darmos o braço uns aos outros, nos apoiarmos e participarmos desta maré que, embora caótica, pode transformar-se em verdadeira fraternidade, caravana solidária, peregrinação sagrada. O ganho será a autenticidade de uma cultura marcada pela fé.

 Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Pactos e mobilizações 

A construção cidadã da sociedade civil não pode prescindir da movimentação e dinâmicas próprias dos pactos e mobilizações que emergem fora das instâncias governamentais. Essa necessidade é vital para oxigenar os tecidos tendenciosos da burocratização, do partidarismo e, particularmente, em razão da perda inevitável do genuíno sentido social que mantém acesa a percepção das demandas do povo, especialmente das urgências dos pobres. O papel e responsabilidades governamentais cotidianas precisam contracenar permanentemente com a compreensão e movimentações próprias dos cenários da vida civil comum, sob a pena de perder a competência de fazer o que é prioritário. Sobretudo, fazer com alma e não, simplesmente, pelo dever de realizar tarefas. Quando este processo interativo fica comprometido é perceptível, pelo distanciamento da realidade, a dificuldade no cumprimento de promessas, na verdade obrigações; o discurso usado já não atinge os destinatários e a interlocução fica comprometida.

As mobilizações, dos mais variados perfis, são determinantes para que se conheça o sentimento da sociedade, especialmente, quando ficam esclerosados os canais de sua expressão popular. Obviamente, a geral condenação de atos violentos e do vandalismo é regra inegociável, até porque obscurecem a percepção da realidade que toda mobilização pode provocar no conjunto da sociedade ou em parte dela.

Neste sentido, falar de manifestações pacíficas jamais significa ofuscar suas repercussões, até mesmo em âmbito internacional. O entendimento de pacífico é o lado cidadão contrário ao vandalismo, à expressão de ódios e frutos de possíveis manipulações interesseiras e pagas. A força da mobilização se expressa pela repercussão na consciência cidadã. Na formatação da exigência de novas posturas e atendimento de demandas, fazendo chegar aos gestores públicos e privados a cobrança de respostas urgentes para as questões que afligem a população. Vence, assim, os atrasos criados por conta de disputas partidárias, incompetências administrativas e de pessoal ou por falta de lucidez na escolha das prioridades.

A sociedade civil precisa de mobilizações de variados tipos para garantir uma ordem social e política que não se torne refém de partidos ou de vaidades, com consequentes comprometimentos e atrasos como este que ainda pesa, lamentavelmente, sobre os ombros dos cidadãos brasileiros. Um peso que também se explica pelo modo como se faz política, priorizando interesses cartoriais e partidários em instâncias como o Congresso Nacional. Lugar onde, por excelência, devem ecoar, diariamente, os anseios e necessidades do povo. Neste âmbito, é fundamental avançar, esclarecer e buscar lucidez para não dar passos equivocados e comprometedores do bem conquistado na legislação e na busca para a efetivação da reforma política.

A reforma política é canal importante para repercutir em novas configurações o que melhor pode atender à edificação da sociedade civil, com parâmetros morais e éticos adequados e ao atendimento mais dinâmico de suas necessidades e direitos. E este é um momento oportuno para grandes e pequenas mobilizações, por ser ano eleitoral e pela realização da Copa do Mundo. Esses eventos de grande porte, e outros tantos, incidem sobre o sentimento popular. Assim, é preciso investir adequada e pacificamente para que o sentimento do povo ganhe força em todas as instâncias e segmentos da sociedade, para provocar a compreensão de suas demandas e gerar a consciência ético-social na edificação de uma sociedade solidária.

Os pactos sociais constituem outro vetor importante na construção da cidadania e na recomposição do tecido esgarçado da sociedade brasileira contemporânea. O florescimento desses pactos deve envolver as várias instituições e ter papel incidente e provocador de mudanças nos cenários que espelham a morosidade de instâncias governamentais. Têm que estar presentes nas realidades carentes do compromisso cidadão por parte das instituições privadas que ocupam papel de relevância na sociedade.

A celebração e efetivação dos pactos sociais também têm força para a permanente oxigenação de setores determinantes, como o da educação. Importante e urgente é, por exemplo, o pacto para a erradicação do analfabetismo. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Tesouro da credibilidade 

O tesouro da credibilidade está em baixa e merece atenção. Segundo pesquisa divulgada pelo Ibope, 62% dos brasileiros têm desconfiança uns nos outros. A referência à confiança depositada nos próprios familiares - 73% dos entrevistados - é um sinal de esperança e da centralidade da família na vida de cada pessoa e da sociedade. O núcleo familiar será sempre o ponto de partida e fonte perene de referências, escola vivencial para aprendizagem do amor e da fidelidade a Deus e ao outro.  Cada pessoa é um dom e seu cultivo começa na família, primeiro e insubstituível berço da sua história. A família é uma célula vital para a sociedade.

Quando se pensa a ecologia humana, tão determinante na luta por mudanças na sociedade em crise, a instância família é fundamental. Trata-se da escola da reciprocidade, um sentido que se não for aprendido compromete, consequentemente, o tesouro da credibilidade sobre o qual as relações sociais e políticas se sustentam. O clima natural do afeto familiar possibilita, a cada indivíduo, exercitar a competência de ser reconhecido e responsabilizado. Qualquer comprometimento desse núcleo inviabiliza os andamentos adequados da vida cidadã, favorece a lamentável cultura da corrupção, pois se perde o gosto e o apreço prioritário pela honra.

O sentido de honra não aprendido na família alimenta uma sociedade individualista, responsável por descompassos que atormentam a vida cotidiana. Gera a violência crescente, a ganância, a permissividade e a manipulação de pessoas. Favorece o abominável tráfico humano, a escravidão, que coloca a sociedade contemporânea na contramão do caminho para a civilidade. O gosto pela honra é, portanto, um dos capítulos fundamentais na aprendizagem familiar, sustentáculo de tudo, desde a transparência e fidelidade à palavra dada até os mais complexos comprometimentos na ordem do respeito e da promoção da dignidade humana.

A configuração e entendimentos da economia e das relações sociais contemporâneas sofrem de deteriorações muito graves. O tesouro da credibilidade vai sendo corroído. Na raiz desses problemas, está uma triste constatação: não se dá o devido apreço à honra. É saudosa a recordação de figuras familiares, religiosas, cidadãs que primavam pela importância deste princípio. O descuido com este princípio é o consequente processo de negociação da própria dignidade, abrindo-se ao “vale tudo”, desde que interesses particulares, como as conquistas de posições, garantias de comodidades e satisfação do desejo de possuir sempre mais, sejam alcançados.

Está posto o desafio, diante da ameaça ao tesouro da credibilidade na sociedade brasileira, de investir na reversão desse quadro a partir da recuperação e adequada valorização da honra. Uma qualidade que é o esplendor da vida humana. Sua conquista é presidida pela consciência de se adotar condutas marcadas pela autenticidade, jamais por artimanhas, qualquer tipo de mentiras ou trapaças, posturas que justificam o preocupante dado que aponta a pesquisa:  82% dos entrevistados acreditam que a maioria das pessoas só se preocupa com o próprio benefício. Quando a consciência perde a sua configuração, que inclui o gosto da honestidade, da transparência e da tranquilidade, cresce a ameaça. É acentuada a gravíssima crise moral que assola e dizima a sociedade contemporânea.

O apreço e respeito aos princípios, o cultivo da credibilidade, encontram  força na palavra de Santo Agostinho, no seu Livro das Confissões. Ele comenta: “Encontrei muitos com desejos de enganar os outros, mas não encontrei ninguém que quisesse ser enganado. Por que é que os homens têm como inimigo aquele que prega a verdade, se amam a vida feliz, que não é mais que a alegria vinda da verdade?” A verdade, em tudo e em todas as circunstâncias, foge do desejo de enganar, gera e sustenta condutas cidadãs, com força para a ordem da justiça. É hora de investimentos para debelar o caos da avassaladora crise moral contemporânea, aprendendo e ensinando sobre o valor do tesouro da credibilidade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Caminhar com Francisco 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo. Juntos com Francisco, há um ano, estamos trilhando os caminhos missionários da Igreja pelo mundo afora. Um ano de incontáveis novidades e de muitos acontecimentos. Neste período, reacendeu uma chama que ilumina os cantos mais diferentes do mundo, especialmente o coração das pessoas. Um fenômeno de presença amorosa, simples, próxima e evangélica, que indica um percurso novo para a vida missionária da Igreja. As palavras, gestos, atitudes e encaminhamentos, no exercício do ministério de sucessor do Apóstolo Pedro, fazem do Papa Francisco um sinal que convoca todos para um novo tempo. Sua presença faz crescer no mundo a coragem e o empenho desafiador de resgatar o sempre novo tesouro da alegria do Evangelho da vida. Uma volta à fonte e um banhar-se nela, saciando a sede e lavando-se, para recompor a força que devolve serenidade misericordiosa aos olhares, alento para os pés cansados no caminhar, livra semblantes da poeira de tudo o que já ficou obsoleto.

O que está acontecendo, diante das necessidades urgentes - a recuperação de referências morais, religiosas, culturais, políticas e todas as outras carências gritantes - produz perguntas, ainda sem as respostas completas. Reacende esperanças, aguça curiosidades e prova que a força maior vem de Deus, da fidelidade a Ele. Essa lealdade desdobra-se em serviço à vida de todos, particularmente dos pobres e dos que estão nas periferias, especialmente aquelas existenciais. Ao celebrar este primeiro ano de pontificado, a Igreja é desafiada a trilhar as direções indicadas pelo Papa Francisco, conclamando todos para um projeto novo, de Igreja e humanidade. Para se efetivar, esse projeto depende daqueles que o testemunham, seguindo o exemplo do Papa, com vigor espiritual e simplicidade evangélica, que capacita intuições corajosas e criativas. Percepções e discernimentos diferentes das que viabilizam artimanhas políticas ou conchavos partidários. São, na verdade, fundamentadas no amor que desconcerta e refaz, aprende e ensina, convence sobre o bem, inspira o gosto pela justiça, deixa envergonhado quem não se faz solidário.

A surpresa da escolha do nome, Francisco, inspirado pela lembrança, a mais forte, significativa e sempre transformadora de não se esquecer dos pobres, é explicada pelos gestos e palavras do Papa Bergoglio. O Santo Padre, durante peregrinação a Assis, sublinhou que ser cristão é uma relação vital com a pessoa de Jesus, revestir-se Dele e a Ele se assemelhar. No horizonte, o ensinamento inspirado em São Francisco de Assis que se fez como os últimos, os pobres, não por um amor à pobreza em si mesma, mas porque seguindo os pobres, e a eles amando, se segue e se ama a Cristo. Um princípio que implica em novos ordenamentos, faz crescer a fé autêntica, aponta o horizonte de um resgate humanitário e cultural. É, neste sentido, remédio indispensável para que a humanidade seja curada de seus graves problemas existenciais, morais e políticos. Um verdadeiro raio de luz que indica uma possibilidade aparentemente simples, até por isso com o risco de ser desconsiderada pela soberba da racionalidade contemporânea.

O Evangelho de Jesus é o ponto de partida, único e insubstituível, com sua luz simples em meio a tantas luzes, argumento de amor entre tantos argumentos. Permite cultivar um jeito de ser com validade universal no horizonte das mais diversificadas culturas contemporâneas. O Papa Francisco, conforme sua Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, está sinalizando para a Igreja sua renovação e fortalecimento missionário, e ao mundo contemporâneo um caminho novo para a cultura da vida e da paz, ao propor que a resposta pode ser encontrada na busca e vivência de uma fraternidade mística. Trata-se de uma fraternidade “contemplativa, que sabe ver a grandeza sagrada do próximo, que sabe descobrir Deus em cada ser humano, que sabe tolerar as moléstias da convivência agarrando-se ao amor de Deus, que sabe abrir o coração ao amor divino para procurar a felicidade dos outros como a procura o seu Pai bom”. O Papa alerta, com a força do Evangelho e a leveza de seu testemunho, sobre a ferida gritante da desumanização, mostrando um caminho para mudança dos cenários catastróficos que afligem a humanidade, onde a Igreja deve estar sempre presente como servidora, casa de todos, cultivando a fidelidade ao amor pelo qual cada um será julgado. Um ano de pontificado, Ação de Graças por tudo, é motivo de alegria poder assumir o desafio de caminhar com o Papa Francisco.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Primazia da dignidade 

O compromisso com a promoção e o respeito à dignidade humana é a possibilidade real de mudanças nos rumos da sociedade contemporânea e nos cenários que envergonham a humanidade. A primazia da dignidade das pessoas é a meta mais importante na vivência séria da cidadania. Lamentavelmente, a luminosidade da inteligência humana contracena e é obscurecida por irracionalidades, que submetem homens e mulheres a condições degradantes, ofensivas e prejudiciais à liberdade e autonomia. É preciso promover mudanças e uma nova compreensão capaz de impedir que a humanidade caminhe para o caos. Vivemos um tempo propício para isso, a Quaresma, quando a Igreja Católica convida a humanidade para ouvir Deus, fixando o olhar em Cristo Jesus, o Salvador e Redentor, preparando a celebração da Páscoa.

Exercício de espiritualidade, o caminho quaresmal é marcado pela experiência de amorosa escuta da Palavra de Deus. Também caracteriza-se por uma disposição para rever gestos e assumir atitudes mais condizentes com a dignidade humana. Trata-se de oportunidade singular para fazer crescer a solidariedade e a fraternidade, promovendo a qualificação pessoal e comunitária. A conversão do coração possibilita a cada um assumir uma conduta digna, percebendo todos como filhos e filhas de Deus, irmãos uns dos outros.  No itinerário quaresmal, a Igreja Católica enriquece o horizonte com a promoção da Campanha da Fraternidade que, neste ano, é iluminada pela Palavra de Deus com o lema “É para liberdade que Cristo nos libertou”, da Carta de São Paulo aos Gálatas. Assim, convoca todos para a coragem de reconhecer, compreender e atuar no horizonte da gravíssima situação gerada pelo tráfico humano.

“Fraternidade e tráfico humano” é o tema da Campanha que focaliza uma realidade chamada pelo Papa Francisco de “atividade ignóbil, uma vergonha para nossas sociedades que se dizem civilizadas”. O texto base da Campanha da Fraternidade 2014, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), também sublinha o absurdo desse atentado contra os filhos e filhas de Deus, limitando suas liberdades, desprezando sua honra, agredindo seu amor próprio pela exploração de sua vulnerabilidade social e econômica. Os traficantes geralmente são aliciadores que se aproximam das vítimas e de seus familiares, agindo como se fossem amigos. A pessoa é abordada com uma oferta irrecusável de trabalho, mas, levada a lugares distantes, é escravizada e torna-se prisioneira.

Esses aliciamentos se camuflam pelo recrutamento de pessoas para atividades diversas, a partir da promessa de um futuro promissor em diferentes carreiras, como as de modelo, jogador de futebol, enfermeiras, babás, garçonetes, cortador de cana, dançarinas, pedreiro e tantas outras. As vítimas são homens e mulheres, crianças e adolescentes. São reais as histórias de jovens aliciadas por redes de prostituição, levadas para lugares distantes de suas famílias, com a promessa de altos salários semanais, mas que são mantidas em cativeiro, em péssimas condições.

É hora de colocar cotidianamente na pauta de nossas ações a questão do tráfico humano, dedicando maior atenção aos acontecimentos para efetivamente oferecermos nossa contribuição cidadã aos organismos estatais. Também é preciso maior cooperação entre países na tarefa de se investir na solução desse grave problema. Torna-se cada vez mais urgente a união de esforços para fortalecer o enfrentamento dessas organizações criminosas que, entrelaçadas, se tornam sempre mais eficientes. O passo importante nesse enfrentamento será sempre o crescimento da consciência da primazia da dignidade humana.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Apostar na simplicidade 

O Papa Francisco tem se consolidado como voz que alerta para a urgência de se combater o crescente processo de desumanização que assola a sociedade contemporânea. Sua voz ecoa para além do território da própria Igreja Católica e vai tocando corações e mentes pelo mundo afora. Na sua Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, o Papa Francisco sublinha que “o grande risco do mundo atual, com múltipla e avassaladora oferta de consumo, é a tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada dos prazeres superficiais, da consciência isolada”. Quando a pessoa se fecha nos seus próprios interesses, o resultado é o comprometimento da essencialidade da vida interior. 

Uma grande indicação do Papa Francisco, como retomada das mais genuínas raízes do Evangelho de Jesus, é apostar na simplicidade. Esse caminho supõe exercício diário e adoção de estilos de vida que proporcionem e mantenham uma interioridade com a sabedoria para priorizar o que é digno e bom. A simplicidade de vida, incontestavelmente, é o remédio mais eficaz no combate à desumanização, que embrutece corações e inviabiliza a convivência social. Trata-se de antídoto para a sociedade, marcada pela crescente violência, corrupção venenosa e irreversível despersonalização. É hora, portanto, de admitir e incluir um discernimento evangélico nas análises e na busca da compreensão da realidade, desafiadora e complexa, desse início de terceiro milênio. 

A busca por soluções não pode restringir-se ao crescimento e sofisticações tecnológicas, indispensáveis quando se pensa no avanço da ciência. É preciso retomar o processo de humanização, contraponto ao lamentável embrutecimento dos corações. Nessa tarefa, o ensinamento evangélico tem um poder inigualável de modulação e educação. Vale sempre lembrar a observação de Mahatma Ghandi, em referência ao Sermão da Montanha, Evangelho de Mateus, capítulos 5 a 7, sublinhando que ali há um tesouro que praticado pelos cristãos, faria deles instrumento de radical revolução e transformação da sociedade pelos princípios enraizados na força inesgotável do amor de Deus. 

Não se pode apenas pensar que definições legislativas e meras providências de repressão serão suficientes para deter o catastrófico processo de desumanização em curso, responsável pelo crescimento da violência, aumento assustador da dependência química, imoralidades de todo tipo como consequência da relativização nociva de valores e princípios. Brutalidade é o lado oposto da indispensável humanização. A falta de raízes humanísticas consistentes, como aquelas que os valores do Evangelho de Jesus Cristo produzem e modulam nos corações que escutam a voz de Deus, impede o estabelecimento de uma nova ordem social e política. Sem enraizamento humanístico adequado não veremos mudanças nas lideranças e continuará baixo o nível da prática política, muitas vezes dinamizada por interesses partidários tacanhos, conchavos imorais e busca pelo crescimento próprio a partir da obsoleta prática de atacar o outro para destruí-lo. 

Não se conseguirá jamais avançar nas reformas que a sociedade brasileira precisa sem a necessária e urgente competência humanística. É em razão da falta desta competência que instituições políticas e governamentais fazem sempre muito menos do que deveriam. Alimentam-se da ilusão de que boa política se faz com conchavos, com a desmoralização dos outros, com a manipulação ideológica ou com as negociatas internas e partidárias que atrasam o progresso e o atendimento das demandas da população. Essa desordem  produz o descompasso e a baderna que vai compondo cenários preocupantes de violência, medo e caos. As mudanças estruturais e conjunturais avançarão pela força do testemunho indispensável de cada cidadão. Nesse caso, apostar na simplicidade há de ser um compromisso de todos, revendo práticas, hábitos. Não há lugar para exibicionismos, sofisticações petulantes, esbanjamentos agressivos e irracionais. É hora de compreender, redimensionar projetos, práticas pessoais e sociais, sempre apostando na simplicidade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte 


Dignidade e delinquência 

Os cenários nas sociedades contemporâneas merecem atenção e tratamento especial por parte de todos, particularmente das lideranças políticas, governamentais e religiosas. Estes cenários estão marcados pela banalização crescente da dignidade humana, que favorece atos de delinquência, trazendo prejuízos irreversíveis. A perda do sentido autêntico da pessoa tem sido um vetor determinante do esvaziamento da consciência individual e coletiva. Aí está uma incontestável e perene fonte da violência, da corrupção e dos mais diversos tipos de manipulações - de coisas, instituições e pessoas.

A gravidade dessa situação atinge o núcleo da consciência moral que deve sustentar cada pessoa no desabrochamento de sua conduta, pautada no mais relevante sentido de respeito ao outro. No coração humano há uma lei inscrita pelo próprio Deus, no fundo da própria consciência. É uma lei que o homem não impôs a si mesmo, mas à qual ele deve obedecer, como uma voz que está chamando-o ao amor, ao bem. Quando o indivíduo perde a competência para ouvir esta voz, se encontra às portas do mal. A perda e esvaziamento da consciência moral são, pois, o impulso determinante que faz nascer o delinquente.

Criminosos, dos mais variados tipos, escutam outra voz que determina a submissão interesseira à idolatria do dinheiro, ao entendimento do prazer como fonte de manipulação e lucro. Essa voz alimenta a ganância que inaugura a cada momento uma corrida desenfreada, pautada na disputa, que faz de cada um inimigo do outro. Essa delinquência está nas violências de todo tipo, inclusive nos radicalismos políticos e fundamentalismos religiosos, arregimentando muita gente aos extremos, equivocada e lamentavelmente convencidas de estarem mais próximas da verdade, sentindo-se no direito de produzir, segundo seus critérios, os ordenamentos necessários, e a implantação de uma justiça que é cega e incapaz de estabelecer a verdadeira dignidade que configura e define a pessoa.

O princípio sagrado e intocável da dignidade humana não permite que cada pessoa se pense como absoluta, edificada por si mesma, sobre si mesma e de si mesma dependente. A sociedade contemporânea está sendo levada por dinâmicas que estão alimentando reducionismos muito perigosos. Isso compromete o entendimento do sentido de dignidade, gera um enfraquecimento da fraternidade e incapacita para a solidariedade. Lamentável é o entendimento da consciência moral com a simples função de aplicação de normas gerais aos casos individuais da vida.  A decomposição da consciência moral deve inspirar uma “trincheira” guerreando por sua recuperação. No caminho oposto, corre-se o risco de se produzir colapsos em série que inviabilizarão o futuro das sociedades. Crescerão as barbáries e os descompassos regerão a vida cotidiana, que se tornará, impulsionada pelo frenesi da vida moderna e das ganâncias, um lento suicídio coletivo, atingindo culturas, tradições e pessoas.

É preciso eleger como prioridade a permanente recomposição da consciência moral individual e comunitária. O inadequado tratamento dessa primazia é a produção de delinquências praticadas, tanto por “engravatados” quanto por “maltrapilhos”. Deve-se investir, de modo sério e profundo, em toda a esfera psicológica e afetiva de cada pessoa, bem como nos múltiplos contextos do ambiente social e cultural. Esse investimento, portanto, há de ter cada pessoa como destinatária. Seu encaminhamento concreto indica que o conjunto da sociedade precisa ser mapeado e tratamentos específicos precisam ser disponibilizados. Assim será possível alcançar um processo educativo e de recuperação dessa consciência moral perdida. Esse mapeamento se desdobra em vários capítulos, cada um com a tarefa de sensibilizar e buscar contribuições para resgatar pessoas e qualificar a cidadania.

Capítulo determinante desse processo são as reflexões sobre a realidade carcerária do Brasil, com seus 500 mil presos, em condições de contínua e acentuada perda da consciência moral, em razão das dinâmicas e das condições dos presídios. Uma realidade que envolve muitas situações, de diferentes matizes, e gera grande preocupação pelo que se está produzindo. O sistema prisional tem feito surgir contextos inadequados, atingindo famílias, presos que não deveriam estar no cárcere e até aqueles de alta periculosidade. Uma situação que se agrava diante da grande comunidade atingida por compreensões equivocadas ou ineficazes sobre a prioridade de se recuperar pessoas, permitindo-lhes recompor a consciência moral.

Esse capítulo, entre outros mapeamentos que a sociedade brasileira precisa considerar, é prioridade do Vicariato Episcopal para Ação Social e Política da Arquidiocese de Belo Horizonte, com sua Pastoral Carcerária, e de experiências exitosas como as Associações de Proteção e Assistência aos Condenados (APACs), instituições que estão em diálogo com a sensibilidade social e comprometimento da ministra Cármen Lúcia Antunes, do Supremo Tribunal Federal. Um trabalho necessário pela certeza de que o Estado precisa de ajuda.  É preciso o envolvimento de instituições especializadas em humanidade para recuperar dignidades e superar delinquências.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Verdade, bem e liberdade 

A perda do laço essencial entre verdade, bem e liberdade na cultura contemporânea é a explicitação do caos moral que vai afundando a sociedade em acontecimentos assustadores. Os fenômenos em torno de violências, justiça com as próprias mãos, corrupção, fundamentalismos, entre outros, são resultado da perda deste laço fundamental. Sua recuperação é um longo caminho a percorrer. Sua urgência deve motivar os mais variados segmentos da sociedade, desde o recôndito da privacidade familiar, passando pelas igrejas e escolas, até ações governamentais em diferentes níveis, em um investimento mais consistente e permanente.

O dia a dia da sociedade sem comprometimento com a verdade, o bem e o autêntico sentido da liberdade pode trazer comprometimentos irreversíveis. O que se vê é um crescente processo de desumanização, com graves consequências para a vida de todos e impactos na formação dos mais jovens. Assim, a ausência do laço essencial entre verdade, bem e liberdade impede que sejam dados novos passos no presente e também engessa a sociedade do amanhã.  Muitos se acostumam com os relatos de violência nos noticiários e até, de certo modo, os esperam a cada dia, cultivando o gosto pelo hediondo.  Alguns se sentem privilegiados, por não serem alvos ou vítimas, e se comportam como meros espectadores do caos que vai se implantando na sociedade. No entanto, o aumento crescente desta violência é um risco para todos, mesmo para os que estão nos seus “bunkers” de defesa e comodidades.

Não basta apenas um olhar sociológico e estrategista sobre esta situação. Providências e encaminhamentos advindos dessas análises são importantes. Contudo, o essencial é trabalhar pela recuperação da perda do laço essencial entre verdade, bem e liberdade. Há, pois, uma questão de ordem moral pesando sobre os ombros de todos nessa luta de recomposição da sociedade. Quando se considera, por exemplo, o mundo da política, a luta por reforma política, obviamente que não basta legislar de modo novo e diferente, embora necessário. É prioritário poder contar com homens e mulheres à altura de exercícios cidadãos, superando o comum de se fazer da política um canal para atendimentos de interesses partidários e de grupos endinheirados.

Os atrasos na sociedade são incontáveis, atingindo as instituições na sua identidade e missão, desfigurando o sentido de cidadania que se sustenta na verdade, no bem e na vivência autêntica da liberdade. O investimento prioritário, portanto, é na ordem moral. Essa ordem não se enquadra na permissividade de posicionamentos religiosos, políticos e sociais, nem nos rigores fundamentalistas dos que se elegem como os iluminados e donos da verdade.  Urge um investimento permanente e consistente na ordem moral. Do contrário, não se vai conseguir debelar o processo que está levando a sociedade a resvalar na direção de um caos maior.

Que absurdos ainda não foram presenciados? Repassar essa lista até desanima. A sensibilidade moral é o remédio para combater o que o Papa Francisco chama de globalização da indiferença e o veneno da idolatria do dinheiro. A sociedade, por falta de aprofundado sentido moral, está sendo, passo a passo, conduzida por diferentes tiranias. Da tirania nascida da ganância que gera a insaciabilidade das riquezas àquelas novas tiranias, invisíveis, às vezes virtuais, que impõem suas leis e suas regras, cristalizando grupos radicais, de todo tipo, até religiosos, contribuindo na complicação que a sociedade contemporânea está vivendo.

A verdade, o bem e a liberdade, como laço essencial da moralidade, devem ser o horizonte inspirador cotidiano de ações, programas e testemunho individual, em casa, na Igreja, na escola, nas empresas, nas ruas, em todo lugar. É preciso libertar a sociedade contemporânea dos excessos de uma cultura em que cada um pretende ser portador de uma verdade subjetiva própria. Razões meramente políticas não inspirarão ações condizentes, neste momento, na busca urgente de soluções para mudar os cenários de exclusão e desigualdades, fontes de violências e disputas que se travam até mesmo sem se ter clareza a respeito de qual bandeira se está defendendo.

As reações violentas tenderão a crescer por parte dos excluídos do sistema social e econômico, que é injusto na sua raiz. O avanço na direção de indispensável equilíbrio, para não inviabilizar a sociedade, supõe a convicção de que é preciso investir sempre e em todos os níveis na recuperação da força moral.  Cada cidadão deve ser depositário dessa força, fazendo com que a sociedade redescubra que seu sustento e progresso dependem do respeito incondicional à verdade, o compromisso com o bem moral e a permanente aprendizagem quanto à fragilidade e limites da liberdade humana.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo 

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte



Analfabetismos 

A notícia de que o Brasil tem 13,9 milhões de adultos analfabetos, segundo o Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos, divulgado pela Unesco, é social e politicamente instigadora. O número é muito alto e revela um sério comprometimento da cidadania. Embora não haja lei que obrigue o adulto a estar na escola para superar o grande mal do analfabetismo, é preciso acender uma chama de grande sensibilidade social e política, com força de articulação de instituições governamentais, educacionais, de igrejas e tantas outras entidades, no enfrentamento dessa chaga terrível na sociedade brasileira.

O fato de o Brasil estar entre os dez países do mundo que concentram o maior número de analfabetos deve ferir nossa consciência cidadã. Todos precisam intuir ações que se configurem numa mobilização geral, capitaneada pelas responsabilidades primeiras governamentais, para garantir aos analfabetos um passo adiante na sua condição cidadã. Não se pode descansar diante do atual quadro que perpetua prejuízos. As ações de combate ao analfabetismo têm suas complexidades e exigências de investimentos. Por isso, é preciso disponibilizar recursos profissionais, instalações e métodos para que cidadãos de várias condições e segmentos deem sua contribuição para que, em mutirão, se possa mudar esse cenário comprometedor da cidadania.

Importante sublinhar que existe um agravante no que se refere ao analfabetismo existente no Brasil. Especialistas consideram que o próprio sistema educacional brasileiro forma analfabetos, pessoas com dificuldades de alcançar conquistas e viver a cidadania com liberdade. O analfabetismo das letras incide, para além delas mesmas, na capacidade de compreensão e interpretação da própria realidade. O resultado é uma deficiência na participação social e política, a incapacidade para ajudar a corrigir os rumos da sociedade, monitorar os políticos e fazer nascer a lucidez corajosa para as grandes reformas institucionais. Assim, ignorar esse grave problema é condenar a sociedade a estar enterrada na corrupção, na desigualdade, na injustiça e na convivência pacífica com o mal.

A alfabetização é um passo indispensável para a arte de ler, consequentemente interpretar, discernir e escolher o que deve pautar a vida de cada cidadão. É preciso dar a todos a condição necessária para participar, de maneira cidadã, dos processos de interpretação, entendimento e escolhas que mudam os rumos da sociedade. A contramão disso, o analfabetismo, é um sistema escravocrata que perpetua hegemonias e dominações, privilegiando grupos políticos e empresariais, em detrimento do bem comum e da justiça intocável que deve presidir a sociedade. Portanto, é preciso um mutirão, com velocidade própria, considerando metodologias adequadas, um envolvimento de todos, impelindo particularmente o poder público, para desenhar novos cenários. As igrejas de diferentes confissões, com sua capilaridade, seus espaços, seus membros, podem se aliar às instituições de ensino e, em cooperação com outros segmentos, desenhar um projeto de ação, simples, incidente e com força de mudar este cenário.

Importante é também olhar o conjunto da sociedade e identificar as outras formas de analfabetismo, que ajudam a explicar a atual carência dos processos formais de educação básica eficiente. Ajuda neste exercício escutar o Papa Francisco, quando fala de três males que estão corroendo a contemporaneidade: as misérias moral, material e espiritual. A miséria material é, sem dúvida, consequência das misérias espiritual e moral. A sociedade moderna está padecendo de um completo analfabetismo moral. Tudo é negociado, ameaçado, disputado e dividido. Infelizmente, valem os interesses que atendem demandas do que o Papa Francisco aponta como “idolatria do dinheiro”, levando a qualquer efeito, desde que o próprio interesse seja atendido, muitas vezes até com aparências de religiosidades e de comprometimento político. O analfabetismo moral está conduzindo a humanidade a um nível intolerável de prejuízos, muitos irreversíveis. Ele só será corrigido pela superação da miséria espiritual.

Esse analfabetismo, consequência da miséria espiritual, é o conjunto que reúne ganhos salariais exorbitantes, o consumo desarvorado e doentio, o desejo de poder que negocia tudo e os medos que fazem perder a serenidade na busca pelas correções necessárias. Para superar esses males e, consequentemente, desenvolver a imprescindível sensibilidade social, é preciso caminhar junto com os pobres e sofredores, buscar o caminho da espiritualidade como prática no seguimento de Jesus Cristo. Assim, serão encontradas as dinâmicas para promover atitudes de ruptura e novas escolhas, capazes de efetivamente combater o analfabetismo educacional e, particularmente, o analfabetismo moral. Todo cidadão deve se comprometer no fortalecimento das bases de uma sociedade mais solidária, travando uma grande luta contra todos esses tipos de analfabetismo. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo 

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Fraternidade na economia 

A fraternidade na economia é uma premissa determinante na construção da paz. Lamentavelmente, a idolatria do dinheiro tem estreitado mentes e corações, negociações e pactos, em razão da hegemonia exercida sobre o desejo e sobre as razões de viver das pessoas, de povos, grupos e culturas.

Entre as dinâmicas da idolatria do dinheiro, além da mesquinhez que limita as oportunidades de partilhas, apoios e desenvolvimento de projetos básicos para o crescimento das populações, inscreve-se a devoradora compulsão pelo consumo. Conduta que está na base da crise de valores, experimentada em todo o mundo, por reduzir a pessoa ao seu poder aquisitivo.

O desarvoro do consumo gera voracidade e tiranias incontroláveis no íntimo das pessoas, determinando dinâmicas perversas para a sociedade contemporânea. Como enfrentar adequadamente as graves crises financeiras e econômicas deste tempo? O lucro é determinante e deve ser sempre maior. Impõe o esvaziamento antropológico de entendimentos sobre o que é essencial na vida das pessoas, impedindo investimentos, partilhas e apoios. Torna-se meta principal, sacrificando projetos e programas que poderiam fazer a diferença em cenários de pobreza. A lógica do lucro que expulsa a fraternidade das dinâmicas da economia gera outras consequências igualmente preocupantes, tecendo uma rede de violências, perversidades e corrupção. Destrói o que poderia se traduzir em exercícios ricos de fraternidade. O Papa Francisco, na convicção que rege o serviço evangelizador da Igreja, constata e chama à reflexão sobre o afastamento do homem, de Deus e do próximo e sobre o empobrecimento das relações interpessoais e comunitárias como causas fatais dessa realidade contemporânea.

As pessoas são consequentemente empurradas na direção do consumo, na busca do lucro a todo custo e fora da lógica de uma economia saudável. O cenário é de desgoverno e de descontrole, realidade que pesa sobre todos os ombros. Não se pode continuar crescendo e avançando, comprometendo aspectos essenciais, gerando prejuízos irreversíveis, como a perda do sentido fundamental de humanidade que sustenta cada pessoa.  O sistema de produção e os meios de comunicação, já dizia o Bem Aventurado Joao Paulo II, têm enorme responsabilidade pela forte influência no dia a dia das pessoas e na formação de conceitos que não priorizam o que, de fato, é importante.

É clara a convicção de que as crises econômicas e suas injunções devem levar os construtores da sociedade pluralista, dirigentes governamentais e cidadãos a repensar os modelos de desenvolvimento e os estilos de vida. Transformações que têm sido claramente indicadas como possibilidades de proteger cada pessoa da agressividade dos mecanismos da sociedade do lucro e do consumo. A mudança de estilo de vida - frisa o Papa Francisco, em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, não pode abrir mão do cultivo das virtudes da prudência, temperança, justiça e fortaleza.

A mudança da sociedade não virá, nem se sustentará, simplesmente pelas dinâmicas próprias da economia, que não possui arcabouço suficiente em si mesma para promover as transformações que a cultura contemporânea necessita.  Apostar em outro modelo econômico como solução para as sociedades faria, apenas, aumentar a lista dos fracassos na busca da paz e adiaria a possibilidade de uma justiça social mais abrangente e mais significativa.

A fraternidade sim, tem a energia necessária para mudar a economia. Vivida e cultivada pela força motriz das virtudes tem propriedades singulares e únicas para extinguir a guerra, humanizar as relações econômicas e promover o entrelaçamento de pessoas. A Fraternidade tem o poder de iluminar a inteligência gerando entendimentos que arquitetam pactos sociais e políticos. A fraternidade, como via para a paz, é o caminho novo para a economia. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo 

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Sinal de alerta 

Os horrores nas prisões, lá, aqui, ou em qualquer outro lugar, chamam atenção da sociedade como grande sinal de alerta. As sombras que surgem dos cenários de matança nos presídios, com estatísticas preocupantes, ou as condições deprimentes, o modo como seres humanos são tratados, comprovam uma crise da sociedade. O recente noticiário sobre os atos de violência que ocorrem no Maranhão reflete o que pode acontecer no Brasil afora. Uma situação deprimente e preocupante, que requer sérios questionamentos e mais compromisso com a dignidade humana.  Trata-se de um sinal de alerta, em qualquer parte, porque a situação é gravíssima.

Não basta neste momento dizer que já se investiu muito no sistema carcerário e contabilizar os feitos de um período determinado. Os atos de violência que se configuram em sinal de alerta estão pedindo ações mais determinantes e de caráter permanente por parte dos dirigentes todos e de cada organização da sociedade civil, das igrejas e dos cidadãos. Essas providências requeridas não podem ser sazonais, isto é, quando o assunto é evidência na mídia. Quem visita os cárceres sabe bem que ali está um verdadeiro inferno. Infelizmente, os presídios são um depósito desrespeitoso de seres humanos.

A concepção de castigo e pena, com sua definição judiciária própria, não pode anular o compromisso social e político, da mais alta relevância, de recuperar cada pessoa, oferecendo oportunidade para detentos alcançarem sua inteireza física e moral. Isto deve ser prioridade dos governos, nas diferentes esferas, com ações menos burocráticas e mais efetivas que busquem a ressocialização de pessoas, criando condições para seu desabrochamento humano e espiritual, sua inserção na vida social e política. A punição é indispensável, mas não deve ser justificativa para que, principalmente, os dirigentes, os construtores da sociedade pluralista e os zeladores e defensores do direito e da justiça, “depositem” aqueles que devem ser punidos em condições desumanas.

Torna-se fácil adiar respostas, esconder de todos uma realidade, até o dia em que “estouros” acontecem, expondo a fragilidade de governos, a falta de compromisso da sociedade e, particularmente, os resultados nefastos das ações que priorizam os interesses de oligarquias, uma política feita em tom menor. Os recentes acontecimentos servem de alerta para governos que não têm sabedoria para escolher prioridades e estão mergulhados em burocracias marcadas por incompetências. É preciso vencer esses obstáculos e, assim, desenvolver ações cotidianas necessárias para avançar na direção do zelo indispensável pela dignidade de toda pessoa humana. A lentidão com que se avança na implantação das Associações de Proteção e Assistência aos Condenados (APACs) é exemplo de prejuízo que se tem com este tipo de burocracia.

 O comprovado e admirável sistema APAC compreende os apenados como destinatários de um cuidado específico. Não busca encobrir desmandos, crimes e ações imorais. Objetiva, prioritariamente, a recuperação das pessoas. É preciso atentar-se para o “sinal de alerta” que vem das prisões, sob pena de não se ver - o que de certo modo já acontece - a semelhança entre os horrores dentro dos cárceres e aqueles que vão se multiplicando, em violência, corrupção e mesquinhez, nas ações nascidas de cidadanias comprometidas. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo 

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

Vós sois todos irmãos 

A história da humanidade neste terceiro milênio anseia por grandes revoluções e já há indicativos apontando as mulheres e os jovens como os  protagonistas destas transformações. Há, no entanto, um modo singular que pode fazer de todos e de cada um protagonista, segundo sua possibilidade e a partir de sua condição e circunstância. Isto porque a força motriz das grandes transformações vem da vivência da fraternidade. O princípio fundamental da fraternidade universal é a consciência e a  consideração efetiva de cada pessoa como irmão e irmã. Não se imagina mais que a construção da sociedade aconteça ou possa depender simplesmente de articulações político-partidárias, de logísticas ou simplesmente de investimentos.

A gravidade da situação mundial passando pelos conflitos de vizinhança, aos que ocorrem no ambiente familiar, incluindo outros cenários preocupantes, comprova que o grande e prioritário investimento deve ser feito na questão da fraternidade. O ponto de partida simples, exercício diário, é aquele que demove corações e sentimentos da comum e absurda consideração do outro como concorrente ou inimigo, comprometendo e impedindo o que há de mais natural na condição humana, a fraternidade.

A humanização das dinâmicas da sociedade para superar seus descompassos frenéticos configurados em violências, corrupção, pretensão de dominação, começa pelo sentimento mais ansiado e guardado como selo indelével no coração de cada pessoa. É o anseio de fraternidade a ser cultivado, aprendido, exercitado. Sem a inserção permanente neste processo, que envolve também a correção dos sentimentos que nos distanciam da verdadeira condição humana, de fato, cada um se torna lobo e inimigo do outro. Na interação com o outro, há de se prevalecer o respeito ao bem comum e do compromisso, particularmente, com os inocentes, pobres e sofredores. A fraternidade é uma espiritualidade vivida em dinâmicas e práticas. Uma espiritualidade que convence não haver outro caminho mais eficaz quando se pensa a busca, a conquista e o cultivo da paz que faz valer a pena viver. Dá sentido e dignidade ao dom da vida.

Sem o sentimento fraterno, a cidadania perde a força profética para reinventar as relações sociais e iluminar os horizontes políticos, tornando-se mero cumprimento rígido de prescrições. A fraternidade é, pois, um exercício cotidiano como resposta a uma pergunta fundamental, até incômoda, talvez por questionar e confrontar status variados, mas determinante na aprendizagem das dinâmicas que nos fazem irmãos e irmãs uns dos outros: Onde está teu irmão? Esta pergunta é central no diálogo de Deus com o outro que é cada um, base de toda autêntica vivência da fé. Uma leitura antropológica que revela a um povo que seu futuro e anseios de transformação não surgirão sem a força singular da fraternidade.

Onde está teu irmão é a interrogação que Deus, na narração das origens, faz a Caim, responsável pelo sangue de Abel. As diferenças se tornam riquezas unicamente pela força da fraternidade. A perda do sentido deste valor leva Caim ao absurdo inaceitável, por inveja e concorrência, da eliminação do seu irmão na ilusão de assim abrir os próprios caminhos. Uma ilusão que preside todo tipo de atentado contra a fraternidade, a partir da perda deste sentido inscrito na capacidade que cada um deve ter de responder a respeito do outro, especialmente quando este outro é o pobre. O grande propósito essencial e determinante é dar oportunidade a cada pessoa de avançar na superação da indiferença, do ódio, do egoísmo. Sem esse investimento diário e permanente, as riquezas nunca serão suficientes e se tornarão sempre pretexto para brigas e desentendimentos, em cenários que, de um lado mostram os que esbanjam e vivem na opulência e, de outro, os que passam fome e morrem na miséria - nunca conseguem usufruir do quinhão que lhe é de direito, por força da sua dignidade humana.

A espiritualidade que nasce da fraternidade não pode prescindir, lembra-nos o Papa Francisco, em mensagem para o Dia Mundial da Paz, não se alcança senão quando se compreende e se vivencia o mais profundo sentido da paternidade de Deus. A fraternidade não é uma simples questão de lógica. É uma espiritualidade cuja raiz tem seu nascedouro na compreensão e vivência da paternidade de Deus. O progresso na compreensão e vivência desta espiritualidade são dons que se recebe na experiência do seguimento de Jesus Cristo. O conhecimento e amorosa obediência a Ele impulsionam na direção consequente do mais autêntico e eficaz sentido de fraternidade, com lições e exercícios que convencem e se originam sempre da verdade fundamental do coração do Salvador da humanidade: “E vós sois todos irmãos!” 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo 

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Mensagem do Papa Francisco 

Em sua primeira mensagem de 2014, no Dia Mundial da Paz, o Papa Francisco trata de um tema importante: “Fraternidade, fundamento e caminho da paz”.  O texto é fruto de um zelo apostólico que desenha um horizonte luminoso para a humanidade, em busca de rumos novos para a história. A partir de preocupações pastorais, e balizado por sensibilidade missionária, o Papa Francisco argumenta sobre a importância fundamental da fraternidade como condição insubstituível para a construção da paz. Resgata e indica o anseio irreprimível pela fraternidade que se hospeda no coração de cada homem e de cada mulher. Um anseio que, em razão de desgastes e de dinâmicas na contramão da solidariedade - como os cenários de violência e corrupção - fica sepultado no mais recôndito dos corações. E nessa condição, impede que cada pessoa seja instrumento da paz pela força do amor fraterno.

Por sua constituição própria, o coração humano possui um dinamismo que conduz ao caminho da comunhão, superando o sentido inaceitável de ver o outro como concorrente ou inimigo.  Imprescindível e prioritário é recuperar a fraternidade como dimensão essencial de cada pessoa, cultivando cotidianamente o exercício que reforça, em cada um, o sentido relacional que define o ser humano. Assim, desenvolve-se a capacidade de tratar cada pessoa como verdadeiro irmão e irmã.  Esse exercício, o Papa sublinha, se faz primeiramente no seio da família, graças, sobretudo, às funções responsáveis e complementares de cada um dos seus membros, particularmente do pai e da mãe.

Na mensagem, o Papa Francisco afirma categoricamente que “a família é a fonte de toda fraternidade, sendo, por isso mesmo, também o fundamento e o caminho primário para a paz, já que, por vocação, deveria contagiar o mundo com seu amor”. Esse entendimento é um convite irrecusável a cada membro de cada família, sobretudo para o pai e a mãe, a pensar muito seriamente em seu papel, seu modo de conduzir a vida em família. Não se pode querer construir a paz sem compreender e sem se comprometer com o próprio núcleo familiar.  Cada família tem um papel decisivo na configuração da fraternidade universal. Todos precisam investir nesse núcleo celular, convencidos de que daí vem uma força notável, decisiva na formação da consciência relacional que é condição para se alcançar a paz.

O Papa Francisco cita Bento XVI que, em certa oportunidade, lembrou que a globalização torna cada um vizinho do outro sem, necessariamente, converter essa proximidade em sentimentos fraternos. Há uma permanente luta a ser travada contra ideologias que reforçam o individualismo, egocentrismo e o consumismo materialista, que debilitam laços sociais e alimentam a mentalidade do descartável. Essas ideologias conduzem ao desprezo e abandono dos mais fracos, daqueles que, nessa distorcida visão de mundo, “são considerados como inúteis”.

É urgente, portanto, multiplicar, pela célula familiar, experiências - pequenas, grandes, simples, cotidianas - de práticas que permitam a aprendizagem e a criação do gosto por uma ética que capacite cada pessoa a produzir e a manter vínculos. Sem essa prioridade, nem mesmo com outras ações, projetos e programas, não se poderá desenhar um cenário de paz. As lamentações aumentarão, os absurdos hediondos de todo tipo continuarão a acontecer, o medo vai empurrar todo mundo cada vez mais para dentro de guetos de segregação, desconfiança e preconceitos. Comprometida estará, cada vez mais, a fraternidade universal. Não se alcançará um nível razoável de solidariedade, com força para mudar o que faz parte de uma “ladainha” interminável de reclamações, necessidades e reinvindicações.

Esse exercício de se construir vínculos pode  começar  por uma interrogação que deve interpelar a consciência de cada um - aquela pergunta de Deus a Caim, querendo saber de Abel: “Onde está teu irmão?” Uma pergunta que, respondida, reforça a convicção que salvará o mundo e fará dele um lugar de paz. “Somos todos irmãos”, ensina a mensagem do Papa Francisco. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo 

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


 Ano novo feliz? 

“Feliz Ano Novo” é o augúrio contido nos votos tradicionalmente feitos, no desejo de cada coração e, particularmente, nas urgências e demandas que os variados cenários da sociedade estão gritando em alta voz. Ano Novo pela contagem de um dia após o outro não é novidade. O tempo passa inexoravelmente. Ninguém o detém e ele corre talvez ainda mais veloz na atualidade. São avalanches de solicitações, possibilidades, necessidades criadas, mas pouca interioridade.

Os grandes mestres ensinam que o tempo é, sobretudo, uma questão de interioridade. Se tudo é centrado na exterioridade e nas aparências, o tempo não só passa muito rápido como também de maneira pouco aproveitável. Desse modo, a cidadania fica comprometida, habitua-se a superficialidades e, lamentavelmente, o tempo da vida é compreendido como momento para se buscar o atendimento de interesses mesquinhos. Sem interioridade, adota-se um modo egoísta de viver, sem comprometimentos com a ordem social e com a lúcida exigência para as dinâmicas políticas.

O desejo de “Feliz Ano Novo”, para além da formalidade, uma expressão automática, até maquinal, para ser realidade, precisa de algo mais. É urgente cultivar uma nova sensibilidade social e política, formatando de maneira nova a cidadania. A “novidade” do “ano novo” depende do sentido social que alavanca e impulsiona a condição cidadã de cada indivíduo. Esse sentido inclui desde a educação de não jogar um papel de bala fora do cesto de lixo até a esperada competência e velocidade indispensáveis nas ações dos que governam, dos que têm maiores responsabilidades como construtores da sociedade pluralista.

O profeta Isaías, para despertar a consciência do povo, ação insubstituível para a novidade no tempo, fala do sentimento e do propósito de Deus a ser também assumido por todos os cidadãos de boa vontade. Ele compartilha que Deus, por amor, não descansa enquanto não surgir na sociedade, como luzeiro, a justiça, e não se acender nela, como uma tocha, a salvação. Deste modo se desenha o caminho para desdobramentos que possam trazer o novo, na contramão de interesses meramente grupais, partidários e religiosos, algumas vezes mesquinhos e alienantes.

O ano de 2014 não pode se resumir ao período eleitoral, considerada a sua importância decisiva, e nem simplesmente na festa da Copa do Mundo. Deve se constituir nesse tempo que se inicia uma chance para que os políticos não esgotem suas ações em meandros partidários, visando interesses próprios e de apoiadores. O sinal estará dado na qualidade do discurso, que deve ultrapassar o conservadorismo de ataques mútuos ou de armação de ciladas. A hora é de propor ações e programas com comprovada autoridade política, a partir do entendimento de que o povo é o verdadeiro detentor da soberania.

Esta compreensão inclui, pois, a competência e a sensibilidade requeridas para priorizar as necessidades do povo. Nesse sentido, ainda longo é o caminho e necessários são os ajustamentos nas práticas executivas governamentais. Nota-se uma falta de sensibilidade social e embasamento humanístico, nos mais diversificados setores, inviabilizando atendimentos básicos, como transporte, moradia, saúde, educação, lazer. A burocratização e a redução de tudo a números, analisados e tratados nos escritórios, comprovam essa falta de sensibilidade.  Revelam ausência de formação humanística que estreita a própria cidadania, permitindo uma satisfação a partir de indicadores que, mesmo volumosos, não podem camuflar a aflição dos outros, particularmente dos mais pobres e sofredores.

As estratégias e metas são importantes nas definições e nas escolhas. Imprescindível é o cultivo da sensibilidade social, à luz da fé e inspirada por um alto sentido de cidadania. Caso contrário, “chove-se no molhado” e não se verificam avanços globais, com o necessário envolvimento de todos. Em busca do novo para o Ano Novo, vale ter em conta a indicação do Papa Francisco, para quem crê e para quem quer honrar sua cidadania. O Papa sublinha que cada cristão, cidadão e comunidade tem o dever, se quiser gerar o novo, de ser instrumento de Deus e da cidadania, a serviço da libertação e da promoção dos pobres. Essa é a única via de capacitação para contribuições relevantes no diálogo em vista da paz social. Se todos seguirem essa indicação, 2014 poderáser, efetivamente, um “Ano Novo”. 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo 

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte


Hoje (15 de Abril) teve início em Roma a abertura, pelo Chanceler da Congregação para a Causa dos Santos, Monsenhor Giacomo Pappalardo, dos documentos da fase diocesana levado à Roma pelo postulador Dtt. Paolo Vilotta. Com isso, iniciam-se os trabalhos da fase romana do processo de beatificação da Serva de Deus Benigna:


 Vaticano confirma o recebimento dos documentos para a fase romana do processo de beatificação de Irmã Benigna:


Visite o site o site da postulação dos Santos em: 

http://www.postulazionecausesanti.it/


Transferência de local da Oração dos vinte terços:


Horário de visitação à sepultura da Serva de Deus Benigna Victima de Jesus na capela do Noviciado Nossa Senhora da Piedade:

De segunda a domingo, das 9h às 11h30 e das 14h às 17h.

Endereço: Avenida Antônio Francisco Lisboa, nº. 102 – bairro Bandeirantes / Pampulha – Belo Horizonte


Dom Walmor decreta transferência da novena para Igreja de Nossa Senhora da Conceição:

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